Cultura

Cristina Branco. Uma mulher-menina que canta o fado sem ser fadista

No seu mais recente álbum, “Menina”, lançado no próximo dia 16, Cristina Branco chamou para colaborar consigo uma nova geração de músicos que “comungam de um princípio primordial do fado: uma certa melancolia, uma decadência tipicamente nossa”.


“Tenho pele morena e poucos cabelos brancos. Sou pequena, pés fincados no chão. Canto porque a vida mo ditou. Tenho dois filhos, um marido. Uma gata e um cão. Tenho força corajosa de marinheiro, para sulcar muitas mais vagas por uns bons anos. Venho de uma raça de gente que não desiste e não se esgota. Sou frágil, mas rebento como o mar na praia se forem injustos com os meus. Estou viva e durmo pouco, e então?”

“E então?”, pergunta Cristina Branco – mulher, menina, mãe, fadista, não-fadista, dramática, positiva, tudo isto e nada disto – no texto que enviou aos músicos e escritores que consigo embarcaram na viagem do seu mais recente álbum, “Menina”, lançado no próximo dia 16. “Pedi--lhes que falassem de mim, alguém que está bem no seu tempo, com a idade que tem, em que, apesar de estarmos num mundo atribulado, há uma certeza de para onde se quer caminhar”, diz, para logo de seguida acrescentar: “Na verdade pedi-lhes que escrevessem sobre a mulher e esta é uma geração para a qual a aceitação da mulher já é muito diferente daquilo que era para gerações passadas.”

Neste disco “feminista e seguramente feminino” fala-se de uma mulher, de muitas mulheres, de todas as mulheres. Ainda assim, o título é “Menina”, por influência do quadro de Diego Velázquez, “As Meninas” (1656), sobre o qual fez um longo trabalho nos tempos de escola e com o qual deu por si a sonhar durante o processo de gravação, mas sobretudo “porque a verdade é que somos tratadas por meninas até morrermos. A tia-avó de 80 ou 90 anos é sempre a menina. É algo que está sempre presente nas nossas vidas. De uma forma elogiosa, mas também depreciativa, por vezes. Ser menina faz parte de ser mulher”.

O processo deste “Menina”, o seu 14.o álbum, começou a dar os primeiros passos há dois anos. Tal como nos trabalhos anteriores, a cantora de Almeirim, que divide o seu tempo sobretudo entre Portugal e a Holanda, sabia que queria ousar, surpreender. Puxar a si própria o tapete por debaixo dos pés, sentir-se a escorregar. Por isso escolheu o mais jovem universo de músicos com que alguma vez colaborou. Nomes como Filho da Mãe e André Henriques, dos Linda Martini, que assinam o primeiro single, “E às Vezes Dou por Mim”, mas também Cachupa Psicadélica, Ana Bacalhau (Deolinda), Kalaf (Buraka Som Sistema), Jorge Cruz (Diabo na Cruz), entre outros. Músicos que, apesar de oriundos de uma geração que está na música independente com “uma grande avidez”, a cantora considera que “comungam de um princípio primordial do fado: uma certa melancolia, uma decadência tipicamente nossa”.

Nossa. Dos fadistas, essa raça a que Cristina pertence mas não pertence. “Quando digo que não sou fadista é porque não canto só fado. Mas quando canto fado, não é outra coisa senão fado. Mas tenho de estabelecer o limite. E não se pode chamar fado quando canto outras coisas que não o são. Que não se criem dúvidas que, só por se usar guitarra portuguesa, é fado. O fado é um sítio onde vou, mas não sempre. Aliás, curiosamente, o fado apareceu na minha vida tardiamente. Fui aprendendo a que o fado me desse muito mais do que me dava no início. Hoje é um porto seguro para mim: por muito que saia para fora de pé, sinto que ele está lá sempre.” Em “Menina”, ainda assim, consta um único fado, “Ai, Esta Pena de Mim”, com letra de Amália Rodrigues. Uma homenagem à mulher que fez Cristina Branco descobrir, tardiamente, aos 18 anos, o fado, quando recebeu, das mãos do avô, o disco “Rara e Inédita”, justamente de Amália Rodrigues. 

Depois de receber este disco vieram outros e outros, sempre de Amália, que o fado era só ela, discos e livros, tudo o que conseguia apanhar. “Estava muito apaixonada por ela.” E a menina que roubava a vassoura de casa dos avós e ia para o pátio cantar coisas que ninguém entendia, “num inglês que era só meu”, um dia deu por si numa noite de fados, num café em Benfica do Ribatejo, a cantar. Fado, claro. De Amália Rodrigues. “Estava morta de medo, mas quando cheguei a casa tinha uma sensação de paz que nunca tinha sentido antes.” Percebeu que aquela seria a sua vida, apesar de já estar a terminar o curso de Jornalismo. “Mas a verdade é que, nessa altura, e apesar de não cantar, a maior parte dos meus trabalhos já estavam todos canalizados para o canto, já havia trabalhos sobre interpretação, sobre o ritmo, sobre as vozes femininas... como se já fosse cantora. Acho que passei a minha infância e adolescência todas a fugir a uma voz, só que essa voz era tão preponderante que não houve como escapar. Era demasiado forte. Podia ter sido jornalista, mas era incompleta. A música, aqueles cinco minutos da minha vida em Benfica do Ribatejo trouxeram-me uma paz vital.” Por intermédio de um amigo foi cantar ao “Programa da Manhã”, da RTP, conduzido por Manuel Luís Goucha. Meses mais tarde cantava no Círculo de Cultura Portuguesa na Holanda, país onde construiu a fase inicial da sua carreira. Mais de 20 anos depois, a mulher que serviu de inspiração a Júlio Pomar para pintar o busto da República Portuguesa continua a cantar. Fado e não-fado. Porque tem “coisas para dizer”.