Vida

Casamento engorda e divórcio emagrece

Em Setembro de 2004, FIlipe Pinto, hoje com 32 anos, pesava 68 kg. O verbo não é conjugado no passado por mero acaso. Quase oito anos passados, o ponteiro da balança já chega aos 110. A culpa tem um nome: vida em comum.

mal trocou o porto por caxias, arredores de lisboa, para ir viver com joana, o corpo deste solicitador começou a mudar. divertido, e sem medo de represálias por parte da mulher, fala em «envenenamento». «ele era carne de porco à alentejana, ele era pudim de leite condensado, mousse de chocolate,cheeseburguers triplos com extra queijo às 3h da manhã...», relata.

e o problema não foram só as iguarias que joana introduziu na vida alimentar de filipe, foi também a rotina que o solicitador, antes actor de teatro, deixou de lado.«deixei a ‘má vida’ do teatro e as noitadas até de manhã nos ensaios, em festinhas – sabe deus!». filipe solta uma sonora gargalhada e revela um segredo que parece ter sido bem guardado até agora:«fique sabendo que engordei este belo corpanzil no espaço de um ano, ano e meio».

ao fim desses 365 dias, quando se olhou para o espelho com olhos de ver, filipe não se reconheceu. achou que era outra pessoa que estava ali. «não me que já tinha pertencido a um atleta de alta competição e artista performativo», graceja. e como actor que já foi imaginou que 40 kg a mais era apenas uma segunda pele sobre si,«um casaco, que a certa altura despiria com facilidade».

até agora, faça frio ou calor, o casaco continua vestido. filipe pinto até já nem se lembra como era viver sem este peso sobre si. para já não sabe bem que decisão tomar para despir o ‘casaco’, sabe apenas que depois de ter sido pai pela primeira vez – gonçalo nasceu em novembro de 2010 –, o factor saúde já o preocupa mais e alguma coisa terá de fazer para inverter o ponteiro da balança.«agora penso mais a sério em concentrar esforços para ter um estilo de vida menos sedentário, mais saudável em termos nutritivos e de exercício físico». mas do pensar à acção parece que ainda falta um pouco.«de uma coisa estou certo: assim que meter na cabeça que tem de ser, será! só que para já para já, estou demasiado ocupado a ser preguiçoso».

quem diz a verdade não merece castigo… e para não culpar de todo a mulher com quem partilha a vida há quase oito anos, diz que os mais de 40 kg que carrega são também fruto de uma vida sem horários e, por vezes, tão desregulada.«num estilo de vida urbano, em que tudo é feito a contra-relógio, em que se anda sempre a correr de um lado para o outro, às vezes somos preguiçosos e deixamo-nos seduzir pela oferta gastronómica mais imediata, mais rápida, mais plástica, mais parva!».

não resiste a um cozido à portuguesa

jorge silva, de 44 anos, também engordou com o casamento. não é tão audaz como filipe, e por isso não fala em ‘envenenamento’, mas os 35 kg que ganhou ao fim de 18 anos de união, têm a mão de ana maria. em abril de 1994 quando disse o ‘sim’ em frente ao padre pesava 58 kg. e não foi preciso passar muito tempo até atingir os 93 que agora carrega.

«a comidinha da ana fez-me engordar um pouco», conta. com tanto jeito para a cozinha, ana encheu o marido de mimos. arroz de cabidela, cozido à portuguesa, sobremesas boas, mas calóricas, tudo feito com o amor de quem quer agradar o marido e… engordá-lo! até porque jorge não gostava de ser tão magro como era na altura em que se casou e também porque, como o próprio assume, a vida é para ser vivida e, de preferência, com algum sabor.

quando há uns anos iniciou uma radical dieta ficou mais magro, chegou até aos 71 kg. a roupa assentava-lhe melhor, o corpo tinha um ar mais atlético, mas a lembrança de certas iguarias falou mais alto. por isso, não guarda com saudade os tempos em que teve força de vontade e emagreceu.«quando cheguei aos 71 quilos praticamente não podia comer nada e a vida não tinha tanta piada», diz, sem ponta de arrependimento. e enumera os hábitos que lhe fizeram perder a linha:«com a dieta não podia comer os meus cozidos à portuguesa nem as feijoadas de que tanto gosto. nem tão pouco podia beber umas cervejas com os amigos no café».

jorge sabe que para ser mais saudável devia emagrecer cerca de 15 kg, mas quando se olha ao espelho, tanto tem uma reacção de choque como a maior parte das vezes já nem liga. o casamento trouxe-lhe uma vida mais sedentária e não foi só o jeito para a cozinha que a mulher tem que lhe fez aumentar, e muito, os números da roupa que veste. agora, passa mais tempo sentado no sofá e as noitadas que fazia frequentemente quase já não existem na sua rotina. afinal, não se pode só culpar a mulher de gostar da cozinha – a vida no sofá de comando na mão também não ajuda.

estica e encolhe

com paula costa não deixou de haver saídas à noite, mas as sopas que comia ao jantar enquanto era solteira deram lugar a pratos bastante mais elaborados e calóricos logo após o casamento. esta gestora, de 37 anos, é o exemplo vivo de que o casamento engorda e o divórcio emagrece.

aos 25 anos, antes do primeiro casamento, paula pesava 54 kg. morava sozinha e na sua cozinha só havia quatro tipos de alimentos: maçãs, bolachas e cereais integrais, e leite magro. era assim que alimentava o corpo que exercitava todos os dias no ginásio. depois apaixonou-se.«foi uma coisa de caixão à cova», recorda, com um riso divertido enrolado num sotaque nortenho.

