Erdogan manda prender deputados curdos

A justiça de Erdogan mandou prender os principais deputados curdos. Poucas horas depois, uma bomba atingiu o quartel da polícia de intervenção turca na capital do Curdistão turco.

Quando o homem chega à sua terra, os cavalos brancos correm manchados de sangue, nas aldeias fantasma veem-se os soldados e as centenas de corpos empilhados. É esta a cena mais forte do filme Yol, Palma de Ouro de Cannes em 1982, realizada pelo curdo Ylmaz Guney, em que se contam várias histórias de presos que recebem uma licença de fim de semana para visitarem as suas terras e famílias. Passaram 34 anos desde que o filme foi feito, com o realizador a fazer o seu trabalho a partir de uma prisão em que estava detido pelo regime militar, a Turquia já não é uma ditadura militar mas a situação dos curdos continua na mesma. O célebre jornalista e especialista na região Robert Fisk titulou um seu artigo no The Independent da seguinte forma: «Um quarto de século depois de eu ter sido preso pela polícia turca, as coisas estão piores no Curdistão».

A chegada ao poder do Presidente Erdogan, prometendo democratizar o país, tirar a bota dos militares sobre as instituições da república, dar direitos culturais aos curdos e fazer um acordo de paz na região, foi um pequeno fogacho, rapidamente apagado por uma deriva autoritária. Erdogan está apostado em prender todos os seus opositores, sejam jornalistas que o critiquem, magistrados que investiguem a corrupção que envolve os seus familiares ou políticos curdos que lutam pela autonomia da sua região. Há meses que as tropas de Ancara bombardeiam e atacam cidades e aldeias do Curdistão turco deixando no terrenos milhares de mortos; o exército e os tanques turcos entraram em território sírio e iraquiano para impedirem a formação de qualquer unidade territorial curda que possa constituir um embrião de um Estado nação viáveis.

É neste contexto que podem ser entendidas as prisões dos líderes e deputados do partido de esquerda e pró-curdo HDP (Partido Democrático do Povo). O Ministério do Interior turco emitiu na sexta-feira um comunicado em que justifica nos seguintes termos as detenções dos dois líderes do HDP, Selahattin Demirtas e Figen Yuksekdag e de mais dez deputados, durante a madrugada de sexta, acusando os eleitos da população curda de «negarem-se a acudir aos tribunais para responderem perante a justiça», para responderem a várias acusações de colaboração com o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) grupo considerado terrorista pelo governo de Erdogan e pela União Europeia. Em maio passado, o parlamento, dominado pelos partidários de Erdogan, retirou a imunidade parlamentar aos eleitos do HDP, o terceiro partido mais votado nas eleições turcas. A justiça turca, expurgada de milhares de magistrados que não apoiam o presidente, acusa 56 dos 59 deputados do HDP em 510 processos judiciais. Só o líder do partido, o advogado Selahattin Demirtas, tem mais de 77 processos. As acusações aos políticos curdos envolvem uma série de acusações que vão desde «insultos aos presidente» a «propaganda a favor de organização terrorista» e «colaboração com bando armado». Esta ação para decapitar o partido pró-curdo e na prática ilegalizá-lo, segue-se à prisão de 181 presidentes de câmara curdos e de 301 dirigentes locais do HDP. Mais de 30 municípios são agora dirigidos diretamente pelo governo e os militares, entre as quais a principal cidade do Curdistão turco, Diyarbakir. 

«Trata-se de uma decisão política. Querem privar os curdos turcos dos seus representantes e privarem-nos dos seus direitos», afirmou, ao El País, a deputada curda Feleknas Uca. Pelo seu lado, as autoridades afirmam que as detenções se dão apenas porque os deputados curdos se recusam a responder perante a justiça.

Nas imagens transmitidas pela televisão turca mostra-se a operação policial, com tanques, de cerco à sede do HDP, com o líder do seu grupo parlamentar a ser agredido por polícias e protestar: «Não me batam na cabeça. Represento 

centenas de milhares de curdos não me podem fazer isto».

Poucas horas depois das prisões, um carro bomba explodiu perto do quartel da polícia de intervenção turca, na cidade de Diyarbakir, matando oito pessoas e ferindo mais de 100. A guerra continua.