Internacional

A América começa a votar com um olho na violência

Trump passou semanas a convencer os seus apoiantes de que o sistema está “viciado” e que precisa deles para controlar locais de voto. Já se registaram episódios de intimidação. 

Com as urnas abertas em mais de vinte estados norte-americanos por volta da hora do almoço em Portugal, grupos de ativistas, polícia e eleitores preparavam-se esta terça-feira para um longo dia de eleições, com as habituais filas compridas, os comuns episódios de confusão e caos na entrega dos boletins e, este ano, com a ameaça de episódios de intimidação e violência.

Donald Trump, o candidato republicano à presidência, esforçou-se por convencer os seus eleitores ao longo da campanha de que as eleições desta terça-feira estão “viciadas” – elas e o sistema político inteiro, que ele promete corrigir – e que uma das maneiras que os seus apoiantes têm de garantir a integridade do voto é eles próprios inspecionarem outros eleitores.

Muitos temem que estes “inspetores informais” tentem intimidar eleitores rivais esta terça-feira. A ameaça é ainda maior para pessoas de minorias étnicas, que este ano não têm a proteção do Voting-Rights Act, que forçava o envio de agentes federais para localizações com historial de abusos racistas e dos direitos cívicos.

Eleitores afro-americanos e latinos votam preponderantemente em candidatos democratas e são alvos fáceis para militantes republicanos convencidos de que a prática de fraude nas urnas é um problema generalizado e grave no sistema político – a polícia insiste em dizer que estes casos são muito mais raros do que se possa pensar.

Vários grupos cívicos deram já conta de alguns episódios isolados de intimidação nos últimos dias de voto antecipado e dizem estar preparados para muitos mais esta terça-feira. “Antes, preocupámo-nos com coisas que acabaram por não acontecer”, explica Allison Riggs ao New York Times.

Riggs trabalha como advogada e ativista de direitos cívicos na Carolina do Norte, um dos estados mais importantes nestas eleições e onde as novas dinâmicas étnicas americanas podem produzir uma maioria democrata, passadas décadas de domínio republicano. “Estamos preparados para o pior, mas não estou necessariamente à espera que isso aconteça”, diz a ativista.

Milícias nacionalistas com historiais de comportamentos racistas anunciaram que vão inspecionar informalmente os locais de voto em nome de Trump, mesmo havendo leis que o proíbem em alguns estados – uma delas, a Oath Keepers, é conhecida por enviar homens armados para protestos cívicos e eventos liberais, levando ao limite as leis de porte de arma.

“O número e tom das chamadas que recebemos e a quantidade de processos que já vemos refletem bem o momento que vivemos”, conta ao Washington Post a ativista Kristen Clarke, presidente de um grupo de advogados que se dedica a casos de violação dos direitos cívicos e tem centenas de voluntários em linhas de emergência para casos de intimidação – estes grupos aconselham as pessoas vítimas de abuso a fotografarem os agressores.