Sociedade

O inferno escondido da ‘seita’ de Palmela

Um pretenso psicólogo recebia crianças em casa a pretexto de lhes dar explicações e consultas, mas usava-as sexualmente e vendia-as na internet. Aterrorizava-as dizendo-se líder de uma seita. O caso, pela dimensão, surpreendeu as próprias autoridades. 

Ao nosso lado, a uns metros de distância de qualquer olhar, pode esconder-se o inferno. Em janeiro de 2014, Rui Pedro, acompanhado da mulher e dois filhos pequenos, de ar modesto e com planos para o futuro que só poderiam ser engendrados por homem aparentemente íntegro e dadivoso, chegou a uma vivenda com umas boas braçadas de terreno nos arredores de Palmela. Com ele o seu motorista, que apesar dos supostos tombos na vida nunca abandonara, e o respetivo filho menor. Os donos da propriedade – gente de trabalho, que ao longo dos tempos foi construindo a casa à medida das suas economias –, com pena do casal desempregado, alugaram-lhe por tuta e meia dois anexos no fundo da quinta para as duas famílias se instalarem.

Os contactos entre Francisco e Elisa, os proprietários, e os inquilinos eram escassos. Lá ao fundo, durante o dia, ouviam as gargalhadas das três crianças. «Pareciam felizes, quem podia suspeitar?» – recorda Francisco, como quem ainda está a despertar agora para um pesadelo. Mas aos três meninos, e os outros que com o tempo a eles se juntaram, já tinham destruído a infância, essa espécie de reserva espiritual que fica para a vida.

Filho abusado pelo pai desde os três anos

Sabe-se agora, depois de uma investigação judicial, que Alberto, de sete anos, o filho mais velho de Rui Pedro e da mulher,  há pelo menos quatro anos que era usado nos desvarios sexuais do pai e como isco para a sobrevivência da família.

Com apenas três anos, o menino começou a ser educado pelo progenitor, criatura com uma visão obscena da realidade. As brincadeiras próprias das crianças eram subvertidas. Rui começou por brincar com ele aos médicos e os pénis de ambos eram as seringas com que se picavam um ao outro. Descontraída a criança, o jogo ganhava outras proporções. Alberto, como todas as crianças, via na figura paterna um protetor e, nos piores momentos, procurava, em vão, que ele lhe aplacasse a dor: «Pai ajuda-me, pai dói».

Por vezes, também a mãe, Alexandra, 25 anos, assistia ao sacrifício na presença do filho mais novo. Aceitara a sua devassidão como quem aceita um anel de compromisso. Não se sabe ao certo se daí retirava qualquer prazer nem o confessou. Não fora enganada. Quando se apaixonara por Rui, o homem abrira-lhe o livro: bissexual e com fetiches por realizar que gostaria de partilhar com ela.
 

Rui vive ao largo de qualquer moral e os seus planos apenas abarcam a satisfação dos seus desejos mais obscuros. Sem fibra para o trabalho, pouco tempo aguentava neles. Antes de mudarem para esta quinta em Palmela, fora despedido de um hotel em Setúbal onde à época estava empregado. Em simultâneo, como está na génese deste tipo de predador, arranjara forma de se aproximar dos seus alvos treinando rapazitos num clube de futebol da zona.

Vendia o próprio filho

Mas era nas plataformas digitais que o seu ego se expandia, criando perfis falsos e organizando cenários que iam de encontro a outro tipo de presas de natureza semelhante à sua. Em sites vocacionados para homossexuais, ou noutros de cariz pornográfico, entrava em contacto com homens e mulheres. Cauteloso, estudava-lhes o perfil, recolhia informação e nunca dava um passo que criasse obstáculos com quem comunicava.

Esperava com paciência que a presa se atirasse para as suas mãos. Em 2011, o filho mais velho, Pedro, estava com quatro anos quando o pai o pôs à venda com um dos seus seguidores no Facebook: «Quero ganhar guito com ele, arranjas alguém que pague bem?», perguntou. A técnica de Rui Pedro variava conforme o interlocutor. Depois de mostrar fotos do filho ao interlocutor, foi-lhe espicaçando a curiosidade até perceber se o outro era da sua estirpe. O outro não perdeu tempo:  «Tu beija-lo na boca, deve ser supre doce. Ganhas pau quando estás com ele ao colo?». 

