Opiniao

Comunicar: uma arte em vias de extinção ou uma arte reinventada?

Sempre gostei de conversar. Mais ainda de escrever e de colocar em palavras o que me passa pela cabeça. De dar vida a histórias e personagens que através da minha imaginação se perpetuam.

Gosto de comunicar e gosto que comuniquem comigo. Mas numa era em que a tecnologia impera e em que os meios de comunicação são mais que muitos, estará a comunicação em vias de extinção?

Será que no meio de tanto tweet, post e snapchat  ainda sabemos comunicar?

Estaremos nós a dizer o que queremos ou a construir o perfil que queremos mostrar aos outros? Saberemos nós usar os novos meios e linguagens? E como se integram as marcas nesta revolução?

É notória a mudança na nossa comunicação – hoje algo importante nem sempre é falado cara-a-cara e é substituído por um rol de sms intermináveis; hoje a luta por uma causa é debatida em murais de facebook em exercícios de retórica que nem sempre têm execução prática; hoje os momentos marcantes são vividos e partilhados em comunidade; hoje estar mais perto dos que estão longe é mais fácil e até instantâneo; hoje saber do mundo está a distância de um clique.

Hoje nada acontece ou existe se não for partilhado nas redes sociais.

Teria a tomada de posse de Trump tido o mesmo buzz sem murais inundado de memes?

Teria a marcha feminista anti Trump o mesmo impacto se não a tivéssemos seguido nas redes sociais das inúmeras celebridades que admiramos?

Recuando ao Verão, teria o golo do Éder o mesmo impacto se só existisse televisão e rádio? (teria, claro, jamais esqueceremos o golo do Eder, mas let’s focus).

Hoje em dia comunicar é muito mais do que transmitir uma mensagem e ouvir a sua réplica – é ter a inteligência de saber usar os recursos à nossa disposição para fazer ouvir a nossa voz. Não numa perspetiva de exibicionismo egocêntrico, mas sim numa genuína partilha do nosso ser.

E é aqui que a porca torce o rabo.

Com tanto ao nosso dispor, deixámos de saber comunicar. E as marcas também perderam o norte. Enquanto pessoas escondemo-nos atrás de imagens, frases e opiniões, dizemos o que nos vem à cabeça, mas nem sempre o que nos vai na alma. Não olhamos nos olhos, não sentimos a reação sincera, apenas a resposta ponderada e refletida de quem está do outro lado do ecrã. Já enquanto marcas nem sempre sabemos por onde começar a conversa, como quebrar o gelo com todos os que nos seguem.

Teremos nós desaprendido a comunicar? Saberão as marcas como se comportar neste novo mundo? Um mundo onde não queremos que as marcas sejam nossas amigas, mas queremos que continuem no nosso radar.

Segundo o dicionário ‘Comunicar’ é transmitir informação, dar conhecimento; fazer saber, participar: estar em relação, estar ligado por uma passagem comum.

Fixo-me nesta última ‘estar ligado por uma passagem comum’ que tão bem encerra as oportunidades tecnológicas que hoje existem e que têm um objetivo primordial: ligar-nos, concretizar a comunicação entre nós e alguém de forma tão mais poderosa e acessível que a torna uma arte reinventada.

Uma nova arte onde todos somos artistas, todos com um novo poder que altera o paradigma da comunicação como a conhecíamos.

É aqui então que as nossas marcas se devem posicionar – e que difícil que é fazê-lo – comunicando de forma relevante, pertinente e necessária para que não sejam simplesmente relegadas a um ‘Skip ad’.

É reconhecendo o poder das pessoas que as marcas conseguem garantir que continuam a fazer parte da vida delas e que não são meros instrumentos de prestação de serviços e oferta de produtos.

Sem uma boa comunicação, nada se faz, nem na família, nem com amigos, muito menos em empresas e com marcas.

Dito isto comuniquem, falem, escrevam, sintam, entendam a tecnologia e inovação, porque o objetivo de qualquer ato de comunicação é conseguirmos levar a nossa mensagem a bom porto.

E se, ainda assim, achar que tanta conversa de pouco serve e que perdeu precioso tempo a ler-me em vez de estar diletantemente a ver o seu mural, siga as palavras de Oscar Wilde: «A única coisa a fazer com os bons conselhos é passa-los a outros, pois nunca têm utilidade para nós próprios».

 

*Diretora Criativa Havas Sports & Entertainment