Politica

PSD apanhado de surpresa põe travão a fundo no discurso do “diabo”

Sociais-democratas não esperavam crescimento do PIB de 1,6% e já procuram novo discurso. Fuga para a frente passa por propostas de alteração ao OE

Os dados do INE que mostram o PIB a crescer 1,6% “caíram como um meteorito” no PSD. A imagem é de um deputado social-democrata que comentava ontem ao i a desorientação que os números provocaram na bancada do partido. Passado um primeiro momento de desnorte, o PSD começa a repensar a estratégia e vai tentar uma fuga para a frente centrada em propostas de alteração ao Orçamento do Estado.

“Vamos apresentar várias propostas, e não só relacionadas diretamente com a área financeira e a economia”, diz uma fonte da direção da bancada social-democrata, explicando que essa será uma forma de tentar mostrar que o discurso do partido não se esgota nos números. “As propostas para o Orçamento passam agora a ser ainda mais importantes”, admite outro social-democrata.

Tentar demonstrar que têm, de facto, ideias alternativas para o país que não se esgotam nos números é o plano dos sociais--democratas, que já só querem ficar o mais longe possível da imagem “do diabo que aí vem”. Mesmo que, em off, reconheçam que têm agora a vida dificultada.

“Ficámos sem metade do discurso”, admite um deputado do PSD. A avaliação é o reconhecimento do dano que estes números podem fazer à liderança de Passos, mas pode pecar por defeito. Se os números se mostrarem consistentes até ao final do ano, o que está em causa é mais do que metade do discurso: é o centro da oposição de Pedro Passos Coelho a António Costa.

Basta olhar para os últimos discursos que Passos Coelho fez no parlamento para ver que, depois do défice, o crescimento passou a ser a principal bandeira do PSD para demonstrar aquilo a que o seu líder chamou o “falhanço do modelo” de Costa. Passos falava mesmo num crescimento “poucochinho”.

Bancada muda estratégia Ontem, apanhados de surpresa por números que mostram que Portugal é o país da Zona Euro que mais cresce no terceiro trimestre de 2016, os sociais-democratas optaram mesmo por mudar a estratégia das intervenções no debate com o ministro da Economia, Caldeira Cabral.

A direção da bancada optou por dividir por vários deputados as perguntas a Caldeira Cabral, encurtando o tempo das intervenções a cada um. Mas a mensagem não tinha sido bem oleada. 

Enquanto na direção da bancada se defendia que o PSD devia mostrar contentamento – embora com reservas para perceber se os números são firmes –, os deputados Joel Sá e Paulo Neves optavam por um ataque cerrado ao governo, tentando desmontar os números da economia. “Verificamos que a economia não está bem e que este é um Orçamento de ilusão e de truques”, acusava Joel Sá.

Boas notícias mas... Fora do plenário e algumas horas antes, o tom do líder da bancada parlamentar tinha sido bem diferente. Luís Montenegro veio aos Passos Perdidos da Assembleia da República “assinalar a boa notícia para o país” em declarações aos jornalistas.

Montenegro assumiu mesmo que o crescimento “surpreende todos aqueles que perspetivavam nas últimas semanas um crescimento inferior”. A ideia era que ficasse claro que – ao contrário do que tantas vezes Costa repete – o sucesso do PSD não depende da desgraça do país. Essa era uma parte importante da mensagem que Luís Montenegro queria passar, mas o líder da bancada social-democrata quis também frisar que os números ontem divulgados não são razão “para embandeirar em arco”.

“É positivo que haja um crescimento da economia neste trimestre superior àquele que era esperado, sobretudo com base no crescimento das exportações muito mais do que na procura interna – o que, aliás, contraria muito do plano de dinamização da economia do governo –, mas teremos agora de ver os dados desagregados e perceber se há aqui uma base que possa sustentar um caminho duradouro de crescimento”, comentou Luís Montenegro, ressalvando ser mais prudente esperar pelo último trimestre do ano para perceber até que ponto os dados ontem conhecidos traduzem uma tendência consistente.

Um ano perdido Ao i, o deputado Duarte Marques alinha no mesmo raciocínio e acrescenta mais um ponto que os sociais--democratas querem que fique claro: “São boas notícias. Mas perdemos um ano.” Duarte Marques recorda que, quando o PSD e o CDS saíram do governo, “havia uma trajetória ascendente da economia que foi invertida”; por isso, acredita que “os números agora são bons, mas poderiam ser ainda melhores se o rumo tivesse sido mantido”.