A Verdade Celestial

Em pouco tempo, Rui Pedro, que se apresentava como psicólogo, treinador de futebol e líder espiritual de uma corrente religiosa internacional, a Verdade Celestial, da qual ele seria o representante em Portugal, foi conquistando os moradores de Palmela.

Em lojas e hipermercados, mandou colar folhetos publicitando que era psicólogo e que na sua morada dava explicações a alunos da escola primária e segundo ciclo, além de consultas da sua especialidade.
 Nas traseiras da quinta, montou então uma espécie de ATL com piscina insuflável para atrair os pais das crianças que aos poucos começavam a chegar. Com lábia de burlão, conquistou rapidamente os adultos que, apanhados pela crise e sem dinheiro para os colocar em melhor lugar, entregaram-lhes os filhos por uma mesada que variava conforme as suas posses. 

Em simultâneo, para compor a renda doméstica e manter os prazeres carnais, Rui Pedro criou no Facebook, essa linha global de comunicação, uma hierarquia da seita com perfis e fotos falsos que alicerçavam o suposto culto. Em Espanha, o líder máximo a quem reportaria era mestre Pablo, o líder da Verdade Espiritual, e no norte do país mestre Vitorino. A máxima do guru era a vida em comunidade, paraíso onde todos os comportamentos são aceites e devem ser vividos sem espartilhos.

Enquanto de dia criava proximidade com as crianças, Rui passava as noites na internet, à coca de iguais. O primeiro a cair-lhe na palestra foi André Marques, licenciado em gestão pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, homossexual assumido. Com 27 anos, o canudo ainda não lhe servira para nada, não tinha emprego e, em casa, a família conservadora não aceitara a sua orientação sexual. Deprimido, tornou-se num alvo atraente para Rui Pedro que, sem qualquer instrução, conhece como ninguém o lado mais negro da natureza humana.

Relatório falso de psicólogo entregue na escola

Tinham feito amizade num site já há algum tempo e Rui Pedro, que já lhe conhecia a história de fio a pavio, começou por lhe dar apoio psicológico até descobrir os seus fracos. Um dia, convidou-o para ir visitar a quinta e conhecer a comunidade. Apanhou-o em Sete Rios, em Lisboa. Como cobertura para o seu estatuto, levava David Martins, sua alma gémea, que como ele usava e deixava que usassem o seu filho menor, e fazia-se passar por seu motorista. Os dois conheciam-se há muito e estavam ungidos pela mesma maleita. David, aliás, era o único naquela casa com emprego: funcionário no Lidl, era com o seu ordenado que se governavam.

O falso psicólogo, para travar os receios do gestor, explicara-lhe que à seita da Verdade Celestial pertenciam também elementos da Polícia Judiciária e da PSP. Como um visionário, conseguira apoderar-se do pensamento do outro, sem imaginar que, um dia, para se libertar da teia onde se envolvera, André haveria de o denunciar.
Mas nesse dia em que foi buscar André Marques a Sete Rios, chegaram a Palmela já a noite tinha caído. Os meninos, que durante o dia andavam na algazarra própria das crianças ou no campo a jogar futebol ou a chapinhar na piscina de plástico, já dormiam.

Na sala suja e desarrumada, os dois ficaram à conversa. O tema ia sempre bater ao mesmo, o gosto pelos rapazinhos.

A dada altura, Rui levou-o a um quarto onde dormia Miguel: afilhado dos donos da propriedade, o catraio não escapara aos apetites do mestre. Com 12 anos, o rapazito frequentava a quinta desde sempre. Quando Rui chegou, passou a ter explicações e consultas com o médico que, para cativar a mãe do miúdo, chegou a fazer um relatório de avaliação do menor, a custo zero, que a própria entregou na escola.

Festas para os pais e peditórios para sem-abrigo

Manha não lhe faltava. Organizava na quinta jantares para os pais das crianças, festas de karaoke e mesmo peditórios a favor dos sem-abrigo. Cada um deixava o que podia na caixa dos donativos e assim as famílias retiravam-se pacificadas com a caridade.

