Cultura

O Teatro Meridional leva-nos numa viagem a um Oriente feérico e pagão

A partir de hoje e até dia 6 de novembro, algumas naus irão zarpar pelos discretos caminhos da memória poética em direção a Macau, redescobrindo a antiga cidade portuguesa, a oriente do Oriente

Se o frasco de um perfume raro fosse derrubado no escuro, alertando calmamente os sentidos, entregando-os a um fôlego que nos contasse histórias dos lugares mais distantes a que foi a nossa língua e onde teve tempo para enraizar ecos, talvez essa imagem possa fazer alguma justiça ao modo como, do edifício em tijolos no Beco da Mitra, em Lisboa, somos levados, zarpamos em direção a Macau, no espetáculo que hoje se estreia no Teatro Meridional.

A vertigem delicada de um sonho opiómano é possivelmente a melhor descrição para o efeito que causa em nós esta viagem, a suavidade de modos como as sensações são arquitetadas numa sábia confusão de artes. Tintas fortes, pinceladas de um tórrido vermelho numa pintura que, tão cedo quanto a âncora desce, começa a diluir-se, a pintar-se de novo. Como um filme antigo que, ao ser projetado, fosse restaurando memórias que não sabemos exatamente se são nossas, mas que ressoam cá dentro como se fossem. Um fumo e os seus desvios, corpos, vozes guiando-nos neste ensaio que não segue uma linha tanto quanto puxa de nós uma linha e nos descose, àquele ponto em que nos vemos a expirar em êxtase.

Natália Luiza tomou para começo desta sua encenação contos e poemas escritos por portugueses e macaenses, passou um fio de sombra entre tantas visões e daí retirou um caminho, um palco que é uma forma de andar, de ver passar e ouvir, uma loja sumptuosa, a vida, a voz de um bazar, “com lojas, tendas, vendedores de rua, um rio de rumor e cor, tentacular, que flui, reflui e, de repente, estua”. A luz passa o tempo em construções, movimentando o cenário, sublinhando isto, apagando aquilo. O som, além de invocar os elementos a que as ventoinhas dão corpo, traz vida de todas as direções, enche e raspa as profundidades, não deixa nunca que um mar imenso se encerre num aquário.

Se tanta vez, no teatro, nos sentimos perante uma arte estilhaçada, um resto de restos, macaqueando-se, despindo as suas propriedades únicas para pegar em segunda mão nas de outras, este espetáculo reapresenta-nos ao teatro como uma arte poética, na sua capacidade de içar velas e segurar o sopro da imaginação, entre sugestões que não traem nunca um sentido de movimento, de imensidão. Damos por nós estarrecidos com os olhos sobre um palco para “gestos de alquimia”.

Um ator e uma bailarina: o corpo e a visão. Raramente se terá levado a um limite tão feliz duas presenças complementares num palco. Ele deste lado, ela do outro. Romeu Costa e Margarida Belo Costa criam, através das suas interpretações, uma simetria esplendorosa. Povoam o palco de encontros e lendas, descobrem-se sem nunca se tocarem, num tempo histórico que cai por vezes numa intimidade inebriante. Ela enche os contornos do assombro, uma fantasmagoria que dita a lei da gravidade, vinca a sedução do outro, marcando a fronteira em que o sonho e a realidade bebem um do outro. A um passo ou a um mundo de distância, ele é a testemunha, a voz sob feitiço, a diferença que faz tanta distância numa língua, é o caminho incerto que muitos fizeram, é o vulto de um país recortando-se contra a luz de outro.

Atrás do balcão está ainda um terceiro elemento. Rui Rebelo, que além de dirigir o espaço sonoro é responsável pela música original que toca ao vivo. O universo literário está, assim, do lado do relato e da criação como do lado do comentário. Não fica surdo nem cego ao que é produzido em palco, e por isso os textos escolhidos lembram e vibram com nova vida, não são meramente ilustrados mas parecem espantados pelo seu acompanhamento.

Macau nasce e impõe-se a partir de apontamentos e detalhes, cresce de sugestões, preenchendo de vida um lugar metade real metade imaginário. Estão à vista os rudimentos essenciais a uma sessão de hipnotismo, e logo se sente o ar húmido e morno, “o bruxuleio do incenso liberto em espirais”, gostos e aromas que a mente já congemina como indecifráveis, e somos arrastados “no bulício pitoresco do bazar”. Divisa-se essa cidade “bela e única na originalidade do perfil de tez pálida e rosada, mesclado de Oriente e de Ocidente”.

A produção, que estará em exibição até 6 de novembro – de quarta a sábado às 21h30 e domingos às 17h00 –, insere-se num ciclo que teve já outros três espetáculos: “Contos em Viagem – Brasil” (2006), “Cabo Verde” (2007) e “Brasil, Novas Rotas” (2009). O projeto assume o desafio de alargar os horizontes das viagens literárias entre os “vários países que escreveram e escrevem poesia, prosa, romance e contos na língua portuguesa”. Textos não teatrais são assim articulados numa dramaturgia, dando origem “a espetáculos contados a uma só voz (um ator) e com espaço sonoro e música original interpretados ao vivo (um músico)”. A bailarina é, portanto, uma componente específica do espetáculo sobre Macau.

Pensar neste trabalho como uma adaptação seria ignorar o efeito expansivo e transformador do exercício dramatúrgico. O que é notável neste espetáculo é a forma como o Teatro Meridional vai mais longe, na defesa do património literário, do que tantos departamentos de literatura das nossas universidades, que se limitam a garantir as instituições do esquecimento. Ao reclamar para os textos uma condição atuante, “Contos em Viagem” é um exemplo eloquente do quanto as artes performativas se mostram hoje muito mais capazes de construir o diálogo permanente com a nossa história, permitindo assim que “a memória e a construção da identidade” sejam “um processo permanente” e enriquecedor num momento em que a cultura se vê perigosamente equiparada a um subsetor da sociedade de consumo, ao nível das indústrias da produção do lazer.

Num momento em que uma arte que deve tudo ao encontro de um consigo, à ligação entre percursos individuais, a “um tempo interior intensamente vivido”, e mesmo a essa concentração e reflexão que são substâncias próprias de um certo silêncio, a literatura vê-se cada vez mais convocada para as manifestações públicas, empurrada para uma espetacularização que logo a tolhe, a desentende e frustra. Também por isso, este espetáculo se mostra interventivo e instrutivo. O enorme esforço da literatura obrigará sempre a um esforço igual, se não maior, para não trair a sua condição, que tanto deve à criação de dificuldades para o autor e o leitor construírem entre si um atalho que vença as distâncias, o tempo e a própria língua. Nada de literário sobrevive na gaiola de gestos ocos, improvisados, fáceis. Para ler por ler, como se faz nos pseudorrecitais de tantos bares, livrarias, teatros de que sempre se “volta a casa incólume”, mais vale frequentar sessões de karaoke. A imensa diferença da proposta do Meridional está na forma como autores como António Manuel Couto Viana, Bocage, Camilo Pessanha, Eugénio de Andrade e Wenceslau de Moraes, entre outros, não parecem exatamente ter sido transplantados para o teatro. É o espetáculo que parece uma genial metáfora, regendo-se inteiramente segundo as leis de uma “física da poesia”.