Opiniao

O Estado e o sexo

Por este caminho acabaremos a aceitar tudo. É aquilo a que chamo‘política da capitulação’. Haverá um momento em que será preciso escolherentre o pragmatismo e os valores

Adistribuição de preservativos nas escolas, proposta pelo PS, tem provocado enorme controvérsia. Argumenta o PS com um estudo de há dois anos segundo o qual um terço dos jovens já fez sexo sem preservativo. E, sendo assim, tornar-se-á imperioso facilitar ao máximo o seu acesso. 

Trata-se de um bom argumento. Mas que pode ter outra leitura: parece um convite aos jovens para fazerem sexo nas escolas. «Podem ter relações à vontade, porque o problema era o preservativo e já aí o têm».

Esta ideia pode, aliás, estender-se a outros temas ‘fraturantes’. O argumento do PS é o mesmo que leva à distribuição gratuita de seringas: «já que as pessoas se drogam, o melhor é drogarem-se com seringas novas e não com seringas usadas e possivelmente contaminadas». Só que esta medida pode funcionar como um convite para as pessoas se drogarem. Enquanto o receio de utilizar seringas usadas poderia funcionar como um travão, embora pequeno – porque essas pessoas já estão por tudo –, a facilidade do acesso a seringas seguras pode ter o efeito oposto.

É UMA discussão muito difícil, até porque estão em causa vidas humanas. 

No preservativo e nas seringas, tem vindo a impor-se o ponto de vista pragmático. Como, aliás, no aborto: «já que as pessoas abortam, façam-no em boas condições». Mas por este caminho acabaremos a aceitar tudo. É aquilo a que chamo a ‘política da capitulação’. Da aceitação do facto consumado. Ora, haverá um momento em que será preciso escolher entre o pragmatismo e os princípios e valores. 

Se não faz sentido os jovens fazerem sexo na escola, não devem ser distribuídos preservativos nas escolas. É um sinal errado. Se o consumo de drogas é um suicídio, não devemos facilitá-lo oferecendo seringas. É um sinal errado. Se o aborto é um crime contra a natureza humana, mesmo que numa fase inicial da vida, não devemos aceitá-lo. É um sinal errado.

PARTILHO a ideia de que o Estado deve dar à sociedade os sinais certos. E, neste aspeto, o problema das relações sexuais entre os jovens deverá ser objeto de uma reflexão séria. Se fazer sexo não pode ser encarado como beber um copo de água, pela simples razão de que é um ato onde há partilha da intimidade, não deveremos aceitar que as pessoas – jovens e não jovens – se comportem como coelhos. É uma ‘matéria’ onde deve haver alguma contenção, alguma reserva, algum pudor. 

Não é só a questão de transmitir ou não uma doença, nem o risco de engravidar: é uma questão de dignidade. Não se entrega o corpo de qualquer maneira. A banalização do sexo e a entrega fácil do corpo leva ao desrespeito do indivíduo por si próprio.

MAS VOU mais longe. Ao distribuir preservativos e seringas, o Estado não está só a dar à sociedade sinais errados: está a ser cúmplice de comportamentos errados. E isso é o oposto do que deveria ser a sua função. 

No combate à droga, por exemplo, o Estado não pode dar tréguas. Não pode baixar os braços, considerando-o como uma guerra perdida. A droga é um mal social terrível, que destrói indivíduos, destrói famílias e corrói a sociedade por dentro. Em nenhum momento o Estado pode admitir – ou dar a entender – que consumir drogas não representa perigo desde que o consumo seja feito em segurança.

A reflexão à volta destes temas ditos ‘fraturantes’ terá de ser permanente. 

O problema é que, existindo hoje mais discussão do que nunca – nas televisões e nas redes sociais –, também com facilidade se forma um pensamento único que mata a discussão. 

E os defensores do politicamente correto dominam esses meios, pois são mais militantes. E são menos tolerantes. Atuam como ‘polícias do pensamento’. Com facilidade, uma pessoa que defenda posições contrárias ao ar do tempo é proscrita e declarada imprestável.