Cultura

Rádio Quântica. Aqui não há verdade, há liberdade

Especificar é o perigo, e perigo que mata. Daí a Quântica, teoria da física e da psicologia, além de nome de rádio, fundada há um ano em Londres para ajudar a dar corpo a um movimento underground que Violet e Photonz viam borbulhar em Lisboa, ainda sem casa, que foi o que lhe quiseram dar. Primeiro online e agora num espaço físico, com um estúdio, no polo cultural das Gaivotas.

Regra número um aqui é que cada um faz o que quer. A regra número dois é que a primeira não é obrigatória. A começar é pelo princípio e o princípio da Rádio Quântica é este, segundo Inês Coutinho, que será sobretudo conhecida por Violet, produtora musical e DJ que há um ano fundou em Londres com Marco Rodrigues, que é o nome de Photonz, também DJ e produtor, a Rádio Quântica. A 1 de novembro de 2015 era transmitida a primeira edição, num site que se apresentava como uma “nova plataforma que quer ser um porto seguro comunal onde a voz de artistas e ativistas do underground nacional se possa fazer ouvir”, raízes na eletrónica mas aberta a todos os géneros, que a regra número um já dissemos qual é.

E foi “completamente explosiva” essa primeira emissão, que abriu com Violet e Photonz, de Londres, onde viviam, recorda Inês. “Estávamos à espera de uma coisa um bocado anémica e, depois da primeira emissão, em dois ou três dias tínhamos dois ou três mil seguidores no Facebook.” Não admira por isso que a festa que está marcada para segunda-feira no Lux, em Lisboa, que empresta os seus três pisos à Quântica para a festa do seu primeiro aniversário, em que não vai haver só música, haverá também um painel dedicado a temas como o feminismo, a política de género e a cultura queer, esteja prometida desde março.

Mas vamos ao verdadeiro princípio, poucos meses antes desse dia. “No fundo a rádio nasceu do facto de não estarmos cá, porque estávamos a morar em Londres, acho que há dois anos e pouco, e olhávamos para Portugal de forma muito atenta também porque nos interessava muito consumir um bocado o que se ia fazendo por cá em termos de editoras e DJing”, recorda Marco. E, olhado de fora e com tudo o que tira mas também dá a distância, o que viam era algo a formar-se. “Conseguíamos ver o conjunto e a forma como tudo encaixava”, diz, referindo-se ao tal movimento underground a que perceberam que faltava uma casa que podia ser uma rádio semelhante a outras que existem em Londres, Amesterdão ou Berlim. “Mesmo com diferenças estéticas e com diferentes identidades, tudo encaixava num mosaico de que nós gostávamos muito, e achávamos que aquilo que fazia realmente falta era uma plataforma comum a estas editoras, crews, ativistas, porque havia uma espécie de uma frente cultural que não estava muito formalizada.”

Decidiram então avançar com o projeto de uma rádio, ainda sem nome, pretexto para essa plataforma que faltava. Começaram a reunir nomes, falaram com 30 pessoas que rapidamente se tornaram 70. “O nosso critério não era tanto ser algo de que gostássemos”, diz Marco. “Independentemente das diferenças estéticas havia uma série de gente que estava a criar algo de relevante no seu nicho.” O critério era, e é, então a resposta a uma pergunta: “Quem é que está a avançar nesta cultura? São estas pessoas. Uns mais com ideias e com propostas e com artigos, outros com a sua atividade de DJ, como produtores, com editoras.” E não é possível avançar mais, o ponto é mesmo assim meio indefinido. “O perigo é quando começas a especificá-la muito. Se fazes isso ela morre.”

Inês fala num underground cultural sem casa, de “pessoas a fazer coisas”, mas “pessoas que são realmente da cultura da cidade ou do país que, sendo diferentes, podem juntar-se e ser mais fortes juntas”. Mais agora que a Rádio Quântica passou de existir apenas num site e num grupo de Facebook que é posto de comando para todas as operações para ter um espaço físico, um estúdio, na Rua das Gaivotas 6, em Lisboa, polo cultural que acolhe propostas de jovens criadores que estejam à margem do circuito cultural mainstream.

Um ano volvido, expectativas superadas para esta rádio a que deram o nome Quântica inspirados em Robert Anton Wilson, escritor, psicólogo, filósofo, futurista, além de anarquista americano que cunhou o conceito de psicologia quântica, que não tem que ser só física. “Embora tenha umas orientações políticas não necessariamente iguais às nossas, que temos uma tendência mais lefty, mais coletivista, tem um conceito que ficou muito na nossa cabeça que é a psicologia quântica”, diz Marco, que explica: “A perspetiva de que não há uma realidade objetiva no universo das interações humanas. Ninguém tem que estar certo, não há uma verdade.”

Daí vem a regra número um da Rádio Quântica, seguida da número dois, à qual se acrescenta apenas um conjunto de princípios, espécie de constituição, que tinha que existir num projeto marcadamente político. “Pode não ser um projeto partidário, mas tem uma visão clara, é uma rádio progressista em geral”, preocupada com temas como o feminismo, a luta contra o racismo e contra a homofobia. “Não somos completamente avessos à ideia de ter quotas, por exemplo, de homens e mulheres na rádio”. Princípio sempre polémico, já se sabe, mas Marco explica: “Há sempre as pessoas que preferem a ideia de meritocracia, nós achamos que só faz sentido falar em meritocracia se confiares que o sistema já resolve os problemas todos, que já está certo, afinado. E nós, de uma forma muito política, duvidamos muito do sistema.” As únicas regras além da liberdade aqui são por isso não haver lugar para discursos racistas, homofóbicos ou misóginos, ou para publicidade a marcas.

“Acho que o que o que tem de positivo a Quântica em relação às outras rádios é que não há investidores, não se controlam as audiências, nada.” A acontecer será o contrário. “Não andamos a contar audiências nem a pensar ‘Ok, vamos dar um espaço especial a esta pessoa porque sempre que esta pessoa toca na rádio faz um pico’. Quase criamos o contrário”, acrescenta Marco. “Naquelas situações em que notas que ninguém apareceu ou que ninguém ligou, é aí que pensamos que vamos mesmo ter que insistir nisso porque é importante e o pessoal não está a querer saber. Toda a gente pode propor coisas que podem ser diferentes, que podem ser bem sucedidas ou mal sucedidas, para nós isso vai sempre justificando e validando a existência da rádio. Cada vez mais”.