Cultura

Yann Arthus-Bertrand: ‘Não há nada mais bonito do que uma árvore. Um grande carvalho é um milagre’

Defende que o capitalismo está a destruir o planeta e que devíamos todos tornar-nos vegetarianos. Depois de ter filmado a Terra vista do céu, Yann Arthus-Bertrand fez um filme a partir de mais de dois mil depoimentos. Human foi apresentado esta semana em Lisboa, mas está disponível para todos na internet.

Jornalista, fotógrafo, realizador, ativista do ambiente, Yann Arthus-Bertrand esteve esta semana em Lisboa para apresentar Human, o seu mais recente filme. Nascido em Paris em 1946, Arthus-Bertrand tornou-se conhecido em todo o mundo através do livro A Terra Vista do Céu, que revelava imagens deslumbrantes do planeta feitas a partir de balões de ar quente.

Depois de uma breve carreira como ator, iniciada na década de 60, esteve à frente do parque selvagem do palácio Saint Augustin, em Château-sur-Allier, e em 1976 mudou-se para o Quénia, onde durante três anos viveu com a tribo Masai para estudar os hábitos de uma família de leões.

De regresso a França, em 1991 fundou a Agence Altitude, uma agência especializada em fotografia aérea.

Como realizador, assinou o documentário Home, em 2009, um olhar sobre algumas das mais belas paisagens da Terra e um alerta, ao mesmo tempo, sobre como o equilíbrio se encontra ameaçado. Ambientalista comprometido, Arthus-Betrand é um crítico acérrimo do capitalismo e da indústria da carne. Defende que, «por muito aborrecido que possa parecer a muita gente, devíamos todos tornar-nos vegetarianos, ou pelo menos aprender a comer menos carne». «O negócio da carne», continua, «tem um impacto imenso na agricultura, na deflorestação e nas emissões de carbono. [...] Comer carne é comer sofrimento», conclui.

Human, o seu mais recente filme, nasceu do projeto 7 Billion Others (Sete Mil Milhões de Outros), lançado em 2008. Com uma duração de um pouco mais de três horas, o filme baseia-se em mais de duas mil entrevistas, realizadas em mais de 60 países. Os entrevistados, oriundos de todos os recantos da Terra, responderam a um conjunto de 40 perguntas sobre o sentido da vida, a família, a guerra ou o amor.

Como encontrou as pessoas que depõem neste filme?

Todos os meus filmes contam histórias globais. Este tem alguns temas – como ‘guerra’, ‘perdão’, ‘homofobia’ – e para os desenvolver fomos ao máximo de sítios para conhecer e falar com os seus habitantes: com agricultores da África subsariana, fomos a Madagáscar, à China, trabalhámos com ONG, fomos a campos de refugiados e à Sicília ver os migrantes que chegam à Europa. Por vezes íamos a um país e trabalhávamos com um taxista, ou estávamos num quarto com raparigas da limpeza, e convidávamo-los a participar no filme. Digamos que este resultado é uma mistura de sorte, ou acaso, e preparação.

Gravou as imagens em locais diferentes mas o fundo é sempre negro. Porquê?

Quis que a atenção ficasse concentrada na expressão facial, que não houvesse motivos de distração. Isto é um princípio fotográfico. No início da fotografia, há cerca de 100 anos, Nadar fez a mesma coisa.

E experimentou algumas das dificuldades que estas pessoas passam ou viajou em condições confortáveis?

Não, não experimentei. Não havia tempo para isso. O nosso objetivo era outro.

Editar todo este material deve ter sido um pesadelo, não?

Foi difícil, mas não foi nada um pesadelo – foi um prazer. Foi extraordinário ver todas estas pessoas e ver o que diziam. Quando não se tem material suficiente, aí sim, é um pesadelo, Quando se tem demasiado material não, até porque é uma coisa que adoro fazer.

Mas tem de se gastar muito tempo.

Foi um ano, com quatro pessoas. E eu vi já uma seleção.

Como era esse processo?

Havia pessoas da equipa que iam para o Camboja, por exemplo, e filmavam 15 horas. Dessas 15 horas faziam uma seleção de 3 horas e eu via tudo, para depois escolher o que ia usar no filme.

