Desporto

Benfica-Sporting. Guerra chegou ao atletismo e promete fazer mossa

Rui Silva foi o primeiro, ao mudar-se para a Luz, mas Nélson Évora dinamitou tudo com a decisão de rumar a Alvalade. A discussão vai seguir na secretaria, mas poderá ser a seleção nacional a sofrer com as consequências

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Se havia modalidade que parecia ser capaz de fugir às guerras seculares entre Benfica e Sporting, essa era o atletismo. Havia, parecia, era: exatamente, tudo no passado. Agora, a rivalidade entre os colossos de Lisboa chegou mesmo às pistas e promete agitar a modalidade por completo.

Segunda-feira, último dia de transferências no atletismo, o Sporting anunciou de uma assentada nove reforços, cinco dos quais provenientes... do Benfica, claro está – uma informação que os leões fizeram questão de deixar bem vincada no anúncio oficial das contratações. Hélio Gomes (1500 metros), Rasul Dabó (110 metros barreiras), Jorge Paula (400 metros e 400 metros barreiras), Marcos Caldeira (triplo salto) e Tiago Aperta (dardo) foram as últimas facadas na águia – Hélio, Dabo e Aperta são mesmo os primeiros do ranking nacional nas suas especialidades. Antes, já outros sete atletas haviam feito o mesmo percurso, entre os quais o medalhado olímpico Nélson Évora, de longe o nome mais forte deste atribulado “mercado”, e ainda Marco Fortes, também atleta olímpico.

Ao todo, 12 reforços vindos diretamente do maior rival, numa demonstração clara de que os leões querem mesmo voltar a deter a hegemonia do atletismo nacional – um estatuto perdido nos últimos anos: na temporada passada, o Benfica sagrou-se hexacampeão nacional no setor masculino, somando mais dez pontos que o Sporting nas contas finais. Com estas transferências, o conjunto verde e branco volta a assumir-se como o maior candidato aos troféus nacionais e mesmo internacionais – chegar aos primeiros lugares da Taça dos Campeões Europeus é um objetivo assumido do presidente Bruno de Carvalho.

Águia começou a brincadeira Curiosamente, até foram as águias a abrir as hostilidades quando, logo no início do mês, contrataram Rui Silva, medalhado olímpico dos 1500 metros em 2004 e uma das referências dos leões. Seguiram-se outros nomes, como o velocista David Lima e os fundistas Hermano Ferreira e Eduardo Mbengani.

A notícia da troca de clube de Nélson Évora, todavia, foi mesmo a mais marcante. No Benfica desde 1996 – com uma curta passagem pelo FC Porto, entre 2002 e 2003 –, o atleta nascido em Cabo Verde resolveu dar um novo rumo à sua carreira, já depois de ter encerrado a ligação ao treinador “de sempre”, João Ganço, sendo orientado agora pelo cubano Ivan Pedroso. A mudança causou enorme polémica, porém, pois os encarnados garantem ter exercido o direito de opção para garantir a continuidade de Nélson Évora por mais uma época, o que deveria inviabilizar a saída para outro clube, no caso o Sporting – apesar do atleta negar ter recebido a carta registada onde estaria essa informação e de garantir estar livre desde 30 de setembro. Também Rasul Dabó, Marcos Caldeira e Hélio Gomes estão nesta situação: os atletas, todavia, êm a garantia de que os contratos assinados têm valor jurídico duvidoso – além de que a Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) não reconhece contratos plurianuais.

Federação não sabe o que fazer Estes casos serão, de qualquer forma, alvo de análise esta tarde, na reunião da Direção da Federação. Nos últimos dias, o Sporting alegadamente tentou ainda contratar Carla Salomé Rocha e Catarina Ribeiro nas mesmas condições – as duas atletas acabaram por se inscrever para a nova temporada como individuais.

O Benfica apresentou, entretanto, na FPA o contrato de ambas as atletas, que, embora tenham pedido a desvinculação, fizeram-no após o clube ativar o direito de preferência, o que significa que, até os processos ficarem concluídos, estas não poderão regressar à atividade. Tal poderá, no entanto, ter consequências bastante nefastas para a seleção portuguesa, que a 11 de dezembro disputa o Campeonato Europeu de corta-mato em Chia, Itália. Até lá, ambas as atletas terão de mostrar serviço em uma de três provas de observação: o corta-mato de Amora (no próximo dia 6), Barcelos (13) ou Torres Vedras (20).

Para já, a Federação Portuguesa de Atletismo não se quis ainda alongar sobre o assunto. À Imprensa nacional, o presidente Jorge Vieira admitiu apenas que este é “um cenário novo no atletismo português”, preferindo não antecipar ainda qualquer tipo de cenário, pelo menos não antes da reunião que terá lugar durante o dia de hoje.