Cultura

O Pai. Na pele de um homem perdido no labirinto da demência

Estreia hoje no Teatro Aberto uma peça que desorienta o público, lhe retira o chão, à medida que se vê puxado para a derrocada de um homem que deixou de poder confiar na sua própria mente

E se a memória deixar de servir-nos de corrimão. Se a cola da realidade ceder e, como a um livro de que começassem a soltar-se as folhas, o passado virasse uma sucessão de ecos desordenados, as frases e as cenas baralhadas não tivessem o número no pé da página como referência, e os sinais de pontuação se perdessem ou sumissem de todo, outras vezes um parágrafo faltasse ou um capítulo inteiro. Não há tombo mais vertiginoso do que aquele que acontece para dentro de si mesmo. “O Pai” é uma peça do dramaturgo francês Florian Zeller que a alguns soará tragicamente familiar a uns, e para outros deixará um aviso difícil de ignorar. A premissa é assustadoramente simples: um velho está a perder o pé em si mesmo. A mente perdeu ascoordenadas, e durante um pouco mais de hora e meia a audiência estará fora e dentro desta derrocada, partilhando a impotência e a perplexidade, tentando perceber que peças dão com que peças, num puzzle cuja imagem completa é um buraco negro.

Depois de um retumbante sucesso em Paris, Londres e Nova Iorque, o espectáculo estreia esta noite em Portugal, no Teatro Aberto, numa versão assinada por João Lourenço e Vera San Payo de Lemos. André, chama-se o velho, o pai que na primeira cena está ainda em sua casa, e recebe a visita da filha, Ana, e, sempre tensa, a acção desembrulha-se a um ritmo aflitivo, primeiro em volta de um relógio que ele não sabe onde pôs, se calhar roubaram-lho, talvez a jovem que toma conta dele, armou uma confusão, encheu-a de tudo, puta e o mais. O tempo que lhe falta e, mesmo depois do relógio ser descoberto, já não terá qualquer linearidade. A filha desesperada com as confusões do pai, por não poder deixá-lo sozinho, porque as jovens que contrata para cuidarem dele se sucedem, e ele acaba por descompô-las a todas, humilhá-las a partir das suas fantasias multiplicando-se em suspeitas à medida que a escada no seu interior começa a perder degraus.

Cedo o dispositivo cenográfico, a própria sequência das cenas, e o tom angustiante dos diálogos, fabrica um engenhoso mecanismo cénico reminiscente das mais exasperantes gravuras de Escher. João Lourenço, o encenador, disse ao i que “tentámos mostrar como é que aquele cérebro funciona”. E adianta: “Li alguns livros sobre estes casos de demência… Eles têm uma noção muito concreta da sua verdade, à qual se agarram desesperadamente, julgando que são os outros que não estão a ver bem as coisas. Aquilo é muito real.”

Neste espectáculo quanto mais a realidade fica exposta mais ela nos confunde. Há um momento em que somos sacudidos quando a filha que até ali fora encarnada pela actriz Ana Guiomar, no momento seguinte surge na pele de Sara Cipriano. André lembra-se de que tem uma filha, mas não a reconhece, e nós também não. E depois há o namorado (ou é o genro?), alguém que entra e sai, umas vezes quem o traz é o actor João Vicente, outras Paulo Oom, e afinal já não estamos em nossa casa, mas a viver com eles. E a filha tinha-nos dito que se ia mudar para Londres por causa do namorado, mas afinal não foi, casou-se, ou este é o primeiro marido de quem se tinha divorciado, ou irá. E ele umas vezes é-nos indiferente, nas outras já não aguenta mais, não pode connosco ali a atrapalhar tudo... E se há muitas coisas de que André não consegue lembrar-se, como uma criança, fica este terror de ser deixado sozinho com este homem...

“Como a peça anda para trás e para a frente, e como nunca sabemos bem o que é para trás ou para a frente, só há duas referências principais que mantive, que é a primeira e a última cena”, esclarece João Lourenço. “Essas são as cenas capitais, o resto é um labirinto.”

Florian Zeller escreveu a peça da mesma forma que se tem um sonho, ou seja, “inconsciente sobre para onde me encaminhava”. Classificando-a como uma “farsa trágica”, o escritor de 37 disse ao “The New York Times” que só quando estava perto do fim se deu conta do que era o drama que estava a desenhar-se, percebendo então que se tratava da senilidade, demência, que era uma peça sobre a doença de Alzheimer, e esse momento em que umapessoa começa a ver o sistema ir abaixo, as luzes a apagarem-se, “quando se perde a noção de quem se é”.

Sem contrariar o autor, João Lourenço quis distanciar-se da ideia de que a peça retrata o processo do Alzheimer. Preferiu focar-se na experiência da pessoa a quem um diagnóstico mais ou menos preciso de nada serve. “Geralmente, a este desvanecimento, chama-se-lhe Alzheimer, mas muitas vezes não é”. Para o encenador a peça “centra-se mesmo na própria pessoa, no que sente, no que pensa”. “Vemos como essa pessoa tenta manter-se… Ele não reconhece completamente o estado em que está.  A peça também passa por isso, essa desconfiança, o pensar que talvez sejam os outros que de algum modo estão confusos... Ou a tentar enganá-lo. Assim ele começa a perder-se. Perder a memória é perder a vida aos bocados. É muito duro.”

Escrita em 2012 e por encomenda do veterano actor francês Robert Hirsch, hoje com 91 anos. Zeller contou que começou a escrever sem pensar no tema, antes pensando na voz, no corpo, na maneira de Hirsch estar vivo. Essa foi a sua inspiração. Mas no fim, acabou por descobrir uma ligação pessoal. “A minha avó, que me criou, teve demência a partir dos meus 15 anos e a situação impressionou-me muito”, revelou numa entrevista concedida em 2015. A peça esteve em cena quase três anos em França, recebeu prémios, inclusivamente o Molière para a Melhor Peça nesse ano, e, na sua versão na Broadway, valeu a Frank Langella o Tony como melhor actor numa peça de teatro já este ano.

João Perry não deixa que André seja simplesmente atropelado pelas circunstâncias, com uma obstinação notável o actor debate-se, não deixa um milímetro de folga na forma como veste a pele do personagem. Insurge-se, não quer do público a mera comoção, nem a banalidade das boas emoções. A luta é dele, está sozinho frente ao abismo. E o seu, é um reflexo conturbado, o de um homem difícil, tantas vezes injusto, um bruto. Mas do velho quetropeça tantas vezes e volta a criança, ficamos com o dó que só temos de nós mesmos, e, no fim, quando já nem da filha se lembra, quando se esquece de que é pai, sabe apenas que é filho, e chama pela mãe. Raramente se terá chamado pela mãe com um tão grande abandono como o faz ele.

“Quando li a peça percebi que só havia um actor para fazê-la”, diz João Lourenço. “É verdadeiramente um grande actor, e este papel exige-o. Quando chegávamos ao fim dos ensaios o João Perry dizia muitas vezes: ‘Sinto-me vazio’. Foi isso que lhe pedi a ele como ao resto do grupo: ‘Dêem-me verdade, procurem dar-me verdade. Isso é o que me interessa no palco.’”