Internacional

Europa. Quando os socialistas perdem por falta de comparência

Desde Marx até António Costa, a social-democracia atravessou muitas crises e não parece de boa saúde.
Um breve resumo destes mais de 150 anos de história e do estado a que chegou

 

A social-democracia e os socialistas surgiram como forma de colocar na arena política o movimento operário e de dar voz às classes populares. Na Conferência Inaugural da i Internacional, em 1864, Marx argumentava nesse sentido: “Para se tornar capaz de emancipar a classe operária, o sistema cooperativo deve ser desenvolvido a nível nacional, o que implica que deve dispor de meios nacionais. Nestas condições, a grande tarefa da classe operária é conquistar o poder político.” Foi com essa missão que surgiram os primeiros partidos operários de ideologia social-democrata. E fizeram-no, apesar da repressão, com bastante sucesso.

O partido social-democrata alemão, citado pelo outro autor do “Manifesto Comunista”, Engels, como modelo a ser seguido, cresceu de uma forma notável: de 125 mil votos em 1871 para 312 mil votos em 1881, 1427 mil votos em 1890 e 4 250 mil votos em vésperas da i Guerra Mundial. Era o primeiro partido na Alemanha. A linha reformista da ii Internacional [que se seguiu à de Marx] parecia ter a capacidade de se cumprir. Os ventos da guerra trouxeram a primeira grande crise no movimento social-democrata.

A quase totalidade dos partidos apoiaram os esforços de guerra dos respetivos governos, tirando um grupo pequeno de militantes e forças políticas, com destaque para o Partido Operário Social--democrata Russo de Lenine. Mesmo depois de cindido entre bolcheviques [a maioria] e mencheviques [a minoria], a linha de Lenine defendia contestar “a guerra intra-imperialista” e aproveitar as condições criadas pelo conflito para fazer a revolução – o que veio a suceder, dividindo-se o ramo social-democrata do movimento operário com o aparecimento do movimento comunista. A ascensão dos fascismos nos anos 30 veio a encontrar socialistas e comunistas de costas voltadas.

A derrota do nazismo criou uma nova realidade: um pouco por toda a Europa, os sociais-democratas chegaram ao poder com políticas económicas keynesianas que alargavam o Estado social como resposta às reivindicações do movimento operário e como defesa contra a instabilidade provocada pela chamada “ameaça comunista”. A queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética coincidiram com o estabelecimento de políticas neoliberais nos países de-senvolvidos, surgidas a partir do fim dos anos 70, que desenvolveram a globalização económica, tiraram grande parte da escolha das políticas económicas do âmbito da escolha democrática, privatizaram a economia, desregulamentaram o mercado de trabalho, desindustrializaram o Primeiro Mundo e cortaram as políticas sociais.

A globalização neoliberal, a diminuição da força dos sindicatos e do movimento operário e a integração europeia socavaram grande parte do eleitorado tradicional dos partidos sociais-democratas e de esquerda. “A social-democracia clássica atravessa uma profunda crise que se refere à sua própria identidade ideológico-política. Tanto a influência do liberalismo de esquerda (vinculado aos valores ‘pós-materiais’ e ao multiculturalismo) como o social-liberalismo (associado à hegemonia neoliberal) provocaram curto-circuitos nos votantes sociais-democratas mais tradicionais. Ao mesmo tempo que a aposta na ‘Europa’ e o debilitamento dos Estados-nação colocam questões na narrativa social-democrata a que, até agora, as forças partidárias que a expressam não conseguiram responder com êxito”, escreve Ernst Hillebrand, um dos diretores da fundação do SPD alemão, Friedrich Ebert.

Esta espécie de impotência da narrativa e da ação social-democrata em tempos de globalização criou nas populações o sentimento de insegurança e de incapacidade que configuraram uma espécie de crise da democracia. A crise económica de 2008 agudizou estas contradições e abriu espaço ao crescimento e à chegada ao poder de forças populistas, muitas das quais de extrema-direita. Íñigo Errejón, um dos ideólogos do Podemos – uma das experiências de crescimento de populismo à esquerda –, declarou ao i: “Esta União Europeia colapsou. A dúvida é se, perante este colapso, vamos para um processo de UE a duas velocidades sem legitimidade democrática ou para um processo em que haja uma transformação que garanta a soberania dos povos.” Esta ideia de uma crise política que é simultaneamente uma crise na democracia é corroborada, ao i, por Chantal Mouffe, coautora do clássico “Hegemonia e Estratégia Socialista”: “Os partidos políticos deixam de funcionar como instrumentos de os cidadãos decidirem caminhos políticos diferentes. E sobretudo, e é isto que é fundamental, em minha opinião, deixa de haver identidades coletivas.” É este combate pela articulação de reivindicações que configurem uma nova hegemonia política que a pensadora belga defende. Quando escreveu o seu livro mais conhecido, com Ernesto Laclau, havia movimento comunista e governos com práticas sociais--democratas.

O fim do socialismo real e a globalização neoliberal criaram um cenário em que, para Mouffe, é preciso recuperar a social-democracia. Para isso, o filósofo espanhol defendeu, ao i, a necessidade de os partidos sociais-democratas abandonarem as agendas da Terceira Via: “Quando a social-democracia de Blair aceitou o mercado e a globalização, fê-lo com muito pouca ambição transformadora. Transformaram a vida deles, mas não a das demais pessoas.” Não é, pois, de admirar, como disse Ricardo Paes Mamede ao autor deste texto, que “só a extrema-esquerda mantém uma agenda social-democrata”. Se calhar, para mudar as coisas era preciso bastante mais.