James Wood. Literatura e vida, ou um crítico entre fronteiras

Ler um ensaísta e crítico como James Wood está longe de ser apenas um encontro com outras obras, ele eleva a sua escrita a uma arte singular, fornecendo-nos todo o prazer dos grandes textos

"The Nearest Thing To Life" (O Mais Próximo da Vida) é o mais recente livro do crítico e romancista James Wood, britânico imigrado nos Estados Unidos desde 1995, onde desde há muito ocupa um destacado espaço no ensaísmo literário daquele país, hoje escritor residente de The New Yorker e Professor Convidado na Harvard University, autor de vários outros livros de ensaios, e um romance com o título de "The Book Against God". Os últimos anos têm sido ricos em reflexões sobre o acto crítico em si próprio, as novas realidades editoriais e infiltrações virtuais, que rivalizam com tudo o resto nas solicitações de atenção por parte de quase todos e todas, muito particularmente nas artes, incluindo a literatura, provocam dúvidas, e sobretudo dúvidas se ainda permanece alguém no outro lado, no lado da recepção, se ainda alguém da classe culta se interessa por ler sobre o acto de ler e apreciar a obra alheia.

Dois ensaístas críticos do The New York Times, Adam Hirsch e Charles McGrath, regressaram ao tema numa edição recente do respectivo suplemento literário, mas desta vez perguntando se, dado a proliferação de “críticos” literários nas redes sociais e noutros meios de divulgação, como as páginas da  Amazon, se são todos “qualificados” para tal, “Is Everyone Qualified to Be a Critic?” Nem um nem outro se manifestou minimamente preocupado com a “concorrência”, digamos assim, maciça e “polissémica”, apenas reafirmando o que fazem e como o fazem, relembrando a todos que “opiniões” poderão estar muito bem informadas, e outras meros palpites instintivos do momento.

A crítica séria é um diálogo com os leitores que a aceitam e apreciam sobre como um livro nos toca, e porquê, nos ensina ou nos dá o prazer quase transcendente, espiritual, diria, que só as artes nos proporcionam, como o autor ou autora manipula ou reinventa linguagens, dando-lhes novos significados, fazendo surgir imagens inesperadas, dando musicalidade, tonalidade, ao que na escrita de outros não passaria de ronco lexical e gramatical. A crítica, como nos dois escritores aqui citados, preocupa-se cada menos em ser judicativa, negativa ou panegírica, e fala do que num determinado livro nos faz aderir, apreciar, aprender, partilhar o que estética e tematicamente nos move e, uma vez mais, nos comove.

Os ensaios em "The Nearest Thing To Life", resultaram de lições, conferências e escritos vários do seu autor, todos eles intercalando a sua experiência de vida com a leitura e análise das mais representativas obras da língua inglesa, e particularmente da literatura contemporânea americana e “do mundo”, aquela que nos anos 90 já a revista Time chamava de New World Fiction/Nova Ficção Mundial, com Salman Rushie então no centro. Um dos temas mais acutilantes neste pequeno livro de alma grande é precisamente a partida do seu país natal, a Inglaterra, para a América, e o que isso implicou e implica na sua visão das coisas, no seu estado de espírito constante, no estar e tentar ser a meio dessa ponte, olhando permanentemente os dois extremos, o sentido de pertença para sempre perdido num lugar e nunca encontrado no outro, as raízes que secam ou se transformam, o estranhamento perpétuo na terra nova, mesmo já com filhos lá nascidos e inteiramente integrados, as suas linguagens algo para além de toda a memória dos próprios pais.

Wood surpreende-me aqui, afinal foi da Terra-Mãe para a Terra-Filha, só que a língua parece comum mas já significa só retalhos da memória, nem um apito do comboio, que deveria ser o mesmo em toda a parte, o faz sentir o que outrora sentia nos trilhos do outro lado do mar. Por certo que a experiência de um escritor nosso nos EUA pouco teria a ver com a de um britânico transplantado e aparentemente integrado, mas Wood fez-me lembrar de imediato o poema de Jorge de Sena, “Noções de Linguística”, em que ele ouve os seus filhos noutra língua, e lamenta a história que o “distancia” de tudo e todos, a consciência magoada de ser estranho em terra estranha. O equilíbrio transfronteiriço é uma luta perpétua, muito para além da língua e de toda a cultura ou de todos os costumes, a força das raízes desmente os supostos cosmopolitas, quase sempre auto-inventados nas classes mais abastadas, mas com necessidade de intelectualizar a sua (in)existência.

