Cultura

Mirós do BPN veem a luz do dia em Serralves

Marcelo, Costa e Rajoy inauguram hoje “Joan Miró: Materialidade e Metamorfose”, com cerca de 80 obras do mestre espanhol

A quase totalidade das 85 obras do artista catalão Joan Miró que pertenciam à coleção do BPN pode ser vista pela primeira vez, a partir de hoje, na Casa de Serralves, no Porto. “Joan Miró: Materialidade e Metamorfose” é comissariada por Robert Lubar Messeri, especialista na obra do pintor, tem projeto expositivo de Siza Vieira, o autor do Museu de Serralves, e ficará patente até 28 de Janeiro de 2017. Depois disso, é ainda incerto o destino das obras, mas o primeiro-ministro António Costa já garantiu esta quarta-feira, numa cimeira sobre turismo, que permanecerão na Invicta.

A inauguração reveste-se de especial significado depois da polémica acerca da permanência ou não das 85 obras do artista espanhol em Portugal – e reunirá, em conformidade, um conjunto impressionante de personalidades. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o primeiro-ministro, António Costa, e o seu homólogo espanhol, Mariano Rajoy, já confirmaram a sua presença; a eles juntam-se ainda figuras como o arquiteto Siza Vieira, o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, e o ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, que em abril, em entrevista ao “Público”, anunciara a realização da exposição. Recorde-se que as pinturas chegaram a sair do país e, em 2014, estiveram na iminência de ser vendidas num leilão da Christie’s, cancelado à última hora. O Estado previa encaixar cerca de 40 milhões de euros (o valor-base das obras estava estimado em 36 milhões), que se destinavam a abater a dívida do banco falido, mas a casa leiloeira acabaria por suspender a venda invocando “a disputa nos tribunais portugueses, na qual a Christie’s não é uma parte envolvida”. “Femmes et oiseaux” (Mulheres e Pássaros), de 1968, então com um valor estimado entre 5 e 9 milhões de euros, assumia-se como a obra-prima da coleção – estatuto que mantém.

Datadas de entre 1924 e 1971, as peças expostas em Serralves integram várias técnicas (pintura, desenho, gouache, colagem, tapeçaria) e abrangem um período de seis décadas, sendo por isso representativas de várias fases da longa carreira do artista. Em comunicado, a Fundação de Serralves, destaca seis “pinturas sobre masonite de 1936 [que realizou em plena Guerra Civil espanhola] e também seis sobreteixims (tapeçarias) de 1973”.

Estrelas e seres microscópicos Dificilmente catalogável, Joan Miró esteve próximo do movimento surrealista, explorando os meandros do inconsciente, mas criou uma linguagem e um universo muito próprios. Nascido em Barcelona em 1893 no seio de uma família com posses e conservadora, teve de contrariar a vontade dos pais para abandonar os estudos e enveredar por uma carreira artística. A sua primeira exposição, na galeria Dalmau, na capital catalã (1918), foi ridicularizada pelos seus pares. Em 1920 mudou-se para Paris, onde viveria, de forma intermitente, até 1939. Em 1940, com a tomada de Paris pelos nazis, regressaria à Catalunha.

Nas suas telas surgem estrelas, animais ou figuras humanas estilizados, mas também formas estranhas que se assemelham a seres vistos ao microscópio. A utilização de cores primárias e as pinceladas largas conferem à sua pintura um caráter ingénuo, quase infantil, que as torna facilmente reconhecíveis e que agradou a artistas seus contemporâneos, como Picasso, de quem se tornaria amigo.