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Nuno Santos. Com a televisão no sangue

Depois de ter passado pela RTP, pela SIC e novamente pela RTP, Nuno_Santos acaba de aceitar um novo projeto. Vai ser diretor da unidade de negócios The Story Lab para a Península Ibérica e África Subsariana. Chega a Madrid preparado para nova tarefa e motivado por já ter passado por experiências marcantes em Portugal. Mas não quer voltar atrás no tempo, prefere viajar para o futuro.

Nuno Santos. Com a televisão no sangue

Nuno Santos, uma das caras mais conhecidas da televisão portuguesa, volta a mudar de rumo, depois de ter abraçado um projeto em Maputo. O jornalista que costuma evocar Pessoa, o seu poeta de eleição, dizendo que tem em si “todos os sonhos do mundo”, está aberto a um novo desafio. E é caso para dizer que está à espera de mais um trabalho de sonho, ou pelo menos, mais ao encontro das suas expectativas. O jornalista de 48 anos foi, nos últimos três, responsável pela gestão e compra de conteúdos, desenvolvimento de novos canais e relações com parceiros de língua portuguesa da Multichoice, uma operadora de televisão de origem sul-africana, mas com emissões em Moçambique e Angola, que conta com cerca de cinco milhões de subscritores. O novo desafio é a The Story Lab, do grupo Dentsu Aegis, onde assume agora a liderança e o desenvolvimento da área de conteúdos e programação. A ideia é ficar responsável pela unidade de negócios para Portugal, Espanha e África Subsariana. O seu foco vai estar assente na identificação de conteúdos, liderando a operação comercial para a implementação de projetos nestas regiões, ao mesmo tempo que irá trabalhar com produtores locais no sentido de exportar os seus conteúdos com a ajuda da rede global do grupo.

O anúncio foi feito na semana passada e Nuno_Santos assumiu as novas funções já no início desta semana. Por enquanto estará em baseado em Madrid e, apesar de já ter confessado o desejo em regressar a Portugal, ainda não é desta que se muda de vez para o seu país. Ainda assim, vai andar por cá todas as semanas. “Agora estarei todas as semanas em Lisboa e a trabalhar com os agentes portugueses: os produtores, os canais e as várias plataformas. De uma certa forma, isso também sucedeu na minha fase na Multichoice. Um dia voltarei a viver em Portugal, mas achei que ainda não era o momento. Este desafio é muito estimulante do ponto de vista profissional, é uma nova abordagem na indústria e isso seduziu-me”, confessou o jornalista ao B.I.

Foi a experiência no mercado africano que acabou por abrir portas a este novo desafio. “O projeto The Story Lab atingiu um nível de maturidade que justifica a contratação de um profissional do calibre do Nuno Santos. A sua recente experiência em África tornou-o no candidato perfeito para desenvolver estas funções e é com imensa expectativa que lhe damos as boas vindas nesta nova fase da sua carreira,” explicou André Andrade, CEO da Dentsu Aegis para a região ibérica e da África Subsariana.

Já Nuno Santos reconhece que este é um desafio muito estimulante: “Estrategicamente o projeto do Story Lab é, senão revolucionário, pelo menos muito arrojado – coloca o conteúdo no centro do negócio de uma forma inovadora fazendo a ligação com marcas, produtores e operadores em diferentes plataformas, com a televisão no centro, como ainda não se tinha feito até aqui.” E vai exigir do profissional diferentes abordagens, uma vez que vai trabalhar com mercados muito diferentes e a viver fases distintas: “Há o maduro e a crescer, que é o espanhol; a crescer menos e mais temerário, que é o português; e com enorme potencial, que é o africano. Ora, esta também é uma parte do desafio”, acrescenta, ao mesmo tempo que garante sentir-se motivado e, acima de tudo, preparado para responder a este novo projeto. “Tenho, sem nenhuma falsa modéstia, um currículo muito diversificado e rico. Já trabalhei no público e no privado. No entretenimento e na informação. Em Portugal e no estrangeiro. Nos meios e nas plataformas. E agora com uma visão que é feita mais do lado dos anunciantes. E tive a sorte, e o privilégio, de ser testemunha e participante, da grande mutação tecnológica destas ultimas décadas. Procurei estar sempre na primeira linha. Chego a Madrid preparado para esta tarefa”.

 

ALTOS_E_BAIXOS

A verdade é que o percurso de Nuno Santos está longe de ser pacífico. Foi repórter em televisão, na RTP, e realizador da Rádio Comercial e TSF no início da sua carreira, foi editor e pivot do “Jornal da Noite” da SIC na década de 90. Depois foi fundador e diretor da SIC Notícias, tendo mais tarde sido diretor de programas e conteúdos na RTP durante cinco anos, e da SIC durante outros três. Durante esse período ganhou um Emmy com a novela “Laços de Sangue”, e na SIC foi também responsável pelo lançamento de programas de sucesso como “Ídolos” (SIC) e “Alta Definição” (SIC). Já na RTP esteve ligado aos sucessos “Operação Triunfo”, “Conta-me como Foi”.

Apesar de ter ocupado vários de cargos de responsabilidade, o jornalista garante que nunca se preocupou com o rumo da sua carreira dessa maneira, mas reconhece que “no liceu já tinha ascendência na turma”. Abandonou os estudos cedo, apesar de mais tarde se ter inscrito na universidade no curso de Ciência Política, onde frequentou o primeiro ano – desistiu mas promete que um dia irá terminar. Neste momento está a frequentar um mestrado de Comunicação de Ciência na Universidade Nova de Lisboa, mas acredita que não vai ser fácil por estar mais ausente do que presente. “Vou-me ver aflito para o fazer porque as aulas conflituam com a minha vida em Madrid. Mas aprender e ensinar – porque continuo a ter e a dar a aulas – dá-me muito prazer”, salienta ao B.I.

