Politica

A geringonça em cinco atos

Faz esta terça-feira um ano que os portugueses foram a votos e, pela primeira vez, ficaram com um Governo formado pelo segundo partido mais votado. Contra todas as expectativas, a geringonça montada por António Costa continua a funcionar. Estes são os cinco momentos-chave que marcaram o início de uma solução que muitos julgavam impossível.

Os 70% que passaram a contar

4 de outubro: a contagem dos votos

Quando António Costa percebeu que o PSD e CDS juntos não tinham conseguido a maioria absoluta, começou a fazer contas de cabeça. O líder socialista já tinha dados sinais de que ficar como segundo mais votado não o ia fazer deitar a toalha ao chão.

Na altura em que começou a fazer passar essa mensagem ainda pensava que estava ao seu alcance conseguir que o PS tivesse o maior grupo parlamentar. Não conseguiu alcançar esse objetivo, mas fez outras contas: somados todos os votos à esquerda, tinham sido 70% os eleitores que rejeitaram a fórmula de austeridade proposta pela direita. Esse foi o seu primeiro argumento para a aproximação a BE e PCP.

Os contactos informais, mas que sinalizavam a boa-vontade em relação às esquerdas, tinham começado há meses. Mas, na noite das eleições, Costa não sabia ainda até que ponto poderia pôr em prática uma coisa que nunca tinha sido tentada: uma solução de governação com PS, BE e PCP.

O primeiro sinal positivo chegou-lhe às 22h36, a hora a que Jerónimo de Sousa falou para reagir aos resultados eleitorais. O líder comunista fez uma afirmação fundamental: «O PS tem condições para formar Governo».

 

O encontro com o PCP

Reunião na sede da Soeiro Pereira Gomes foi crucial

No debate com António Costa, a líder do BE, Catarina Martins, tinha deixado três condições para que fosse possível um entendimento de governação. As condições dos bloquistas ficaram claras: «Se o PS estiver disponível para abandonar esta ideia de cortar 1.600 milhões nas pensões, abandonar o corte na TSU e abandonar esta ideia do regime compensatório [que, segundo o BE, facilita os despedimentos], no dia 5 de outubro [um dia depois das eleições] cá estarei para conversar sobre um governo que possa salvar o país», disse na altura a líder bloquista.

Costa optou por deixar o repto sem resposta, mas ficou a saber quais eram as condições de Catarina Martins. Para perceber com o que podia contar da parte do PCP foi essencial o encontro de dia 7 de outubro na sede comunista da Soeiro Pereira Gomes.

Foi nesse encontro que Costa percebeu que poderia contar com os comunistas para um acordo de governação. Na verdade, o BE também optou por esperar para ver como corria essa reunião antes do primeiro encontro negocial com Costa – que Catarina Martins foi desmarcando até perceber em que ponto estavam as coisas com o PCP.

 

Cavaco uniu a esquerda

O que o Presidente disse quando anunciou a indigitação de Passos

Cavaco Silva deixou claro desde o primeiro minuto que não via com bons olhos uma solução de governação que passasse por partidos que rejeitam a NATO ou os compromissos assumidos por Portugal com a Europa.

O Presidente da República preferia um acordo entre PSD/CDS e PS, mas ficou rapidamente claro que isso seria impossível: Costa não estava interessado em ser ministro de Passos. A forma como falou no anúncio da indigitação de Passos Coelho como primeiro-ministro foi vista pela esquerda como uma declaração de guerra e uniu os partidos.

 

Acordo assinado sem foto de família

Não foi um, mas três os «compromissos políticos» à esquerda

Fica para a História a forma como BE, PCP e PEV evitaram ficar na mesma fotografia. Na realidade, as únicas fotos que existem são as oficiais, porque os partidos fintaram os jornalistas na hora de assinar os acordos que sustentariam a solução de Governo.

Não foi por acaso. BE e PCP continuam distantes e quiseram – sobretudo os comunistas – que ficasse claro que o acordo que assinavam era com o PS. Bloquistas e comunistas insistem que se trataram de «compromissos políticos», porque foi de medidas concretas que se fizeram os documentos. Até agora, tem sido sempre assim: BE, PCP e PEV não se sentam à mesma mesa.

 

OE de 2016 aprovado

A primeira prova de fogo

Foi a 16 de março que ficou aprovado o primeiro Orçamento do Estado que contou com os votos favoráveis de BE e PCP. A aprovação foi saudada com uma ovação de pé das bancadas à esquerda. Tinha acontecido o mesmo no dia 10 de novembro, quando a geringonça derrubou o Governo de Passos Coelho.

A sensação à esquerda era a de que se estava a fazer História. E essa sensação foi ainda mais forte quando se fez o que se julgava impossível: pôr bloquistas e comunistas a aprovar um Orçamento feito para respeitar as regras de Bruxelas. BE e PCP insistiram – e insistem – na renegociação da dívida, mas a vontade de reverter a austeridade falou mais alto do que as divergências com o PS.