“Edward Said — escreve James Wood sobre o falecido grande escritor e ensaísta literário palestiniano, que viveu boa parte da sua vida nos EUA, e foi Professor Catedrático de Literatura na Columbia University – diz que não é surpresa nenhuma que os exilados são frequentemente romancistas, jogadores de xadrez, intelectuais. 'O novo mundo dos exilados, muito logicamente, não é natural, e a sua irrealidade assemelha-se à ficção'. Ele recorda-nos que Georg Lukács considerava o romance como o grande género do que Lukács chama 'desenraizamento [homelessness] transcendental'. Eu certamente que não sou um exilado, mas por vezes é-me difícil afastar a 'irrealidade/unreality' de que fala Said. Vejo os meus filhos a crescerem como americanos da mesma maneira como sobre isso eu poderia ler, ou inventar, personagens fictícias. Eles não são fictícios, claro está, mas o seu americanismo pode de quando em quando parecer-me irreal”.

A prosa se James Wood tem a qualidade do intelectual público absolutamente dedicado à vocação de leitor omnívoro em busca de prazer, mas sobretudo de sentido para as vidas que são as nossas, o olhar atento ao espelhado reflexo complexo e complicado em que se pode tornar a melhor literatura. São, estes, ensaios cheios de referências aos seus antecessores em vários continentes e línguas, com especial ênfase para romancistas e poetas que também deram conta das suas leituras, e como, desde Baudelaire e Walter Benjamin a Joseph Brodsky e Zadie Smith, contrapondo estes e outros nomes internacionais a certa crítica, relembrando ainda que desde a Nova Crítica americana dos anos 40 e 50 toda a teoria da literatura procurou em vão, e por vezes com efeitos nefastos para a literatura em geral, “obter um estatuto pseudo-científico”.

Ler um ensaísta e crítico como James Wood está longe de ser apenas um encontro com outras obras, ele eleva a sua escrita a uma arte singular, fornecendo-nos todo o prazer dos grandes textos. Intitula, uma vez mais, o último capítulo do seu livro “Secular Homelessness/Desenraizamento Secular”, em que dá conta e contextualiza os escritores internacionais pós-coloniais, vindos um pouco de toda a parte e hoje residentes nas mais importantes metrópoles do Ocidente. Dá voz, sem necessariamente partilhar a mesma opinião, aos que acusam muitos destes escritores e escritoras de terem esquecido as suas origens, e escreverem agora para o grande público, a política e o historicismo acusador cada vez mais ausente da sua prosa. A verdade é que são estes autores da ficção mundial que continuam a transfigurar o novo mundo em que todos nos situamos, o desenraizamento deixando de ser a condenação histórica e exclusiva dos que deixaram e deixam o seu território pátrio, para nos engolir a todos.

O estranhamento de que nos fala Wood nas suas páginas, e por ele sentido ante os seus filhos na América de hoje, é talvez aquele que todos nós sentimos nas nossas próprias sociedades, em mutação constante e, para muitos, psicologicamente, espiritualmente, violenta. Parafraseando e subvertendo Fernando Pessoa – não sou daqui como já não sou de parte nenhuma. É a esta temática, precisamente, que boa parte da literatura contemporânea se encarrega de dar forma e sublimação. No inevitável aconchego entre o crítico e a obra, James Wood rejeita o ensaísmo que se mantém no “exterior” do texto, pleno de citações, tornado mero exercício pretensiosamente explicativo. Ele penetra o texto alheio, num olhar sereno de dentro para fora.


James Wood, The Nearest Thing To Life, London, Jonathan Cape/Penguin Random House UK, 2015.