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Europa: As crises que vão chegar a Portugal

Se 2016 foi o ano das surpresas, o ano que aí vem promete ser igualmente turbulento. No Parlamento Europeu, multiplicam-se os fogos que ainda niguém sabe bem como apagar. Itália, Brexit e Trump são ingredientes de uma crise que também se vai sentir por cá.

«A Europa está a arder», comenta um eurodeputado entre reuniões. Por estes dias, há vários fogos para apagar em Bruxelas. O Brexit está longe de estar extinto, ninguém sabe como vai alastrar o efeito da eleição de Trump e muito menos como controlar o problema da banca italiana.

Pelo meio, há questões aparentemente mais comezinhas a tratar, como a sucessão de Martin Schulz na presidência do Parlamento Europeu e todas as consequência que terá no complexo – e frágil – jogo de poderes europeu (ver pág. 53).

São dias em que a palavra «incerteza» domina quase todas as conversas, declarações à imprensa e debates no Parlamento Europeu. Para quem está fora do epicentro da crise europeia, os temas até podem parecer distantes, mas quem está em Bruxelas sabe bem como cada um destes problemas se pode vir a refletir no dia a dia dos portugueses.

O problema da banca

O referendo italiano sobre uma reforma do sistema legislativo transformou-se no plebiscito que tirou Matteo Renzi do Governo e abre agora caminho a eleições que podem levar o movimento populista Cinco Estrelas ao poder, tornando ainda mais séria a tão anunciada crise de crédito malparado em Itália.

Os 360 mil milhões que se estima serem o valor do malparado dos bancos italianos são uma ameaça que paira também sobre Portugal. «Qualquer crise grave em Itália tem um impacto sistémico global», avisa o euodeputado social-democrata Paulo Rangel, lembrando que a economia italiana é a oitava à escala mundial e que os efeitos da incerteza política por lá se podem pagar em Portugal através de uma subida dos juros da dívida. Rangel acredita que um acontecimento como a eleição do populista Beppe Grillo pode mesmo «originar uma subida dos juros da dívida dos países pertencentes à zona euro», por aumentar o sentimento de desconfiança nos investidores.

Na verdade, os problemas que afetam bancos italianos como o Monte dei Paschi di Siena ou o Unicredit vão ter repercussões imediatas na Alemanha. É grande a exposição do Deutsche Bank ao Monte dei Paschi e as caixas regionais alemãs têm também um grau de exposição elevado ao Unicredit, pelo que o que a probabilidade de um efeito dominó é muito elevada.

Pelo meio, há ainda que resolver os problemas de liquidez do Deutsche Bank que há quem veja como um segundo Lehman Brothers – o banco americano cuja queda espoletou a crise financeira global de 2008.

«A situação é bastante complexa», comenta Paulo Rangel, que acredita que parte do problema está na ainda incompleta União Bancária. Para já,  avançou-se apenas em dois pilares, o da supervisão e o da resolução (que na verdade não estará completo antes de 2024), mas ficou por criar um sistema de garantia de depósitos. A situação é particularmente grave, defende o eurodeputado português,  porque esta União Bancária  incompleta está a incentivar a integração dos bancos sem que haja sistemas de proteção dos depositantes em casos de resolução, algo que gera desconfiança e torna ainda mais difícil o crescimento económico de que a Europa precisa.

E se a isto se somar a fragilidade do sistema bancário português, com o processo de recapitalização da Caixa Geral de Depósitos ainda por fazer, é fácil de perceber como o incêndio em Itália pode rapidamente chegar a Portugal.

Costa deve enfrentar negociações duras em 2017

António Costa terá de contar ainda com as dificuldades acrescidas de negociar em 2017 com uma Europa em pleno momento eleitoral. É que se o Brexit deu a Bruxelas a ideia de que seria bom flexibilizar algumas metas para conter os riscos de desintegração, as eleições marcadas para o próximo ano na Alemanha, França e  Holanda podem ter um efeito contrário.

Angela Merkel provavelmente terá de fazer voz grossa na Europa para não perder terreno eleitoral em casa. Ao contrário da imagem que tem por cá, na Alemanha Merkel é vista como uma chanceler que tem ajudado os países do sul e que não tem sido suficientemente firme em questões como a dos refugiados ou a das dívidas públicas.

