«Quero ver-te feliz»

Esta frase, que alguém deixou para mim, algures em Lisboa, é o melhor que se pode desejar, seja a quem for.

Ao lê-la, mesmo sabendo que não me era diretamente destinada, senti tratar-se de um desejo tão intenso, escrito de forma tão bela, que me tocava também a mim, como se alguém que não me conhece me desejasse a felicidade – felicidade, esta, a que apetece dizer, como Pedro Homem de Mello: «Felicidade, agarrei-te / Como um cão, pelo cachaço».

E a felicidade é o desejo supremo de qualquer ser humano. É o que todos ansiamos e procuramos obter, cada um à sua maneira, mesmo que, depois, façamos o que diz ironicamente Manuel António Pina: «Olha as pessoas felizes: / ocultam-se na felicidade»…

E se os caminhos para alcançar a felicidade são tão diferentes, uns percursos em linha reta, enquanto outros com desvios mais ou menos acentuados, todos procuram o mesmo objetivo.

Ver alguém feliz é, no fundo, o melhor que se pode desejar. Todos os pais ou mães procuram ver os filhos felizes, todos os amigos desejam ver os seus amigos felizes, todos os companheiros desejam ver os seus amados felizes. Adicionalmente, ser capaz de formular este desejo, ter a coragem de verbalizá-lo, é um ato de verdadeira abnegação, de real dedicação aos outros, porque, muitas vezes, apesar de o desejarmos, não conseguimos expressá-lo.

Muitas vezes, não o dizemos porque procuramos ser perfeccionistas e não queremos demonstrar fragilidades; por medo da rejeição ou do conflito com os outros; às vezes, por sentirmos que os outros têm obrigação de saber o que sentimos; ou por falhas na autoestima.

Então, não conseguindo verbalizá-lo de forma clara, procuramos maneiras mais ou menos eufemísticas de o manifestar. Pelo aniversário de alguém, desejamos-lhe «felicidade»; quando alguém consegue um feito importante, damos-lhe os «parabéns»; quando alguém está doente, proferimos a palavra «melhoras»; ou, quando vemos que uma pessoa está triste, dizemos-lhe esperarmos que fique mais «contente». Mas, no fundo, todas estas formulações são formas de contornarmos o que realmente pretendemos dizer: que desejamos que a pessoa seja realmente feliz.

E, assim, fazemo-lo sem personalizar os nossos votos, sem conjugarmos o verbo «querer», sem efetivamente dizermos «quero», como se tivéssemos medo dos nossos próprios sentimentos ou não quiséssemos expor aquilo que verdadeiramente sentimos.

Como diz António Lobo Antunes: «Isto às vezes é tremendo porque a gente quer exprimir sentimentos em relação a pessoas e as palavras são gastas e poucas. E depois aquilo que a gente sente é tão mais forte que as palavras…».

Tenhamos, pois, a coragem de nos dirigirmos diretamente aos outros para lhes dizermos o que sentimos, libertando-nos dos constrangimentos que nos amarram e impedem de darmos a nossa opinião, de nos expressarmos em voz alta, sem medo.

 

Maria Eugénia Leitão

Escrito em parceria com o blogue da Letrário, Translation Services