Desporto

Europeu: É assim que o destino bate à porta

Portugal, a seleção do “jogo bonito”, como lhe chamam em França, está nas meias-finais jogando de forma contida e à beirinha de cumprir o seu sonho. Parece estar cansado de jogar bem e não ganhar. Trocou o mata-mata pelo empata-mata.

É talvez um contrassenso, mas também um facto claro e indesmentível, límpido como os olhos de Elizabeth Taylor: as seleções nacionais que chegaram às meias-finais dos Europeus de 1984, 2000, 2004 e 2012 foram capazes, aqui ou além (e, às vezes, aqui e além) de exibições de engordar o olho ao mais exigente dos críticos, coisa que esta ainda não conseguiu fazer, embora o resultado prático seja o mesmo. Mas ainda está a tempo de justificar a sua presença entre os quatro melhores da Europa.

Uma vez perguntaram a Ludwig Van Beethoven que significado tinha aquela imperial entrada da sua Quinta Sinfonia, ao que ele respondeu: “É assim que o Destino bate à porta!”.

É assim que o Destino parece querer bater à porta de Portugal. Sem brilho, sem espanto, mas também sem favores, a Seleção Nacional acaba de se qualificar para a sua quinta meia-final de Campeonatos da Europa sem deixar para trás, no entanto, a marca de uma grande equipa. Provavelmente, até agora, poucas seleções o fizeram - talvez, quando muito, a Alemanha e a Itália, ambas protagonistas do mesmo jogo dos quartos-de-final de hoje, em Bordéus. Mas a verdade é que o sonho de Fernando Santos continua vivo e mais perto de se realizar do que nunca, pequeno é o passo que separa a “Equipa de Todos Nós”, como lhe chamou Ricardo Ornellas, da ansiada final de Paris.

Há uns anos, um jornal mexicano queixou-se assim de uma derrota da sua seleção, numa manchete maravilhosa: “Jogámos como nunca e perdemos como sempre”. Também se pode queixar disso a seleção de Portugal, muitos que foram os seus jogos históricos com derrotas dolorosas, falhando sempre o objetivo de vencer uma das grandes competições do futebol internacional.

É difícil dizer que este Portugal não joga como nunca. De facto joga como nunca jogou, mas porque de uma forma diferente, acanhada, timorata, encolhido sobre si próprio como se com medo de ser vítima do seu próprio talento tantas vezes desperdiçado. Não joga como nunca enchendo os olhos dos espetadores, fazendo-os saltar de prazer nas bancadas dos estádios ou nos sofás que se espapam à frente das televisões. Esse Portugal de outrora, espetacular e sensível, ainda não o vimos neste Euro-2016, e tenho muitas e muitas dúvidas que ainda o vejamos, tão enraizado está o princípio do seu selecionador de que até empatando todos os jogos se pode ser campeão europeu.

Do mata-mata ao empata-mata

Luiz Felipe Scolari trouxe para o léxico do futebol em Portugal a expressão de mata-mata quando, em 2004, após o jogo de estreia se viu na obrigação de conduzir a seleção a duas vitórias consecutivas logo na frase de grupos. Ao assumir que não se importava de empatar todos os jogos se, à custa de grandes penalidades, se tornasse campeão da Europa, Fernando Santos inaugurou a modalidade do empata-mata.

Na verdade, só um Europeu em versão ‘maximalista’ como este, no qual os quatro melhores terceiros classificados de cada grupo também se apuraram para os oitavos-de-final, é que permitiu a Portugal ainda estar, neste momento, em prova. Convenhamos: ao seguir em frente com três empates na fase de poule, garantindo ser um dos melhores terceiros, foi o ideal para a equipa das quinas. Deixando à Islândia (segunda do grupo) o trabalho de defrontar a Inglaterra e, agora, a França; empurrando a Hungria (primeira do grupo) para os braços da Bélgica, Portugal fugiu a embaraços maiores e, sobretudo, à metade da fase a eliminar que conta (contava) com os ossos duros e sem carne da Espanha, Itália, Alemanha e França, todos eles carrascos habituais das grandes aspirações lusitanas.

Por outro lado, acrescentou-lhe a responsabilidade de assumir (ou, no mínimo, como contra a Croácia, dividir) o favoritismo, algo com que não tem sabido lidar, sobretudo pela forma como se apresenta em campo, sempre muito metido nas suas tamanquinhas e pouco decidido a golpear os adversários continuamente dentro dos seus meio-terrenos como um boxeur que vai de gancho e uppercut à procura do KO do seu opositor. A Seleção Nacional tem sido uma equipa de espera… Espera o seu momento, espera o erro contrário, espera o golpe da fortuna que a há-de abençoar no momento decidido pelo Destino.

E Ele responde-lhe, oferecendo o apoio amigo de quem tem conhecimento de tantas das suas anteriores frustrações. Por muito cruel que o Destino tenha sido com Portugal noutros momentos de outros torneios, dá agora ideia de se ter arrependido. Bateu à porta e pediu para entrar, mesmo que certamente descontente com tantos e tantos minutos tristonhos trazidos para os estádios de França por essa equipa que era sinónimo de ‘Brasil da Europa’. Mas o Destino é mesmo assim: surge quando menos se espera para mudar o rumo à vida de cada um. É preciso aproveitar o seu sopro como as caravelas de antanho aproveitavam as correntes do sudoeste para se encaminharem para a Índia. Poucos lá chegam, mas há sempre uma Índia em toda a parte. Como se fosse um desígnio da vontade…