Internacional

Juncker sob fogo alemão

Sobemn as pressões para que o presidente da Comissão interrompa o mandato a meio. Intervenção no rescaldo do Brexit e negociações com Londres podem levar Merkel a forçar saída.

Um ministro do governo alemão, sob anonimato, adiantou ao The Sunday Times a sentença de morte de Jean-Claude Juncker como presidente da Comissão Europeia: «A pressão sobre ele [Juncker] para se demitir só vai aumentar e a chanceler terá eventualmente de lidar com isso no próximo ano», revelou domingo a fonte governamental, citada pelo Expresso online, dizendo que a chanceler está «furiosa» com a atitude «gabarola» de Juncker perante o resultado do referendo.

O homem, que foi primeiro--ministro do Luxemburgo durante 20 anos e presidiu ao Eurogrupo, foi nomeado presidente da Comissão Europeia em junho de 2014 no meio de um processo conturbado que dividiu profundamente os partidos do Partido Popular Europeu, vencedor das eleições europeias desse ano. Depois dos dois mandatos de Durão Barroso, o PPE tinha a responsabilidade de propor ao Conselho Europeu o nome do seu sucessor.

Numa primeira fase, Jean-Claude Juncker teve o apoio total da poderosa Alemanha e da sua chanceler, Angela Merkel. Mas o entusiasmo com a nomeação do político luxemburguês foi arrefecendo e só muito contrariada é que Merkel deu o aval a Juncker.

Cameron contra Ainda por cima, do outro lado do canal da Mancha, o primeiro-ministro inglês, David Cameron, opunha-se à sua nomeação de forma pública e notória e chegou a ir falar com Merkel a Berlim. Cameron tinha vencido as legislativas britânicas, com maioria absoluta, com a promessa de fazer um referendo sobre a presença do Reino Unido na União Europeia e ia iniciar um longo e difícil processo de negociações com a Comissão Europeia para garantir mais autonomia e soberania do seu país em diversas matérias, nomeadamente sobre a livre circulação de pessoas e a entrada de emigrantes europeus na Grã-Bretanha.

Para Cameron, a nomeação de um representante da «velha guarda» comunitária iria ser um obstáculo às pretensões britânicas e uns trunfos mais para os defensores da saída do Reino Unido da União Europeia. Cameron perdeu a batalha, conseguiu depois umas poucas vitórias nas negociações com Bruxelas, avançou mesmo para o referendo de 23 de junho com uma posição a favor da Europa, perdeu essa batalha e sai em setembro do poder.

Gota de água Mas se Cameron perdeu em toda a linha, Juncker não é propriamente um vencedor. As suas posições logo a seguir à vitória do Brexit irritaram profundamente Angela Merkel e outros líderes europeus. O espetáculo que Juncker deu no Parlamento Europeu, ao perguntar aos eudeputados britânicos porque é que ainda ali estavam, e outros comentários avulso foram a gota de água. Os sinais de que algo vai mudar em Bruxelas começaram logo a ser dados pela chanceler alemã a seguir ao Brexit, ao receber em Berlim o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, o presidente francês, François Hollande, e o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, e ignorar ostensivamente o presidente da Comissão Europeia. O político luxemburguês pode ter tido a sua última intervenção relevante neste processo no jantar de há uma semana, em Bruxelas, que marcou a despedida de Cameron das reuniões do Conselho Europeu. Juncker, em tom irónico num ambiente de velório, saudou o discurso do britânico da seguinte forma: «Se os políticos britânicos tivessem feito esse discurso nos últimos 30 ou 40 anos, não tínhamos chegado aqui».