Internacional

Angola: ‘Zedu’ até 2021

Presidente do ‘M’ desde 1979, José Eduardo dos Santos foi reeleito para um período de mais cinco anos

 

Dois dos filhos de José Eduardo dos Santos - José Filomeno dos Santos e Welwistchea dos Santos (‘Tchizé’) - são algumas das novas caras do Comité Central (CC) saído do VII congresso do MPLA, que hoje termina em Luanda. O congresso assistiu também à consagração e reeleição do líder do partido há 37 anos, José Eduardo dos Santos, até 2021.

Talvez por nenhuma destas situações constituir uma verdadeira novidade, os dois principais partidos da oposição angolana - UNITA e CASA-CE - desvalorizaram as palavras de Eduardo dos Santos aos cerca de 2600 delegados ao congresso, das quais se destacaram as críticas a «falsos empresários que não fazem falta a Angola» e a necessidade de o partido «aprender com os erros» a cerca de um ano das eleições gerais de 2017.

Para os dois partidos, as intervenções de Eduardo dos Santos trouxeram «mais do mesmo» e foram palavras dirigidas, essencialmente, para o interior do MPLA.

Além da chegada ao CC de dois dos filhos de um dos chefes de Estado há mais anos no poder em todo o mundo, recorde-se a recente nomeação (junho último) pelo Presidente da filha Isabel dos Santos para dirigir a principal empresa do país, a petrolífera estatal Sonangol.

Das duas intervenções de Eduardo dos Santos - abertura dos trabalhos e defesa da moção de estratégia - destacam-se as críticas a algum mundo empresarial local que tem enriquecido ilicitamente, a falta de rigor e disciplina que tem travado o desenvolvimento do país e a questão política das eleições autárquicas, desde há muito reclamadas pela oposição. 

Todavia, a questão central - a da sucessão do líder à frente dos destinos do partido e do país - continuou sem resposta.

No passado mês de março, durante uma reunião ordinária do Comité Central do partido, Eduardo dos Santos anunciou a retirada da política, nos seguintes termos: «Em 2012, em eleições gerais, fui eleito Presidente da República e empossado para cumprir um mandato que nos termos da Constituição da República termina em 2017. Assim, eu tomei a decisão de deixar a vida política ativa em 2018».

Até à tarde de sexta-feira, no Centro de Conferências de Belas, onde decorrem os trabalhos, nem uma palavra sobre o tema.

Mas voltemos aos destaques das intervenções do presidente do ‘M’, como o partido é conhecido entre os angolanos.

Nos 35 minutos que durou o discurso de abertura, José Eduardo dos Santos lançou um fortíssimo ataque a empresários que têm construído fortuna de forma pouco lícita, considerando mesmo que o país pode e deve prescindir desses «falsos empresários».

Em contrapartida, apelou ao reforço dos apoios aos investidores mais comprometidos com o futuro do país e que realizam legalmente negócios, interna e externamente, classificando-os como «bons patriotas».

«Não devemos confundir estes empresários com os supostos empresários que constituem ilicitamente as suas riquezas, recebendo comissões a troco de serviços que prestam ilegalmente a empresários estrangeiros desonestos, ou que façam essas fortunas à custa de bens desviados do Estado ou mesmo roubados», avisou.

Já no discurso de defesa da moção de estratégia, José Eduardo dos Santos apontou a falta de rigor e de disciplina como fatores que têm travado o desenvolvimento do país. Para Eduardo dos Santos, os angolanos têm boas ideias, bons projetos, bons programas, mas quando passam à concretização dos mesmos «os resultados ficam muitas vezes longe do que se esperava».

A questão do poder local e da realização de eleições autárquicas mereceu também destaque, mas, mais uma vez, o partido não se comprometeu com uma data como tem exigido a oposição. O partido e o Governo comprometem-se a «elaborar legislação sobre o poder local», que levarão às eleições autárquicas, as primeiras no país em mais de 40 anos de independência, mas sem fixarem qualquer data.

A renovação dos órgãos dirigentes do partido - onde persistem ainda muitos militantes vindos do tempo da luta anticolonial - foi um tema muito debatido interna e externamente nos trabalhos. Ao CC chegaram agora os atuais ministros João Lourenço, Defesa, Bornito de Sousa, Administração do Território, João Baptista Kussumua, Assistência e Reinserção Social, Afonso Pedro Canga, Agricultura, Mpinda Simão, Educação, João Baptista Borges, Energia e Águas, José Carvalho da Rocha, Telecomunicações, Augusto da Silva Tomás, Transportes, Luís Gomes Sambo, Saúde, e João Baptista Borges, Energia e Águas.

Destaque ainda para a subida ao órgão máximo do novo embaixador itinerante de Angola, António Luvualu de Carvalho e do atual governador do Banco Nacional de Angola, Valter Filipe.