Desporto

Dêem-lhes condições e elas fazem história

A seleção nacional de futebol feminino garantiu um inédito apuramento para o Europeu. Carla Couto, eleita a Jogadora do Século pela FPF, acredita que isto é só o princípio.

Trinta e cinco anos a sonhar com este momento. A 24 de outubro de 1981, a seleção nacional de futebol feminino reuniu-se pela primeira vez para representar o país além-fronteiras; a 25 de outubro de 2016, as jogadoras comandadas por Francisco Neto conseguiram o maior feito da história da seleção, ao garantir o inédito apuramento para a fase final de um Campeonato da Europa, que irá decorrer no próximo ano na Holanda.

Por esta altura, e devido a esta conquista nacional, o futebol feminino recolhe um mediatismo nunca visto. Mas já perspetivado por alguém há bastante tempo. «Sempre disse que, no dia em que conseguíssemos o apuramento, muita coisa ia mudar. Temos de ter resultados para que as pessoas olhem para nós. Quando obténs resultados, é difícil as pessoas passarem ao lado», realça ao SOL_ Carla Couto, eleita em 2015 a Jogadora do Século pela Federação Portuguesa de Futebol.

Carla representou a seleção nacional entre 1993 e 2012, sendo ainda hoje a jogadora com mais internacionalizações por Portugal: 145. Perseguiu este objetivo anos a fio e nunca o alcançou, mas é agora com enorme orgulho que o vê conseguido por uma nova geração «cheia de potencial». «Na minha altura houve excelentes seleções, mas tínhamos muito menos condições. Não havia seleções jovens, jogávamos em pelados, o futebol era um hobby... Agora, quando as jogadoras chegam à seleção A já têm muito mais maturidade, e neste momento, com a entrada de clubes capazes de proporcionar outras condições, como o Sporting ou o Braga, torna-se possível que as jogadoras portuguesas evoluam cada vez mais e cheguem ao patamar a que já se joga noutros países», sublinha Carla.

«Antes, a grande diferença entre nós e outros países era a questão física, porque treinamos muito menos que em outros países, e muito tarde também. A disponibilidade mental de uma pessoa que chega ao treino à noite, depois de um dia inteiro de estudo ou trabalho nunca é igual à de alguém que vai treinar de manhã e só vive para aquela atividade. Se, a partir de agora, começarmos a ter cada vez mais jogadoras a cumprir horários semelhantes às outras, de certeza que conseguiremos chegar ao mesmo patamar, pois a jogadora portuguesa tem enorme qualidade técnica. É só preciso trabalhar mais e melhor a nível físico», garante a antiga capitã nacional.

No Europeu, Portugal será a equipa menos cotada em competição. «Mas também a que tem menos pressão», salienta Carla Couto, pedindo às jogadoras para «desfrutarem da experiência». «É a primeira vez que estamos numa competição destas, é um mundo novo. Elas são umas guerreiras, que façam de cada jogo o jogo da vida delas, como fizeram nestes últimos quatro», pede. Antevendo «patamares que mais nenhuma jogadora portuguesa atingiu» para Cláudia Neto, a atual capitã da seleção, Carla Couto salienta ainda a juventude da equipa, aliada por outro lado à enorme experiência de grandes palcos de muitas das jogadoras. «Eu passei por uma geração de ouro, agora há outra e acredito que ainda virão mais», sentencia.