Com a fé dos pais depositada na sinistra figura, Miguel, por vezes, pernoitava na casa. Nesse dia,  acordou assustado com as carícias de André que lhe esmiúçava o corpo. Cautelosos, os dois retiraram-se.
Entretanto o gestor regressou a casa dos pais, mas já com o convite para se juntar à seita meses depois, ficando lá a viver. Rui Pedro, ardiloso e desconfiado, facilmente mudou de personagem. Para conhecer a reação do outro, contactou-o através de um perfil falso no Facebook, fazendo-se passar por amigo do mestre, o David Cadete: «Não leves a mal mas eu até lhe perguntei como é que ele tem tanta confiança em ti se mal se conhecem». O outro mostra-se ao espelho: «Eu também tenho de confiar nele porque vou ser um elemento novo da casa e porque não quero ir de cana». 

Cadete sabe quando deve mudar de conversa e encaminhou-o para a sua primeira experiência: «Conheceste o Miguel?». André descaiu-se: «Estava lá a dormir no dia em que cheguei. Parece que estava mesmo à minha espera, tipo Kinder-surpresa». E o falso Cadete foi incentivando o diálogo libidinoso: «Adorava rebentá-lo todo». Depois, passou ao essencial: «Tu vais para a casa do Rui viver à pala dele, ele tem uma família inteira para governar! Eu quando lá vou, nunca chego de mãos a abanar».

Largado o aviso, Cadete muda a agulha para assuntos mais do seu agrado. Tecem cenários sobre a vida sexual futura de André na quinta casa, rodeado pelas crianças, e explora-lhe os limites: «Eles podem chorar», alertou Cadete. Mas André está preparado: «Se chorarem dou beijinhos para os consolar só é stressante se ao chorarem chamarem a atenção mas aí é por a mão à frente para os silenciar». E Cadete (ou seja, Rui) mostra-se sem reservas: «Eu adorava violar um a chorar».

As regras e cerimóniasda seita

Passados quatro meses da primeira ida à quinta, André mudou-se e passou a reger-se pelas normas da seita. Para dar alguma credibilidade ao culto, Rui Pedro, numa das árvores da quinta, pendurara uma cruz e inscrevera no tronco Javé, um dos nomes de Deus na Bíblia cristã. Era ali, que ao cair da noite se juntavam para orar e partilhar as suas vivências. No topo da cerimónia estava Rui, o representante de Deus na terra. Os cargos dos outros membros da comunidade, que deviam obediência total ao mestre, eram distribuídos pelo grau de importância que iam adquirindo na hierarquia: Ungidos Reais, Ungidos Especiais e os Servos Devotos. Quem fugisse às regras de Rui, podia ser selvaticamente espancando.

Rui propagava a singular filosofia. As crianças eram portadoras de más energias e nelas pousavam, de quando em quando, espíritos demoníacos. Para as libertar era necessário três rituais. O primeiro, e mais importante, tinha como foco o pénis, que na ordem do seu cérebro apodrecido era o membro por excelência de purificação uma vez que penetrava as carnes das crianças; o sexo oral surgia num segundo escalão e por fim a ejaculação dos adultos por cima dos seus corpos. Chegar ao primeiro escalão tornava-se no grande objetivo dos predadores.

Personagens para manter crianças aterrorizadas

Para dominar as crianças, Rui usava outra filosofia que, no fundo, já fazia parte do seu imaginário infantil. Apresentava-se como uma espécie de herói das bandas desenhadas, personagem poderosa que combatia os demónios que cercavam o mundo podendo mesmo dizimar as suas famílias. Foi através destes recursos que conseguiu abusar de dois irmãos que ali tinham explicações e consultas.

João, 10 anos, o mais velho da dupla, ficou logo aterrorizado. Também ele ali recebia explicações e consultas do falso psicólogo. Mal entrou na quinta começou a viver num mundo governado pelo mal. As lições não eram nem de Português nem de Matemática, mas sobre as brasas do inferno e dos seus habitantes. Cabeças de galinhas eram cortadas pelo Demo e penduradas nas árvores, e pelo telemóvel do mestre até se lhe escutava a voz maléfica. Sobre estes ensinamentos, Rui Pedro pedia-lhe silêncio para que a sua família não fosse sacrificada nessas labaredas.

Um dia, numa consulta, mandou-o despir e vendou-o. Pelo corpo passou-lhe um óleo, enquanto lhe dizia que eram as mãos de um anjo que o tocavam e que dessa forma ficaria a brilhar tornando-se invisível aos olhos da besta. Com estas técnicas, o homem ia preparando as crianças para o sacrifício.

