Cultura

Passado e Presente. Lisboa, cultura e pós-colonialismo

Lisboa é em 2017 a Capital Ibero-americana da Cultura, com uma programação que se estende por várias áreas em mais de 170 atividades e que, dirigida por António Pinto Ribeiro, procura ir ao encontro das novas narrativas e abordagens à história da América Latina e da colonização

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O caminho até Madrid ou Barcelona ou Rio de Janeiro ou São Paulo faz-se bem de olhos fechados. Já que há entre Lisboa e Bogotá, Buenos Aires, Caracas, Havana e Lima, ou Manágua, Montevideo, Cidade do México ou do Panamá, Quito, San José, San Juan, Tegucigalpa será mais incerto. Mas são toda a América Latina, não só o Brasil, mais o resto da Península Ibérica que chegam à capital portuguesa já a partir de 7 de janeiro, em mais de 170 atividades – nas áreas da arte, do cinema, da música, do teatro, da dança, com colóquios, uma conferência e intervenções no espaço público – com a Capital Ibero-Americana da Cultura que, sob o signo do passado e do presente, tem em 2017 Lisboa a sua cidade, depois de Andorra.

Passado “nem sempre grandioso” ou “heróico”, será bom lembrar neste presente em que estamos e a partir do qual olharemos para ele, numa programação a cargo de António Pinto Ribeiro com a colaboração de mais de 40 equipamentos culturais, entre os quais a Câmara de Lisboa e o Ministério da Cultura para nos trazer a diversidade do universo ibero-americano.

“Diversidade de autores e de abordagens”, nota Pinto Ribeiro, “tal como são diversos os países, a geografia e os regimes políticos” de hoje, ponto do qual encaramos um passado que aqui se procura apresentar “não de uma perspetiva estática, e sobretudo não continuando as narrativas históricas tradicionais que temos em Portugal sobre a expansão, mas equacionando a própria ideia de expansão”. Com o que teve bom e de mau, com o que foi “a aventura tecnológica e científica dos Descobrimentos, que foi fantástica, mas simultaneamente uma barbárie cometida pelos europeus na América”. E a reflexão da qual nos temos alheado e que vem agora com oportunidade perfeita, com uma programação enquadrada em quatro temas fundamentais: a questão indígena, a questão das migrações, a questão da afrodescendência e a criação contemporânea, que serão “vias de acesso a muitas das obras” que passarão por Lisboa ao longo deste ano.

o racismo e o fim do paraíso

A inaugurar já a 7 de janeiro no Padrão dos Descobrimentos, por exemplo, a exposição “Al Final Del Paraíso” do mexicano Demián Flores, cujo trabalho se tem caracterizado pelo diálogo com o contexto socio-político do lugar de onde vem, que é o Sul do México, com o contexto histórico as descobertas do século XVI e o aparecimento daquele a que se chamou então de “novo mundo”. Ou mais tarde, em maio, a exposição “Racismos” com curadoria científica e investigação de Francisco Bethencourt para discutir a relação entre racismo e cidadania nos seis séculos que passaram entre 1497 e o presente, juntamente com o seminário “Racismo e Cidadania”, com com Jorge Vala e Teresa Beleza a 13 de maio no São Luiz Teatro Municipal. O mesmo onde no próximo fim de semana atuam Gisela João com Mariela Condo, do Equador, e Mariela Condo, do Panamá.

Entre as exposições, destaque ainda para “Shadows”, de Aldredo Jaar, nome incontornável da arte contemporânea chilena pelo reconhecido caráter interventivo e político das suas obras, que aqui nas Carpintarias de São Lázaro apresenta uma homenagem a Koen Wessing, fotógrafo sueco que em 1978 em Esteli, Nicarágua, registou o momento em que um grupo de camponeses que carregavam o corpo de um companheiro morto pela guarda nacional do ditador Somoza. No teatro, chega-nos noutro exemplo “Mateluma”, do Chile, uma peça sobre a ética da violência política e sobre os conceitos da verdade e da inspiração artística, com encenação de Guillermo Calderón. Ou “Poesia na Esquina do Bairro”, sessão de divulgação da poesia latino-americana com coreografia de Adriana Queiroz e participação de João Grosso, José Neves e Manuel Coelho.

novas narrativas.

“Um dos aspetos importantes desta programação é o de tentar ver para além do que são os filmes e os espetáculos, que são extraordinários, mas ver isto num contexto daquilo que são as novas narrativas sobre a América Latina, as abordagens diferentes à história da América Latina, à história da colonização”, diz António Pinto Ribeiro em conversa com o i, acrescentando que de forma direta ou indireta essas questões irão sendo colocadas com a programação que se estende ao longo de todo o ano.

Porque quando se fala em pós-colonialismo se fala sobretudo na relação com África esquecendo o continente que fica do outro lado do Atlântico. Com África “a ligação é mais próxima, aparentemente mais fácil, mas exige-se também uma ligação diferente relativamente às narrativas que os autores e intelectuais latino-americanos estão a fazer sobre a sua própria história, que é a nossa história também”, diz Pinto Ribeiro. “Sabemos pouco da diversidade geográfica e política da América Latina e sabemos pouco das relações entre a Europa e a América Latina. Isso é pena e esperamos que Lisboa possa dar visibilidade a esse universo.”