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Internacional. Acontecimento do ano: o ano de Assad

A conquista de Alepo muda tudo. Sem ela, a oposição armada fica sem trunfos para discutir o futuro político da Síria e parece destinada a tornar-se uma insurgência de guerrilha. Assad assegurou finalmente a permanência.

Uma guerra não precisa de se silenciar por completo para que um dos lados possa reclamar vitória. O conflito sírio parece ser exemplo disso. A guerra caminha para o seu sexto ano, para cerca de meio milhão de mortos e o regime e os seus aliados não estão ainda perto de ter o país sob controlo. Nos desertos do leste domina ainda o grupo Estado Islâmico; no noroeste existem vastos territórios rurais rebeldes; os curdos reclamam alguma autonomia no norte e, no extremo sul, na fronteira com Israel, há ainda grupos organizados de oposição. Damasco, porém, celebra. Venceu no território mais importante de todos, Alepo, onde por estes dias os últimos residentes e militantes no pouco que resta dos bairros rebeldes abandonam a cidade em autocarros do regime. Analistas repetiram nos últimos anos que Alepo seria a chave da guerra. A confirmar-se, Bahsar al-Assad venceu-a. 

Alepo era a maior cidade síria antes da guerra e o seu pulmão económico e industrial. Capturá-la oferece ao regime controlo sobre os cinco grandes centros urbanos do país. Os rebeldes ficam apenas na posse de Idlib, a oeste, onde os seus terrenos são vastos, sim, mas são também rurais e pouco relevantes. A oposição armada sem Alepo é uma força sem argumentos para negociar qualquer tipo de transição política segundo os seus interesses. Se é verdade que a captura de Alepo não termina a guerra, também é verdade que a oposição - fragmentada, radicalizada e sem domínios urbanos relevantes - parece condenada a uma nova encarnação, mais próxima das táticas de guerrilha usadas pela Al-Qaeda no Iraque. E isso significa que Assad venceu. «Acho que temos de ser realistas», disse este mês Robert Gates, ex-ministro da Defesa de George W. Bush e Barack Obama. «Assad continuará no poder.»

Donald Trump dificilmente o contrariará. O sucessor de Obama já fez saber que não acredita nos grupos rebeldes sírios, que se quer afastar das estratégias de derrubar governos em países distantes e que a sua grande prioridade é derrotar o Estado Islâmico. Nisso terá o apoio dos aliados russos de Assad, que parecem ter planeado as operações em Alepo de maneira a estarem concluídas antes de Trump tomar posse, em janeiro. Conseguiram-no. Quando o próximo Presidente americano chegar à Casa Branca, a oposição síria não será uma força indispensável para vencer o Estado Islâmico nem tão pouco será uma alternativa viável para contrapor Assad e a influência iraniana que o catapultou para a vitória - se os russos foram uma ajuda vital desde os ares, as dezenas de milhares de combatentes xiitas coordenados pela Guarda Revolucionária fizeram a diferença no terreno, garantindo a Teerão que terá um dizer nos destinos sírios, iraquianos e libaneses.

Foram os russos e iranianos que entregaram Alepo ao regime, bombardeando-a, cercando-a e finalmente invadindo-a. Mas o seu peso na batalha oculta uma realidade desconfortável para Assad. Sem os seus aliados, o exército sírio parece pouco capaz de retomar e preservar o resto do território que está fora das suas mãos. «Os esforços necessários para tomar a cidade precipitaram uma grande série de vitórias oportunistas do Estado Islâmico», lembra Charles Lister, analista do conflito no Middle East Institute. A guerra, sublinha Lister, não acaba com Alepo. A morte também não. Mas, por enquanto, Damasco celebra.