ao fim de três meses veio o pedido de casamento. tudo como um conto de fadas. o agora ex-marido era um bom garfo, daqueles dispostos a fazer centenas de quilómetros só para comer um determinado prato. paula acompanhava-o nessas maratonas e os 54 kg começaram a fazer parte do passado. antes de casar, a gestora já pesava 62 kg. fechou a boca por uns tempos para estar mais bela do que nunca no vestido de noiva. após o dia do casamento voltou a engordar. chegou a ter que comprar roupa n.º 40 e isso angustiou-a.«ainda hoje recuso-me a comprar roupa desse tamanho».

enquanto o casamento durou, paula estava ‘gordinha’ e achava isso normal. tinha consciência do que tinha feito para chegar àquelas formas mais arredondadas. natural do porto, sentiu que para mostrar que estava a tratar bem do marido tinha de engordá-lo!«parece que é assim que pensam as pessoas. se o marido está magro é sinal de que não sabemos cozinhar e que ele está a passar fome» primorou-se nos seus dotes culinários. e foi uma engorda conjunta. até as idas ao ginásio passaram a ser cada vez mais espaçadas.

o casamento acabou passados cinco anos.«quando nos separámos deixei de fazer jantar». o iogurte com cereais passou a ser a sua companhia nocturna. não voltou aos míticos 54 kg, mas em pouco tempo o ponteiro da balança desceu cinco números. tudo até se apaixonar outra vez. e casar-se. e engordar tudo o que tinha perdido. quando chegou aos 62 kg deixou de se pesar.«fiquei mesmo muito, muito gorda», assume.

depois o casamento foi perdendo a chama, o negócio que criou trocou-lhe as voltas da alimentação e uma dieta rigorosa levaram-na a perder 8 kg. estava mais magra que nunca.«vejo fotografias dessa altura e quase não me reconheço. parecia uma teenager! estava com um corpo espectacular». as medidas perfeitas não deixaram paula solteira muito tempo. há cerca de dois anos que está numa nova relação e embora não vivam juntos todos os dias, a balança já somou mais uns quilos. antes de se apaixonar estava nos 55, agora já aumentou cinco. a culpa é do amor, de gostar de cozinhar e do seu lado maternal.

«as mulheres têm um instinto maternal e acham que têm que cuidar dos maridos melhor do que as mães deles cuidaram. querem engordá-los, mostrar que estão a tratá-los bem», explica, divertida. por isso, sempre que está apaixonada aprimora-se na cozinha. bacalhau com broa e outros tantos pratos de forno são a sua especialidade. e o pão nunca falta à mesa. isso quando tem companhia, é claro.«como a única coisa que sei fazer em casa é cozinhar, aplico-me bastante». e os resultados começam a fazer-se sentir na cintura.

paula não tem balança em casa, mas rege-se pelo tamanho do rabo. quando é preciso inspirar três vezes fundo, esticar-se na cama e encolher o mais possível a barriga para entrar em certas calças, percebe logo que os quilos estão a aumentar. nessa altura, usa mais vestidos. comprar roupa um tamanho acima é algo que se recusa a fazer.«se não entro num 38 recuso-me a comprar maior. é uma desgraça». a gestora já sabe que sempre que está bem emocionalmente isso reflecte-se no seu corpo, da mesma forma que quando está mais em baixo os quilos começam a desaparecer.«acho que a tristeza emagrece. quando estou com esse estado de espírito nem me lembro de comer».

agora, feliz e apaixonada, tem-se aplicado na cozinha, mas também tem feito visitas regulares ao ginásio.«tenho uma idade em que já não posso dar muitas tréguas. mas agora até me sinto bem, não acho que estou na fase monstrinho das bolachas!».

chocolate contra a depressão

carolina (nome fictício), 47 anos, desde que se divorciou que perdeu peso consistentemente. não por tristeza, mas sim pela sensação de liberdade que sentiu. quando se casou pesava 57 kg, sete anos depois a balança já marcava uns estranhos 77. foi quando o casamento entrou numa fase negra que encontrou o escape na comida e, especialmente, no chocolate.«sempre comi pouquíssimo, mas quando o meu casamento começou a correr mal, desatei a comer tudo o que apanhava à frente e comia uma tablete de chocolate, de 200 gr, por dia», explica. depois ficava enjoadíssima, mas mesmo assim não parava de comer.«comia até ficar mal disposta e no dia seguinte voltava a fazer a mesma coisa».

o espelho tornou-se o grande inimigo de carolina. quando se deparou com o que tinha engordado, sentiu-se infeliz, mas não conseguiu parar de comer.

só o fez quando o casamento chegou ao fim. respirou fundo e voltou a ser a mulher que era.«emagreci com a sensação de liberdade. de repente, deixei de ter razões para me maltratar e voltei a comer pouco e a odiar chocolate». foi o suficiente para fazer as pazes com o espelho e com a balança. não foi preciso fazer dieta:«nem percebi que estava a emagrecer até que a roupa me começou a ficar larguíssima. e os meus amigos começaram a dizer que eu estava a ficar normal», conta. foi aí que reparou que tinha deixado de comer chocolate e que não estava sempre a comer. ao contrário da maioria dos casos, o divórcio trouxe alegria à vida de carolina e os chocolates anti-depressivos deixaram de existir. agora está feliz. e magra.

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