Cultura

Rushdie esgota tenda de concertos em Óbidos

Escritor maldito revelou-se uma aposta ganha do maior festival literário em Portugal.


«A vinda de Salman Rushdie a Óbidos gerou um tal interesse que os bilhetes ficaram esgotados logo no primeiro fim de semana o que nos obrigou a procurar uma solução que permitisse o acesso de mais pessoas àquela mesa», disse  fonte da organização do Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos. O maior festival literário em Portugal encerra no dia 2 de outubro.

O interesse à volta do autor de Os Versículos Satânicos não pode deixar de se ligar à maior controvérsia suscitada por um livro na era moderna. Em 1989, o líder espiritual iraniano, aiatolá Ruhollah Khomeini, emitiu a fatwa encomendando a execução de Rushdie por blasfémia. É bom lembrar que na sua declaração original, transmitida pela rádio iraniana, o líder não condenou à morte apenas o autor mas todos aqueles associados ao livro. E isto «para que ninguém se atreva a insultar a santidade da fé islâmica».

Mesmo após a morte de Khomeini, o clero iraniano reafirmou que Rushdie permanecia um alvo. No ano seguinte, em 1991, Hitoshi Igarashi, o tradutor japonês de Rushdie, foi esfaqueado até à morte e Ettore Capriolo, o tradutor italiano, ficou gravemente ferido num ataque semelhante. Em 1993, William Nygaard, o editor norueguês, foi baleado e ferido, e mais tarde Aziz Nesin, o tradutor turco, foi o alvo do massacre de Sivas, a localidade turca onde um incêndio num hotel causou a morte de 36 pessoas.

Além de ter levado a um corte das relações diplomáticas entre o Reino Unido e o Irão, passados poucos meses da sua publicação, em 1988, o livro foi banido na Índia, Bangladesh, Sudão, África do Sul, Sri Lanka, e no ano seguinte também no Quénia, Tailândia, Indonésia e Singapura. O último país a proibi-lo foi a Venezuela, em junho de 1989.

Enquanto livrarias por todo o mundo retiravam o livro de exposição, Rushdie foi obrigado a desaparecer. Passou a década seguinte em isolamento, cercado por guarda-costas e obrigado a mudar-se sempre que os serviços de segurança tomavam conhecimento de outra das inúmeras conspirações para matá-lo. O livro tornou-se um best-seller em vários países, com as sucessivas edições a desafiar as ameaças. Depois de Os Versículos Satânicos, Rushdie continuou a escrever, a publicar, e tem gozado de um tipo de sucesso que dificilmente teria alcançado sem a verdadeira maldição de que foi alvo. Os sacrifícios e o desespero levaram-no a repudiar a obra e a suplicar perdão pelas palavras que escrevera. Recuperou alguma da sua liberdade depois do governo iraniano ter retirado o apoio à fatwa em 1998, e com o tempo voltou a assumir o seu orgulho por ter escrito aquelas palavras.

Aos 68 anos, autor de 12 romances, incluindo Filhos da Meia Noite (vencedor do “Booker Prize” em 1981 e “Best of the Booker” em 2008) Rushdie apresentou no Folio a sua mais recente obra, Dois anos, oito meses e vinte e oito noites, editado em Portugal com a chancela da Leya.

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