Politica

Tajani: um polémico italiano no topo do Parlamento Europeu

Rangel fala numa «figura da alta estatura europeia» enquanto Melo descreve-o como «um dos deputados de referência do PPE». Já Marisa Matias, João Ferreira e Carlos Zorrinho não esquecem as suas ligações a Berlusconi.

«Hoje começa uma nova era. Vou ser presidente de todos». Antonio Tajani, 63 anos, foi eleito 29.º presidente do Parlamento Europeu (PE) no passado dia 17 de janeiro, com 351 votos, para um mandato de dois anos e meio. Derrotou o conterrâneo e líder dos eurodeputados socialistas, Gianni Pittella (282 votos), à quarta ronda. 

Um processo de cerca de onze horas para eleger o sucessor do alemão Martin Schulz, o socialista que sai do cargo numa altura crítica para a Europa, nomeadamente com a crise dos refugiados e com o Brexit. «Eu acredito na Europa, mas precisamos de mudar», afirmou o italiano ainda antes do início das votações. No seu discurso de agradecimento, comprometeu-se a ser «neutro» e a servir «todos os europeus». 

«Uma rede europeia»

«É uma figura de alta estatura europeia», considera o eurodeputado do PSD Paulo Rangel. Vice-presidente do Partido Popular Europeu (PPE), Tajani foi eleito pela primeira vez eurodeputado em 1994. Passou ainda pela Comissão Europeia, como vice de Durão Barroso, tendo sido responsável pelas pastas dos Transportes e da Indústria e Empreendedorismo. 

«É um homem com uma grande experiência política, que conhece todos os interlocutores em termos europeus - primeiros-ministros e chefes de Estado - e, além disso, os líderes políticos de partidos de oposição», afirma o social-democrata.

Segundo Rangel, Tajani é ainda alguém que «conhece muito bem os 28 Estados» e com «uma rede europeia construída», algo «fundamental» para continuar o trabalho de Schulz de dar «uma visibilidade e um peso» à instituição. «Tem uma capacidade de influência e de ser ouvido superior a muitos outros e dá garantias de que o Parlamento não perderá peso», acrescenta. 

Para João Ferreira, eurodeputado do PCP, o italiano «é um símbolo daquilo que de pior marcou os últimos anos da União Europeia», pelo que não espera «modificações ou alterações» às políticas adotadas até hoje.

Berlusconi e emissões poluentes

Ainda assim, o percurso de Tajani começou longe da política. Licenciado em Direito pela Universidade La Sapienza de Roma, foi oficial da Força Aérea italiana, jornalista e diretor do jornal Il Giornale.

Na política italiana, começou a destacar-se como porta-voz do antigo primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, com quem fundou o partido Forza Italia. 

Ligações que não se esquecem e os eurodeputados do PS, PCP e BE fizeram questão de recordar. «Ele representa o oposto daquilo que eu defendo e creio que não é um bom sinal. Estamos a falar de alguém que foi um dos fundadores do Forza Italia, juntamente com Berlusconi. Estamos a falar de um homem que na Comissão Europeia, quando esteve na comissão de Indústria, não escapa às suspeitas de ter algum envolvimento no escândalo nas emissões da Volkswagen», sublinha a eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias. 

O papel de Tajani no escândalo das emissões poluentes de várias marcas automóveis também foi ressalvado por Carlos Zorrinho. O eurodeputado do PS e membro efetivo da comissão de inquérito das emissões do setor automóvel diz que o currículo político de recém-eleito presidente do PE «não é brilhante», especialmente por não ter respondido «como devia às suspeições». «Foi o principal responsável por todo um processo de desresponsabilização da Comissão Europeia e dos governos nacionais em relação aos indícios de que poderia haver medições das emissões automóveis não conformes à lei».

Nuno Melo, do CDS-PP, defende, contudo, que o italiano «vai além de Berlusconi», sendo «alguém que fez um percurso por si e que fala por si». «Antonio Tajani é um dos deputados de referência no PPE. Tem um histórico nas instituições - da Comissão Europeia ao Parlamento Europeu - e também na política italiana, que lhe dá essa densidade e esse peso», acrescenta.

E destaca a sua nacionalidade como um ponto forte para Portugal. Segundo o eurodeputado do CDS, é uma «vantagem para os países do sul» ter um presidente «latino» e com um «relacionamento fácil e antigo» com Espanha e Portugal - tanto que os dois países foram «dos primeiros a apoiá-lo dentro do Partido Popular Europeu». «Tendo em conta os tempos tão conturbados que a Europa vive, ter um presidente italiano, que nos conhece e que sente a Europa como nós, é um ativo e uma vantagem também para os portugueses dentro do Parlamento Europeu».

Nuno Melo recorda ainda que Tajani ascendeu a candidato do PPE à liderança do Parlamento Europeu, derrotando outros quatro candidatos igualmente fortes nas lides europeias: a irlandesa Mairead McGuinness, Alojz Peterle da Eslovénia e o antigo ministro francês Alain Lamassoure. 

 

Com Luís Claro