Entre uma coisa e outra, arranja tempo para descobrir na internet mais discípulos.

À quinta, chegaram entretanto duas raparigas de Aveiro, que viam a sua relação contrariada pelos pais. Na comunidade, as mulheres aceitavam o papel de servas, participavam em orgias com as crianças ou com os adultos e, durante o dia, cuidavam da lide doméstica.

Entre os chamados «purificadores» de crianças, aos poucos abriram-se atritos. Os filhos de Rui e do seu alegado motorista estão no centro da discórdia. Eram  os mais novos e os mais apetecíveis para os concorrentes pedófilos. 

Uma escola de futebol

Bruno Fernandes, 32 anos, licenciado em Direito mas sem exercer essa ou outra atividade, fora convidado por outro predador de menores para conhecer Rui e os seus troféus. Dessa vez, foi ele quem cativou o chefe da tribo. Estava à altura dos desvarios do outro, completavam-se. Em comum com Rui partilhava o gosto pelo futebol e, para angariarem mais crianças, planearam criar uma escola.

Na correspondência eletrónica trocada entre ambos, mergulha-se sem pé na escuridão. O licenciado tem namorada e o falso psicólogo, que usava o casamento sem qualquer parcimónia, fez o desafio: «Bom, bom, era estarmos os quatro e, depois de elas se irem embora, ficávamos os dois com as crias». Bruno ia  mais longe: «Eu com a minha dama, tu com a tua, e elas a engravidarem sem sabermos quem era pai de quem. Nunca pensei em algo assim, mas excitou-me».

 A imaginação devassa de ambos fê-los mudar de azimute. Rui ia provocando: «Tinhas bagagem para a minha Xana e para o meu puto?».

Tudo corria de feição, até André, mal aceite pelos restantes, quebrar uma das muitas regras impostas pelo mestre. O gestor, como castigo, foi deitado nu numa das camas e coletivamente vergastado com ramos de árvores até sangrar. Apanhou o susto da sua vida e denunciou o caso na PJ de Setúbal.

Aqui, ninguém queria acreditar na história. Fonte judicial, contactada pelo SOL, resume: «Achei inacreditável, um horror. Nada com estas características se tinha passado em Portugal. Como foi possível pôr isto em prática com esta aparente naturalidade e sem que alguém reclamasse? As casas são uns casebres sujos, com colchões uns ao lado dos outros. Independentemente das condições económicas dos pais, foram lá a festas e não viram que aquilo não tinha condições para os seus filhos?».

Entretanto, oito deles foram acusados peloMinistério Público, estando quatro em prisão preventiva, à espera de julgamento. E com as crianças como será, quando mais tarde ou mais cedo tiverem de recorrer às memórias de infância, a âncora de toda a vida?

Todos os nomes dos menores referidos no texto são fictícios

‘Personalidades mal formadas’

No despacho de acusação deduzido no passado dia 23 de junho, o Ministério Público realça o interesse das comunicações eletrónicas trocadas entre os arguidos, para lhes traçar o perfil. Sobretudo de Rui Pedro e do seu alegado motorista, David Martins, pais de alguns dos menores que foram vítimas dos abusos sexuais.

Paula Nogueira, a procuradora da República titular do inquérito, escreve que essas conversações «evidenciam as suas personalidades mal formadas e totalmente desconformes com a Ordem Social, a Moral e o Direito». Nem André Marques, que acabou por denunciar o caso, escapa ao raciocínio da magistrada.

A acusação vai mais longe, salientando que, nesse material apreendido nos computadores dos arguidos, estes «revelam um total desrespeito pelas crianças vítimas», sendo «manifestos os laivos de sadismo com que falam dos menores», nomeadamente quando se reportam aos seus próprios filhos. Evidenciam, acrescenta-se, «uma total falta de empatia com o sofrimento causado nas vítimas, seja físico seja psicológico».  

Dos oito arguidos acusados – por crimes de abuso sexual de menores, lenocínio agravadoe pornografia com menores – quatro estão em prisão preventiva e os restantes aguardam julgamento em liberdade. Sete das nove vítimas prestaram declarações para memória futura.