O partido de extrema direita AfD (Alternative für Deutsch­land) tem estado a crescer nas sondagens com esse tipo de críticas em relação a Angela Merkel e não é de estranhar que isso faça a líder da CDU tornar-se mais dura com países como Portugal, Espanha e Grécia, da mesma forma que já começou a mudar o discurso sobre os refugiados para não perder votos. Esta semana, Merkel anunciou a intenção de proibir o uso do véu islâmico que cobre a cara nos locais públicos «onde seja legalmente possível», depois de ser reeleita líder da CDU.

Mas há outras consequências a ter em conta nesta vaga de eleições que vai varrer a Europa em 2017. Sem que esteja definido quem ficará no poder em França e na Alemanha, o Reino Unido espera para ver quem serão os seus interlocutores na negociação do Brexit.

«Está ainda tudo em aberto», comenta o eurodeputado conservador britânico, explicando que há vários modelos em cima da mesa, que vão da possibilidade de pagar para ter acesso ao mercado comum europeu até à saída completa. «Para já, não se percebe ainda o que vai acontecer. Só percebemos que nada de bom virá daí, porque todos os cenários apresentam riscos para o Reino Unido», aponta o britânico, preocupado com o isolamento a que o país poderá ficar votado depois de os primeiros sinais dados pelo recém-eleito Donald Trump deixarem claro que o Reino Unido não está no topo das suas prioridades diplomáticas.

A ‘cavalgada do populismo’

A subida da extrema-direita em França poderá ter um efeito semelhante. E embora ainda seja demasiado cedo para perceber o que pode realmente acontecer, Paulo Rangel admite que podem estar criadas as condições para uma «cavalgada do populismo» na Europa depois da eleição de Donald Tump nos Estados Unidos.

Foi, aliás, essa ideia que o levou a organizar esta semana um seminário no think tank que coordena no Partido Popular Europeu (PPE), em Bruxelas. Rangel levou até ao Parlamento Europeu especialistas em diplomacia económica e relações internacionais para debater as consequências da eleição de Trump. Houve quem defendesse que poderá voltar a uma política próxima de Reagan, mas também quem o descrevesse como o anti-Kissinger, pondo os interesses americanos acima de qualquer estratégia política global. Só numa coisa todos os analistas parecem estar de acordo: Trump ganhou porque falou para os que ficaram excluídos na globalização e conseguiu levar às urnas quem não votava.

Nesse aspeto, as semelhanças entre a vitória de Trump e o Brexit são óbvias e fazem especular sobre as probabilidades de Beppe Grillo ou Marine Le Pen terem sucesso usando as mesmas armas.

Donald Trump traz, contudo, outras preocupações à Europa, depois de ter dito durante a campanha que pretendia cortar os gastos americanos na NATO e nas Nações Unidas, ao mesmo tempo que parece cada vez mais próximo de Vladimir Putin.

Trump pode rasgar acordo que divide ‘geringonça’

A abordagem de Trump às relações internacionais parece marcada por um pragmatismo ao estilo ‘homem de negócios’ muito diferente da forma como as administrações americanas têm gerido a política externa. «Irá a países diferente e dirá: ‘O que é que este líder quer, o que é que eu quero?’ E cria um acordo. É a forma oposta de começar a trabalhar a partir de uma grande estratégia», vaticinou um dos convidados de Rangel,  Peter Chase — do German Marshall Fund — , no seminário no Parlamento Europeu.

Giovanni Grevi, do European Policy Centre, acredita que o novo presidente americano irá dar «ênfase no nacionalismo» e optar por «uma abordagem ao comércio essencialmente com nuances protecionistas» que pode, por exemplo, pôr em causa o TTIP, o tratado de comércio transatlântico que está neste momento a ser negociado entre a Europa e os Estados Unidos.

A concretizar-se esse rasgar do projeto de acordo, essa poderá ser contudo menos uma dor de cabeça para a ‘geringonça’ de António Costa. É que se o PS defende o TTIP como uma forma de Portugal ganhar escala na negociação comercial e abrir novos mercados para os produtos nacionais, BE, PCP e PEV acreditam que o acordo tirará margem de manobra à soberania nacional e servirá para dar mais poderes às multinacionais sobre os governos.