A organização Greenpeace nasceu dois anos depois de o homem ir à Lua e de se verem as primeiras imagens do planeta a partir do espaço. Ver a Terra a partir do céu também tornou a sua consciência ambiental mais aguda?

Ver a Terra do céu deu-me sobretudo um certo hábito de beleza. O planeta é muito bonito, e ver esta beleza alimenta-nos. Penso que a maior obra de arte não está nos museus. Não percebo por que as pessoas ficam tão fascinadas com a arte moderna porque há beleza à nossa volta em todo o lado. Para mim não há nada mais bonito do que uma árvore. Um grande carvalho, para mim, é um milagre. Vivemos obcecados a procurá-la noutros sítios, mas a beleza está mesmo aqui à nossa volta.

Mas você também foi à procura da beleza em locais muito longínquos…

Quando se faz um filme sobre a Humanidade não se pode ficar em casa. Se eu fosse uma pessoa muito esperta, podia imaginar, escrever, não precisava de viajar. Mas eu preciso de viajar, não consigo imaginar o deserto se não for ao deserto.

Precisa de o testemunhar?

Exatamente.

E ver tanta beleza não se pode tornar aborrecido?

Não para mim. Nunca me aborreço de ver coisas belas.

Já lhe devem ter perguntado isto, mas como ativista do ambiente fica preocupado com a vitória de Donald Trump?

Não. Quando fazemos um filme como Human percebemos que ninguém pensa da mesma maneira que nós. Temos de o aceitar. Temos políticos muito, muito maus, foi por isso que Trump apareceu. Não quero falar muito sobre isso. Toda a gente me pergunta sobre Trump, mas o Trump não tem importância nenhuma.

Estava a perguntar porque ele disse que não ia cumprir o acordo de Paris e que ia investir em energias poluentes, como o carvão…

Mas a América esteve sempre contra um acordo sobre o ambiente. Temos de perceber que os políticos não vão fazer nada sem a nossa colaboração. Nós é que temos de decidir o que queremos. Andamos a viver em negação: sabemos das mudanças climáticas, sabemos o que se passa na indústria da carne, sabemos muitas coisas e continuamos a comportar-nos da mesma forma. Precisamos de grandes mudanças, de uma grande revolução. E penso que a próxima grande revolução não vai ser política, não vai ser científica, não vai ser económica. Não, a próxima revolução será espiritual. Não sobre Deus, mas sobre ética, sobre o que posso fazer para ter um planeta melhor. É sobre isso que este filme fala: fala sobre ecologia em grande escala. E o que é ecologia? É amar a vida e amar as pessoas que vivem no planeta, só isso.

E antes que se dê essa grande mudança, essa revolução, quais são as pequenas coisas que posso fazer como cidadão para melhorar o planeta?

Você é jornalista, pode fazer tanta coisa… Quando as pessoas o leem, a sua influência pode ser enorme. Mas você não é uma criança, não lhe quero dar conselhos! [risos]

Depois de mostrar imagens de grande pobreza e de lugares muito poluídos, e a seguir ao discurso do presidente do Uruguai, que arrasa a sociedade de consumo, aparecem imagens dos arranha-céus de Manhattan. Essa sequência é uma crítica ao capitalismo?

É intencional, mas não sei se é uma crítica. Acho que o capitalismo está a destruir o planeta, o crescimento está a destruir o planeta.

Mas ao mesmo tempo não acha que Manhattan e esses arranha-céus são uma grande criação humana?

Acho. Manhattan é um sítio incrível. Adoro essas imagens. Quando falo da beleza do mundo falo também do que os homens fizeram. Não faço separação entre os campos e as cidades, a natureza e a as paisagens construídas pelo homem.

Mantém contacto com algumas das pessoas que entram no filme?

Muito poucas. A maior parte delas nem sei se viram o filme ou não.

E quando ouve aquelas pessoas a falar por vezes encontra respostas para perguntas que fazia a si próprio?

Essa foi a razão por que fiz este filme. A única. Trata-se de questões sobre o sentido da vida, sobre a felicidade, são perguntas que fazemos a nós próprios todos os dias.