Teve a sua primeira experiência na rádio aos 17 anos e foi aqui que começou a sua carreira. Mas a entrada na rádio surgiu quase como um acaso. Ainda estava na escola e foi visitar várias rádios para um trabalho de grupo. Foi nessa altura que conheceu Luís Montez e daí foi um passo até criar uma relação de proximidade e, mais tarde, de amizade. Pouco depois foi desafiado para fazer um programa. Não se lembra de quanto ganhava no primeiro trabalho, mas recorda-se que chegou a ganhar “50 contos por mês”, na Comercial.

Mas se os primeiros passos começaram na rádio, rapidamente ficaram pelo caminho e seguiu-se um novo desafio: a televisão. Hoje não restam dúvidas de que é a televisão que está no seu sangue, mas também foi aqui que conheceu algumas amarguras.

Nuno Santos, que fez parte da equipa fundadora da SIC, em 1992, fez grande parte do seu percurso como jornalista, tendo chegado a diretor de informação da SIC Notícias. Saiu do canal de Carnaxide em 2001 e pouco depois entrou na RTP, onde esteve cinco anos na direção de programas e conseguiu colocar o canal público em segundo lugar, atrás da TVI. Saiu em dezembro de 2007 para aceitar um convite da SIC para um cargo semelhante. O seu objetivo em Carnaxide, na altura terceiro canal generalista em audiências, era conquistar a liderança à TVI, apostando para tal em formatos de sucesso internacional como “Portugal tem Talento” e “Peso Certo” (versão nacional de “The Biggest Loser”). Uma missão que nem sempre foi cumprida, apesar de o jornalista recusarque tenha falhado, justificando-se com um “contexto excecionalmente difícil. Esses anos foram mais difíceis do que esperava, por razões de conjuntura externa e interna. Queria ter feito mais na SIC. A decisão foi tão difícil de tomar. Mas acho que devemos dividir em três fases esse percurso: em 2008, quando fui para lá e tive a responsabilidade dos conteúdos, a SIC recuperou o segundo lugar das audiências, de uma forma muito folgada até. Portanto, inverteu uma tendência de queda que se vinha verificando. Depois, no final do terceiro trimestre de 2008, abate-se a grave crise financeira. E a SIC fez uma coisa terrível para quem trabalha na área dos conteúdos, mas que tinha de ser feita: foi a primeira empresa na área da comunicação social que emagreceu a sua estrutura. Alienou empresas, centrou-se no essencial da sua atividade. Essa fase seguinte foi terrível e só quem está dentro do convento é que sabe o que lá vai dentro”, confessou.

Diz que não é “homem de desistir”, mas admite que foi “a pessoa que mais pagou por essa reestruturação”. Ainda assim, o profissional acredita que deixou uma marca na ficção e no entretenimento em Carnaxide e só não mudou a linha por não ter tido condições. E aí, mais uma vez, a culpabiliza a conjuntura.

Três anos e três meses depois de entrar na direção da SIC regressa à RTP para diretor de informação, depois da saída de José Alberto Carvalho e de Judite de Sousa para a TVI.
“Uma decisão difícil”, diz.

 

DE DIRETOR A DESEMPREGADO

Em março de 2011 Nuno_Santos mudou-se então de malas e bagagens para a RTP, mas o seu regresso à estação pública não foi unânime. Pelo menos junto da administração. Na época, o administrador Luís Marinho mostrou publicamente a sua discordância alegando existirem na casa profissionais para o cargo. Guilherme Costa era então presidente.

Acabou por assumir funções, mas 20 meses depois foi despedido, na sequência de um processo disciplinar, instaurado pela administração da RTP, na altura liderada por Alberto da Ponte, no seguimento do caso em que a PSP visionou as imagens da RTP, que não foram transmitidas, de manifestações e confrontos à porta do Parlamento. Na altura, a estação pública emitiu um comunicado a defender os motivos que levaram à saída do diretor de informação: “São de natureza estritamente jurídica e decorrem dos vários comportamentos que o trabalhador assumiu”.
Já o jornalista negou ter autorizado a cedência das imagens, mas o incidente “e o clima de suspeição instalado”, disse a empresa, “abalou a relação de confiança com o conselho de administração”.

O caso ainda chegou às mãos da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, que arquivou o processo cinco meses depois por considerar que não foi violada a proteção da confidencialidade de fontes. Para Nuno Santos, o desfecho deste episódio veio confirmar “o autismo e má-fé” da administração da estação pública.

Apesar dos altos e baixos da sua carreira, Nuno Santos continua a sentir-se um jornalista e considera que o balanço não poderia ser melhor. “Dizem que um jornalista nunca se reforma e eu sou sempre um jornalista. É a profissão que coloco quando chego à receção de um hotel, por exemplo. Tive experiências inesquecíveis e muito marcantes como o lançamento da SIC Noticias, num momento – lembro-me bem – em que, em Portugal, as dúvidas sobre se existiam condições para criar um canal de noticias 24 horas eram imensas. Somos um país muito conservador! Mesmo a minha última experiência na RTP, apesar de ter terminado de uma forma que me agastou muito, também foi muito boa. Acredito
na força e na diferença da informação do Serviço Público, julgo que é uma área central para a RTP marcar a sua diferença face aos privados.” Apesar destas memórias positivas, ainda que de “uma fase em que trabalhava demais e não sabia equilibrar a vida”, Nuno Santos afasta a hipótese de voltar atrás do tempo. Até porque “gostava mais de viajar para o futuro”.

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