Politica

Oposição a Passos prepara almoço para celebrar Cavaco

Os 25 anos da maior maioria absoluta de Cavaco dão mote para um almoço que pretende dar palco a Rui Rio e aproximá-lo do aparelho num momento em que há cada vez mais movimentações de oposição a Passos Coelho.

Pedro Passos Coelho tem repetido que está para ficar na liderança do PSD, mas nos bastidores do partido há movimentações que indiciam o clima de paz podre que se instalou entre as hostes sociais-democratas e que mostram que há quem procure alternativas. Um desses momentos vai ser um almoço para celebrar os 25 anos da maior maioria absoluta de Cavaco Silva.

Os convites devem seguir ainda este fim de semana e o encontro está a ser planeado para dia 4 de novembro, à margem da direção do PSD. Oficialmente o objetivo é recordar os 50,60% obtidos por Cavaco nas eleições de 1991. Mas há outra motivação por trás do almoço: a de reunir algumas figuras do partido em torno de Rui Rio.

Rio aproxima-se do aparelho

Em 1991, Rio fazia parte da direção da bancada parlamentar social-democrata e está, por isso, entre os convidados. Vai ser mais um momento para o ex-autarca se aproximar do partido. Sem tropas, Rio precisa de ter melhores relações com o aparelho e está a ser aconselhado nesse sentido por um grupo de próximos que ainda não perdeu a esperança de o ver a comandar o PSD.

De resto, nos últimos tempos, o antigo presidente da Câmara tem estado em alguns eventos partidários. Na agenda, teve uma tomada de posse da JSD de Paranhos e estará em breve numa iniciativa do PSD de Lousada para falar de autarquias.

Fonte próxima de Rui Rio assume ao SOL que nos últimos tempos o ex-autarca tem andado «em almoços e jantares» com algumas figuras do PSD. Há quem no partido queira «puxar por ele» e perceber a que ponto estará disponível para um novo ciclo no partido caso um desaire nas autárquicas abra caminho à contestação interna a Passos, que por enquanto ainda é apenas latente.

Na memória dos sociais-democratas ainda está o episódio que antecedeu a subida à liderança de Manuela Ferreira Leite. Depois de um jantar no qual estavam Ferreira Leite e José Pacheco Pereira, ficou decidido que Rui Rio – que estava também no jantar – avançaria contra Luís Filipe Menezes. Rio acabaria por mudar de ideias ainda nessa noite no regresso ao Porto e Ferreira Leite acabou por avançar e ser eleita líder. «Rui Rio é muito racional, mas é também muito hesitante porque pesa sempre muito os prós e contras de tudo», analisa um social-democrata que já foi muito próximo de Rio e entretanto se afastou dele.

Saber até que ponto desta vez Rui Rio terá realmente vontade de avançar é uma das incógnitas na cabeça de quem gostaria de o ver suceder a Passos. Mas há outro fator em jogo. «É preciso saber para que lado se inclina Marco António Costa», aponta outra fonte do partido.

Marco António é peça-chave

Se Rio não tem tropas, Marco António é o homem do aparelho social-democrata. Nos últimos tempos tem mantido uma postura discreta no partido, mas é notório o afastamento em relação a Passos Coelho, sobretudo desde o Congresso de Espinho. Não há rutura, mas também já não há a proximidade de outros tempos.

Nas contas dos – muitos – que se entretêm a pensar num novo ciclo de liderança, há contudo outros nomes a ter em conta além de Rio: Luís Montenegro, José Eduardo Martins e José Pedro Aguiar-Branco.

Montenegro é próximo de Miguel Relvas e esse é um bom trunfo no que toca a reunir tropas para conseguir liderar o partido. Mas esse apoio afasta desde logo a hipótese de Montenegro ter do seu lado Marco António Costa que, segundo fonte do PSD, «nunca estará ao lado de Relvas».

Se há muito se falava de Luís Montenegro como alguém com perfil para suceder a Passos, os elogios feitos por Marcelo Rebelo de Sousa foram um sinal importante para as hipóteses do atual líder parlamentar chegar à presidência do partido.

«Ao desejar-lhe sucessos políticos ainda no decurso do mandato presidencial, o que Marcelo está fazer é incentivá-lo a candidatar-se um dia à liderança do PSD», analisava Luís Marques Mendes na altura no seu espaço de comentário na SIC. Ora, sendo Mendes muito próximo de Marcelo, a legitimação da leitura de um apoio a Montenegro por parte do Presidente é um sinal ainda mais relevante.

Nova geração sem pressa

Também muito próximo de Rebelo de Sousa é o grupo onde se enquadra José Eduardo Martins, Pedro Duarte e Mauro Xavier. São os rostos mais visíveis de um descontentamento em relação à forma como Passos está a conduzir a oposição que ainda é essencialmente subterrâneo. E a forma como o líder da concelhia de Lisboa Mauro Xavier convidou José Eduardo Martins para coordenar o programa eleitoral do PSD para Lisboa sem consultar Passos foi lida no partido como uma estratégia para dar palco a um dos críticos do passismo.

Neste grupo, não há contudo pressa para chegar à liderança. Fazem parte da geração mais jovem atualmente com pretensões de chegar à direção do partido e querem evitar o papel de terem um líder de transição. Além disso, pelo menos por enquanto, não têm expressão no aparelho, pelo que dificilmente têm hipóteses no curto prazo.

Quem também não deve querer ficar de fora deste xadrez que se move no PSD é José Pedro Aguiar-Branco. Já por uma vez disputou a liderança do partido com Passos e o mais certo é que volte a fazê-lo. Menos provável, pelo menos por enquanto, parece ser a hipótese de Paulo Rangel voltar a disputar a liderança a Passos Coelho.

Em todos os casos, os putativos candidatos a suceder a Passos esperam para ver o que acontecerá nas autárquicas, o momento que Marcelo já apontou como decisivo para um «novo ciclo político». Perder Lisboa fará seguramente mossa na liderança, já que ninguém espera no partido que seja possível conquistar mais autarquias do que o PS – que atualmente tem a liderança da Associação Nacional de Municípios.

Uma derrota nas autárquicas não é, porém, por si só suficiente para fazer cair Passos, que continua a ter o trunfo de ter ganho as legislativas apesar de não ter conseguido ficar no Governo. E o próximo Congresso – a menos que Passos Coelho decida marcar um extraordinário – será só um ano depois dessas eleições. Por isso, para já, a oposição interna, descontente com os maus resultados das sondagens, limita-se às críticas em surdina e a manobras que visam arregimentar apoios para uma disputa ainda sem data.