Cultura

Alvin Toffler: o visionário da era digital

Toffler começou a escrever poesia e contos mal aprendeu a ler, com sete anos

Alvin Toffler foi o mais celebrado dos autores que se dedicaram a antecipar as transformações a que a vida das pessoas e das instituições foi sujeita nas últimas décadas do século XX com a ascensão da tecnologia digital. O guru da era pós-industrial morreu na passada segunda-feira durante o sono, na sua casa em Bel Air, Los Angeles. Tinha 87 anos.

Com um espírito tremendamente inquisitivo, Toffler que começou a escrever poesia e contos mal aprendeu a ler, com sete anos, e durante toda a juventude sonhou vir a ter uma carreira literária na esteira dos autores que mais admirava, como John Steinbeck e Jack London, acabou por se dar conta de que lhe faltava o talento necessário para ombrear com os grandes mestres, e veio a revelar o seu génio enquanto autodidata na forma como abordou as ciências sociais, sendo sensível às variações onde via desenhar-se a tendência do futuro.

Nasceu em Nova Iorque a 4 de outubro de 1928, filho de um casal de imigrantes judeus polacos. Formou-se na Universidade da cidade e nesses anos era um marxista bastante ativo nos movimentos sindicais, tendo continuado a questionar os fundamentos da economia de mercado muito tempo depois das suas posições políticas se terem moderado.

Depois de ter passado os primeiros anos da sua vida profissional como trabalhador fabril no estado do Ohio, dedicando-se à noite às suas aspirações literárias, conseguiu dedicar-se à escrita como freelancer fazendo reportagens sobre a área da indústria. Foi já a meio dos anos 1960 que tomou a decisão de passar cinco anos a estudar as causas subjacentes a uma revolução cultural que sentiu que estava a acontecer nos EUA e em outros países desenvolvidos. O resultado desse trabalho foi Choque do Futuro (1970), um livro que vendeu milhões de exemplares em todo o mundo e fez de Toffler o pioneiro de uma estirpe nova de intelectuais que começava então a emergir - os gurus da ‘Era da Informação’ (termo que ele cunhou).

Naquele que viria a ser o primeiro livro de uma trilogia - uma década mais tarde (assumindo já a coautoria com a mulher, Heidi, que lhe sobreviveu) prosseguiu-o com A Terceira Vaga e na década seguinte com Os Novos Poderes, Toffler reúne dados sobre uma série de fenómenos em várias partes do mundo e chega à conclusão de que os avanços científicos a par daqueles na área financeira e nas comunicações estavam a operar uma transformação tão rápida e tão profunda que iriam conduzir a uma nova sociedade.

Longe de estar sozinho na previsão de uma mudança de paradigma económico, com os sistemas de produção e produção em massa a evoluírem para modelos computorizados e baseados na informação, nenhum outro autor teve a sua capacidade de popularizar esta noção, com os seus conceitos a serem adotados e as suas previsões sobre as consequências para a cultura, a família, o governo e a economia a serem confirmadas pelo tempo. Ele antecipou o desenvolvimento das técnicas de clonagem, a omnipresença dos computadores pessoais e a invenção da internet e da televisão por cabo. Descrevendo o desenvolvimento das sociedades como uma série de vagas, da revolução agrícola do Neolítico à industrialização no século XVIII passando para a Era da Informação após a década de 1950, Toffler alertou para as perturbações que adviriam de “demasiada mudança num curto período de tempo”, e anunciou os perigos e a sensação geral de ansiedade que as pessoas iriam sentir perante a incapacidade de se adaptarem à sucessão rápida de avanços tecnológicos e a quantidade avassaladora de informação que não dá tréguas a quem tenta processá-la. Cunhou também a expressão ‘information overload’ (sobrecarga informativa), e descreveu a “sensação de desorientação vertiginosa provocada pela chegada prematura do futuro” que hoje é conhecida de praticamente qualquer pessoas com mais de trinta anos. De resto, Toffler deixou muito claro que “os iletrados do século XXI não serão aqueles que não sabem ler e escrever, mas aqueles que não são capazes de aprender, desaprender e voltar a aprender”.

“O rugido da corrente de mudança”, segundo ele, estava a produzir visíveis e mensuráveis efeitos na vida dos indivíduos que estava a conduzir a um aumento da taxa de divórcio, a sobrecarregar as famílias e a levar a “esgotamentos devido à confusão”, o que se manifestaria num aumento da criminalidade, no uso de drogas e na alienação social. Toffler viu estes fenómenos como respostas psicológicas normais para a sensação de desorientação, e avisou que iriam representar um grande desafio para as estruturas das comunidades, instituições e nações.

Por outro lado, ele também soube construir uma visão otimista, garantindo que as reações traumáticas típicas dos tempos modernos faziam parte de um ciclo muito maior e que seriam contrabalançado, deixando uma ampla margem para a esperança no futuro. No geral, ele anunciou o fim das hierarquias centralizadas, exultando a passagem para um modelo de sociedade mais aberta e envolvente, povoada por um híbrido de consumidor e produtor a que ele deu o nome de ‘prosumer’.

Em 2002, a organização de consultoria em gestão Accenture colocou-o em oitavo na lista dos 50 intelectuais mais influentes na área dos negócios, e em 2006 o jornal chinês People’s Dayly nomeou-o como um dos 50 ocidentais que mais influenciaram o país, isto apesar dos seus livros estarem entre os censurados pelo regime comunista de Pequim.