Opiniao

Uma saraivada no charco

Sobre o lançamento do livro Eu e os Políticos, de José António Saraiva

Uma saraivada no charco

Sem entrar em análise de polémicas, permitam-me breves palavras de enquadramento a propósito do livro acima referenciado, desde logo como seu primeiro leitor.

Começo pelo título que dei a este artigo. Entende-se intuitivamente a escolha, reportando para a precipitação copiosa, rápida e incendiada de comentários que se têm sucedido sobre o livro, de tal forma que, sob vários ângulos de visão (também antagónicos), se poderá porventura referir que a sua escrita deixa marcas e estragos, a ponto de a ‘saraivada’ marcar a diferença entre o ‘antes’ e o ‘depois’ da sua publicação. Além da convicção que cada leitor possua, seja em que sentido for, o livro introduz uma ruptura.      

José António Saraiva é uma personalidade com responsabilidades públicas, com um passado bem visível pelas funções de topo que exerceu de forma singularmente duradoura em prestigiados órgãos de comunicação social. A possibilidade de publicar um seu livro na Gradiva surgiria um dia com alguma naturalidade, considerando ainda que editámos a obra do Professor António José Saraiva – seu pai, um dos pensadores maiores da cultura portuguesa –, também livros da sua mãe, dra. Maria Isabel Saraiva, e do seu tio, o Professor José Hermano Saraiva.

A Gradiva é uma editora plural, sem alinhamento político-partidário, com um longo trabalho bem gravado no seu catálogo, também e necessariamente privilegiando a liberdade de expressão e de discussão e troca de ideias. Em conformidade, a crítica, os comentários e os posicionamentos opostos são perfeitamente legítimos. Também o direito da crítica à crítica, quando esta não se insira verdadeiramente no objetivo de fixar os conteúdos, quando os desconhece ou quando os distorce. 

Independentemente das controvérsias e polémicas (que não alimento), diretas ou indiretas, que estão e estarão associadas a este livro, através dele múltiplas oportunidades de debate podem concretizar-se. Vejamos alguns aspetos em debate:

Que ‘verdade’ revelar? Que ‘verdade’ deixar oculta? 

Que ‘dever’ de revelar? Que ‘dever’ de não revelar? Revelar apenas concretizando o já revelado?

O que se mantém na esfera privada? Ou que se torna público? Em que condições? O que é matéria pública? Até onde vai o respeito e onde se torna difuso ou se perde?

Quanto pesam nesta equação os factos omitidos com reconhecida influência na história, nos destinos do país? E os que não a têm? Que factos ocultos constituiriam um legado relevante para a comunidade?

Que fronteiras vislumbramos no âmbito da ética pessoal, e/ou profissional, da confidencialidade? Qual a legitimidade para as cruzar?

Que níveis de dissonância (diga-se: tipicamente humana) entre o ‘ser’, o ‘parecer’ ou o ‘querer parecer’? Como branqueiam a realidade? 

Que (in)consistência entre o que ‘se faz’ e aquilo que ‘se diz que se faz’? Há responsabilidades acrescidas na redução dessa dissonância no que toca a personalidades com especial visibilidade pública? Quem avalia? Qual o grau de exposição por parte dessas personalidades através das suas ações? Porque motivos deixam retratos tão desfocados?  
O que é hipocrisia? O que é transparência? O que é ingenuidade? O que é perversidade? O que é excesso? O que é razoabilidade?

As convicções de ‘respeito’ e de ‘verdade’ aplicam-se a vivos, a mortos ou a ambos? Quando, a partir de que limite de tempo começa a história?

Recordados estes pontos em discussão (entre outros possíveis), gostaria de apresentar livremente alguns outros comentários:

Eu e os Políticos resultará de um qualquer ato irrefletido do autor? 

Estamos na presença de um autor rigoroso – de tendência meticulosa até – que regista ocorrências na memória e em caderno. Quem ler o livro – e lê-se muito bem no sentido em que tem uma escrita fluida, com irrepreensível português, orientada para a compreensão do leitor – poderá contactar com os reflexos da personalidade determinada do autor, autor que sabe o que faz, escreve com convicção. Atendendo às matérias tratadas e aos seus contextos, escreve com coragem, também com toques de subtileza e humor. Relativamente a este último condimento, José António Saraiva não evita ele mesmo revelar-se em auto exposição, como exemplifica uma pequena passagem com graça onde se confessa alcoolizado após um jantar.

Poderia o autor não ter feito o livro? 

A história do Homem não é em meu entender construída ao sabor de uma entrega errante ao destino. Ao invés, é fundada em decisões e em circunstâncias; e ambas contribuíram para que o autor decidisse publicá-lo, quando poderia não o ter feito.

Será o livro um constante vendaval de relatos incontidos?

Não obstante o que se possa pensar da aparente natureza do livro, vislumbram-se ao longo das páginas preocupações de natureza moral e intenções de refreamento, quer na linguagem quer nos detalhes. Também tentativas do autor visando a clarificação de aspetos sensíveis e controversos, não só na construção original como em pequenos retoques posteriores, mesmo assim alguns suscetíveis de serem mal interpretados.

E poderia José António Saraiva ter ido mais além? 

Poderia… mas o livro seria apesar de tudo diferente. A lucidez inerente a certo pudor e a bom senso travou-o. Quase perante um iceberg informativo, em muitos casos terá deixado deliberadamente imersa a maior parte da história. 

É interessante ainda constatar a aferição que o autor realiza dos seus interlocutores através da forma como lhe apertam a mão; tal como é de salientar um apontamento que surge e ressurge nas esquinas do livro: a sua reprovação relativamente ao fosso manifestado por aqueles que bem discursam mas que se revelam incapazes de ‘fazer’, de ‘concretizar’. Não tem isso um claro interesse explicativo da realidade pública?

Resta-me assinalar a forma serena, atenta, objetiva, colaborante, inteligente, dinâmica e eficiente como se pautou a colaboração do autor com a equipa da editora.

Apesar do contexto próprio em que surge e dos objetivos que visa, para terminar, lembro uma passagem bíblica do Novo Testamento, que não irei interpretar, nem sequer posicionar-me, mas somente evocar, pela sua oportunidade e curiosidade dupla (devido ao seu valor simbólico e por ter chegado recentemente à minha caixa de correio eletrónico):
Lucas (LC 8, 16-18)

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «Ninguém acende uma lâmpada para a cobrir com uma vasilha ou a colocar debaixo da cama, mas coloca-a num candelabro, para que os que entram vejam a luz. Não há nada oculto que não se torne manifesto, nem secreto que não seja conhecido à luz do dia».


Director-adjunto 
Gradiva Publicações

Os comentários estão desactivados.