Politica

Costa, o aglutinador

Conseguirá o primeiro-ministro a proeza de 2016 e manter a geringonça por mais um ano? O BE e o PCP não dão garantias e querem mais avanços, especialmente na política laboral.

Geringonça poderá vir a ser eleita palavra do ano no concurso da Porto Editora, cuja votação está prestes a ser conhecida, mas já é sem dúvida a palavra de 2016 no cenário político português.

António Costa conseguiu a proeza de fazer um acordo com o Bloco de Esquerda e com o Partido Comunista em 2015. No ano seguinte, o desafio estava em manter este entendimento à esquerda em prol da estabilidade política e do fim da política de austeridade dos partidos de direita. Tarefa que o primeiro-ministro ultrapassou com sucesso. Com esta maioria parlamentar foram aprovados dois Orçamentos do Estado, repuseram-se alguns direitos aos trabalhadores – retirados nos anos da troika –, aumentaram-se as pensões e o salário mínimo atingirá os 600 euros no final da legislatura.

Mas este não foi um ano isento de sobressaltos. Começou com a demissão de João Soares, então ministro da Cultura, depois de prometer «bofetadas» a dois comentadores através da sua página de Facebook. Seguiram-se as viagens pagas pela Galp a três secretários de Estado para assistirem a jogos do Euro 2016 e a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos – sem esquecer a polémica com os gestores do banco público.

Foi aliás esta questão que mais fez balançar a sólida geringonça. Tanto o BE como o PCP sempre se mostraram contra os elevados salários dos administradores e o verniz estalou quando estes se recusaram a apresentar as declarações de rendimentos. Resultado: António Domingues e os restantes administradores fizeram as malas. Em 2017, chega a nova administração liderada pelo ex-ministro da Saúde, Paulo Macedo. Como irão lidar os partidos mais à esquerda do PS com os recém-apontados gestores ainda é uma incógnita.

Este é apenas um dos desafios com que Costa terá de lidar, no que concerne os partidos que apoiam o Governo. O primeiro deles todos será conseguir manter este entendimento, que dura há 13 meses. Dos outros partidos, contudo, não há garantias nem promessas. Que o diga Jerónimo de Sousa: «É muito difícil repetir este acordo com o PS», afirmou o líder comunista, numa entrevista ao i. Impossível de esquecer foi também a mítica frase de Catarina Martins, numa entrevista dada este verão ao Público. «Todos os dias me arrependo da geringonça». Será que é desta que a coordenadora do BE se arrepende de vez?

A verdade é que a esquerda não vai deixar de pressionar o Governo para dar andamento a bandeiras partidárias, especialmente no que toca às políticas laborais. Já no próximo mês serão debatidas os projetos de lei sobre a reposição dos 25 dias úteis de férias. Fonte socialista adiantou esta semana ao i que o PS iria chumbar as proposta do BE e do PCP. Rejeição que surge no seguimento das afirmações do primeiro-ministro ao mesmo diário, no fim do último debate quinzenal «O que havia a negociar [em matéria laboral], já está negociado».

As eleições autárquicas irão também marcar a agenda do primeiro-ministro no próximo ano. À partida, o cenário é favorável aos socialistas.  Lisboa está praticamente garantida a Fernando Medina, atual autarca da capital. O mesmo acontece com o Porto, cujo apoio dos socialistas já foi adjudicado ao atual presidente da câmara, Rui Moreira.

Com a popularidade que o PS tem atualmente – uma sondagem da Católica refere que o PS ficaria perto da maioria absoluta, caso o país fosse a eleições –, 2017 parece antever um ano repleto de coisas boas para António Costa. Mas já diz a sabedoria popular: é melhor não deitar foguetes antes da festa.