Sociedade

O lado negro do turismo. Preços disparam nas cidades

Responsáveis do setor elogiam fenómeno do turismo mas, para quem procura casa, os aumentos são insuportáveis.

O turismo é um dos principais impulsionadores do setor imobiliário, atraindo cada vez mais investidores, tanto nacionais como estrangeiros. Com o aumento do fluxo de pessoas, o nosso mercado tornou-se, naturalmente, mais interessante e acabou por dar um novo fôlego, principalmente ao mercado de reabilitação. E os números falam por si: este mercado registou um acréscimo de 10,1% em 2016 comparando com o ano anterior, de acordo com os últimos dados do barómetro da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN).

Também para as mediadoras contactadas pelo i, a opinião é unânime: o turismo veio dar um empurrão a este mercado e ajudou a economia a recuperar alguns imóveis que estavam degradados. “Hoje é usado um novo conceito de negócio, o short-term rental. Este conceito ajudou a dar um boost comunicacional a Portugal perante o mercado estrangeiro, não só para Lisboa, mas também para o Porto. Hoje, Portugal é visto como um dos melhores destinos do mundo para férias e para viver”, revela a CEO da Remax.

A opinião é partilhada pelas suas concorrentes, pondo de lado a polémica que tem surgido em torno da falta de acesso a imóveis nos grandes centros urbanos por estes estarem destinados ao alojamento local em detrimento do arrendamento de longa duração.

Complicações

A verdade é que quem procura casa é confrontado com preços mais inflacionados e há zonas em Lisboa que é quase impossível encontrar um imóvel disponível, como na zona do Castelo ou Bairro Alto.

Aliás, a explosão de oferta de casas para alojamento local tem vindo, nos últimos meses, a motivar várias queixas por parte dos moradores, principalmente dos bairros históricos. Estes têm acusado os proprietários de fazerem pressão para saírem das casas arrendadas. A ideia é simples: os proprietários querem os imóveis para os explorarem no mercado de arrendamento local, um negócio considerado mais atrativo financeiramente. Essas acusações são transversais nos vários bairros históricos de Lisboa, que são os principais alvos de visitas por parte dos turistas. É o caso, por exemplo, do Bairro Alto, Bica e Alfama.

Esta explosão do alojamento local no centro histórico da capital é também um problema para a autarquia, que quase diariamente recebe queixas de moradores pressionados pelos senhorios a saírem das casas onde sempre viveram. Os moradores afetados pedem uma maior regulamentação e legislação que limite a proliferação desmedida dos alojamentos locais e hostels e, ao mesmo tempo, defendem o licenciamento zero para o centro histórico de Lisboa.

Más experiências A saga de Ana Gonçalves, à procura de casa em Lisboa, acaba por ser transversal a muitos outros portugueses. “Encontrar neste momento um T1 no centro da cidade por menos de 500 euros é quase como encontrar uma água no palheiro”, revela ao i. A comercial, que nasceu na capital há 36 anos, lembra que só agora é que começou a sentir estas dificuldades. “Para ter acesso a uma casa com dimensões razoáveis e a preços acessíveis é preciso ir para fora de Lisboa, caso contrário tenho de pagar muito mais e, às vezes, ainda sou confrontada com alguma resistência por parte dos senhorios, que aderiram à moda do alojamento local.”

Também Miguel Ferreira foi confrontado com os preços inflacionados em Lisboa e optou por arrendar um T1 em Xabregas por 430 euros – uma decisão que, em termos monetários, considera que foi a mais “favorável”. “Consegui poupar quase 200 euros e arrendar uma casa com mais metros quadrados”, confessa.

O i sabe que há quem esteja a optar por arrendar um imóvel com uma tipologia maior para subarrendar os quartos de forma a conseguir enfrentar os preços que são pedidos, apesar de saberem que estão a fintar a lei. Uma situação que, no entender dos envolvidos, “é uma questão de sobrevivência para quem escolhe uma grande cidade”.

Também no Porto, as dificuldades começam a ganhar outra dimensão. E a explicação é simples: tanto Lisboa como a cidade nortenha têm vindo a bater recordes na captação de turistas e os investidores olham para esta realidade como uma verdadeira oportunidade de negócio.

Ainda assim, os preços são um pouco mais acessíveis, como conta Rui Santos, que trocou recentemente Lisboa pelo Porto. “É possível encontrar um T1 no centro da cidade por 500 euros e um T2 duplex ao pé da Avenida dos Aliados por 750 euros”, conta ao i. Uma diferença bem significativa em relação ao que pagava em Lisboa por um T0.

Mas este cenário não se aplica apenas ao arrendamento. Também na compra, os valores dispararam e encontrar imóveis “a preço de saldo” é uma tarefa impossível. Ainda assim, trata-se de uma boa oportunidade para quem vende. E são vários os casos em que os proprietários fazem uma “pequena fortuna” ao conseguirem alienar por mais do dobro face ao valor de aquisição.