Economia

Banco portugueses estão longe de ficar fora de perigo

Análise recente mostra que os bancos portugueses continuam a ser motivo de grande preocupação, apesar dos aumentos de capital que foram feitos nos últimos anos.

Os problemas no setor bancário não são novos e há muito que estão na ordem do dia. Mas, além dos problemas que afetam os bancos portugueses, existe ainda outra questão que preocupa cada vez mais os analistas e os investidores: apesar de todos os aumentos de capital que têm vindo a ser realizados, as instituições bancárias nacionais continuam longe de ficar fora de perigo.

A análise foi feita pela Bloomberg, que acabou por concluir que o setor bancário português continua na corda bamba, apesar de já terem passado três anos desde que Portugal terminou o resgate internacional. Benjie Creelan-Sandford, analista bancário do Jefferies Group, diz mesmo que “estamos numa situação em que ainda lidamos com os mesmos problemas que tínhamos há anos, relacionados com a correção dos balanços dos bancos e com a contabilização de imparidades por crédito malparado”.

A verdade é que, de acordo com o banco central, entre 2008 e 2014, oito dos maiores bancos de Portugal aumentaram em mais de 26 mil milhões de euros o capital – valor que conta já com a ajuda estatal e com o resgate que foi feito ao Banco Espírito Santo. Ainda assim, o crédito em risco nos bancos ficou estagnado nos últimos dois anos em 12% do total, que no final de 2015 era de 32 mil milhões de euros.

“O desafio para os bancos portugueses, assim como para o setor bancário europeu como um todo, é a dificuldade em alcançar a rentabilidade de outros tempos”, esclarece Benjie. Também Roger Turro, diretor da Fitch Ratings para a banca, acredita que os aumentos de capital que foram feitos no BCP e na Caixa Geral de Depósitos ajudam a aliviar a pressão, mas não esconde que a baixa geração de capital interno ainda suscita muita preocupação.

Destruição colossal de milhões Contas feitas, cinco bancos, desde 2001, destruíram 35 mil milhões de capital. O montante resulta de uma análise feita pelo BPI, que fez as contas com base no capital que foi injetado em cinco instituições, os seus dividendos e os resultados. De acordo com Fernando Ulrich, falamos de uma “destruição colossal do capital”. Na opinião do banqueiro, o custo que foi suportado pelo Estado e pelos contribuintes é muito baixo quando comparado com o que foi gasto por acionistas e outros países. “É mentira que os contribuintes tenham pago os custos da banca”, atirou Ulrich.

Na lista dos bancos analisados estão a CGD, o BPN, o Banif, o BCP e o Novo Banco, que destruíram os 35 mil milhões em capital injetado por acionistas desde 2001 – uma verba que representa 19% do valor do BPI.
“É uma história de destruição de capital brutal. Em 16 anos, é uma verba verdadeiramente colossal.” Pior: o esforço que foi feito acabou por não valorizar os bancos.

Para o banqueiro, “o esforço efetivamente suportado pelo Estado e pelos contribuintes foi muito baixo quando comparado com o dos acionistas e o que foi suportado pelos outros países”, e garante que o balanço aponta para perdas públicas que rondam um intervalo entre os 4,4 e os 6,4 mil milhões de euros. E é este argumento que leva Fernando Ulrich a contestar a ideia de que os bancos têm sido suportados com dinheiro público. Até porque considera que é verdade que os contribuintes portugueses já perderam muito dinheiro com a banca, mas também garante que “foram bem protegidos”.

De acordo com Ulrich, a análise incluiu o próprio BPI, mas neste caso sublinhou que o esforço feito pelos acionistas foi positivo.

Lesados do Banif reclamam No meio dos problemas que a banca tem apresentado estão também as consequências para alguns clientes, nomeadamente os lesados do Banif, que ainda não têm a situação resolvida. 

A verdade é que estes clientes querem ser ressarcidos na mesma dimensão do caso BES e, por isso, já foram preenchidas reclamações que serão enviadas à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). De acordo com o responsável pela delegação dos Açores da Associação dos Lesados do Banif, estes devem ser ressarcidos dos valores como foram os do BES, até porque não podem existir “dois pesos e duas medidas”.

Para estes lesados, “já basta perder os juros”. “O dinheiro que todas as pessoas investiram das poupanças que fizeram ao longo da vida é mais do que justo ser devolvido”, diz Carlos Presunça.