Cultura

Annemarie Jordan: ‘D. Catarina adorava animais, joias e pastéis de nata’

Ficou para a História como a Rainha responsável pela ocupação espanhola em 1580, ideia que Annemarie Jordan constesta na biografia Catarina de Áustria - A Rainha Colecionadora. Falámos com a historiadora norte-americana sobre esta figura, mas também sobre objetos de luxo, animais exóticos e a Lisboa do século XVI.

Depois de sucessivos adiamentos, inaugura dia 24 de fevereiro no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, a exposição A Cidade Global, sobre a Lisboa do século XVI. Uma das duas comissárias é a norte-americana Annemarie Jordan Gschwend, Investigadora do Centro de História d’Aquém e d’Além Mar, da Universidade Nova, que, com Kate Lowe (a outra comissária), descobriu no Reino Unido em 2009 uma pintura representando a Rua Nova dos Mercadores, «a principal artéria de comércio na Lisboa do século XVI, repleta de mercadores, saltimbancos, músicos, vendedores ambulantes, cavaleiros, joias, sedas, especiarias, animais exóticos e outras maravilhas importadas de África, do Brasil, da Ásia», lê-se no texto de apresentação da exposição.

Nascida em 1957 nos Estados Unidos, Annemarie Jordan estudou História da Arte em Washington D.C. e recebeu uma bolsa Fulbright em 1982 para estudar temas portugueses. «Passei um ano em Portugal a trabalhar sobre a corte portuguesa no século XVI», explica. Já tinha aprendido a língua de Camões nos Estados Unidos, mas com sotaque brasileiro. «Quando vim para cá falava sempre em português, li bastante e o rádio ajudou muito. O mais duro foi aprender a paleografia. Há muitas abreviaturas e às vezes colam as palavras. Nos primeiros meses suei sangue, mas com o tempo e com o hábito aprendi», recorda.

Annemarie Jordan regressou em 1987 e fez o seu doutoramento sobre a Rainha D. Catarina, mulher de D. João III, a quem acaba de dedicar a biografia Catarina de Áustria – A Rainha Colecionadora (ed. Temas e Debates). «Tentei fazer um retrato humano, de alguém que adorava animais, gostava de vestir-se luxuosamente, adorava joias e pastéis de nata», revela a historiadora. «Catarina tinha vários pasteleiros que trabalhavam para ela, há documentos sobre isso».

D. Catarina nasceu em Torquemada, foi educada em Tordesilhas, era filha dos reis de Castela e casou com o Rei de Portugal. Por que lhe chamamos Catarina de Áustria?

Ela era filha de Joana de Castela, filha dos Reis Católicos, que casou com um infante Habsburgo, Filipe o Belo. Quando Joana casa com Filipe o Belo, o trono de Castela fica sob o controlo da Casa de Áustria espanhola, então o título da filha é Catarina de Áustria ou de Habsburgo.

Mas era sobretudo uma princesa espanhola. De austríaco tinha pouco…

O avô dela era o grande imperador Maximiliano, então tinha 50% de sangue Habsburgo, do lado do pai.

Diz aqui que os historiadores foram injustos com ela.

Muito injustos, principalmente os portugueses.

O objetivo desta biografia foi fazer-lhe justiça?

Claro que sim. A documentação e os factos são claros. Ela foi Rainha de Portugal durante quase 50 anos e sempre pôs em primeiro lugar os interesses da Casa Avis-Beja. Infelizmente no século XIX houve uma corrente de historiadores que pensavam que ela ‘vendeu’. Mas o desastre de Alcácer Quibir, em que morreu D. Sebastião, foi um desenvolvimento que ela não queria. D. Catarina queria que o neto – que ela educou e mimou muito – casasse e tivesse filhos, mas ele preferiu fazer batalhas. Ela morreu em janeiro de 1578 pedindo-lhe para não fazer essa campanha em África e Sebastião morreu seis meses depois, o que foi um desastre para Portugal: 60 anos de Coroa Espanhola. Ela tinha previsto que se ele morresse sem deixar herdeiros ia haver problemas, e isso verificou-se.

Tendo sido sempre educada em Espanha, foi fácil a adaptação de D. Catarina a Portugal?

Acho que sim, ela aclimatou-se bem. As cortes espanhola e portuguesa falavam tanto castelhano como português. Eram culturas muito similares, até por causa da influência árabe – na arquitetura, arte, ciência – até a música era muito parecida. Por isso as duas casas queriam sempre casar-se entre si, para que a Península Ibérica ficasse sempre nas mãos da família. Era family business! [risos]

Há uma carta em que ela agradece esse casamento ao irmão, o imperador Carlos V, não é?

Sim, ela ficou feliz com o casamento que o irmão lhe arranjou, porque assim ficou rainha e não uma princesa esquecida em Tordesilhas. Com 18 anos já era rainha de um império.

Falou-me na música. Diz no seu livro que Catarina era boa dançarina e sabia tocar instrumentos.

A mãe dela também dançava bem e tocava música. A música desempenhava um papel importante na corte portuguesa: D. Manuel adorava música e tanto quando andava pela cidade como nos palácios tinha sempre um grupo de músicos. Era o walkman do século XVI.

Chama a D. Catarina a Rainha colecionadora. O que sobrevive desta coleção em Portugal?

Pouco. Alguns retratos no Museu de S. Roque, no Museu de Arte Antiga e na Madre de Deus. Objetos de luxo, aqui não, em Viena sim, há alguns.

Como foram esses objetos parar a Viena?

Muitos soldados do exército de Filipe II, nesse capítulo desastroso para Portugal, vinham tanto da Alemanha como da Áustria. Filipe tinha um tio, Fernando II do Tirol, que tinha uma grande coleção de kunstkammer, num castelo em Innsbruck, que se chama Schloss Ambras. Filipe estava teso, não tinha muito dinheiro e essa campanha militar custava muito dinheiro, então para agradecer os soldados do tio deu muitas peças que estavam no guarda-roupa de D. Catarina para a kunstkammer do tio. Assim não precisava de gastar dinheiro para comprar presentes, aproveitou do guarda-roupa. O que também não ajudou Portugal é que o terramoto de 1755 destruiu muitas casas nobres e palácios que talvez tivessem objetos de proveniência real.

Diz no seu livro que «as tapeçarias eram mais apreciadas e valiosas do que, por exemplo, retratos, ou pinturas ou esculturas palacianas». Por que eram as tapeçarias tão valorizadas nesta época?

As tapeçarias eram os Rolls Royce dos objetos preciosos. Algumas tinham temas muito desenvolvidos, precisavam de um artista que fizesse os desenhos – os chamados cartões – primeiro em pequeno, depois à escala real. Tudo isso é um processo que podia demorar meses ou até um ano a fazer. Além disso, muitas destas tapeçarias tinham fios de ouro e de prata, o que fazia o preço disparar.

E possivelmente naquela época, naqueles palácios muito grandes, também tornavam o ambiente mais confortável…

Exatamente. O inverno é muito húmido aqui em Portugal – dentro de casa está mais frio do que fora –, então essas tapeçarias protegiam um pouco do frio. Mas também podiam ser mudadas numa hora de um palácio para outro, para tornar uma sala mais elegante, mais luxuosa. Quando Catarina ia de Lisboa, do Paço da Ribeira, para Sintra, é muito provável que levasse as tapeçarias consigo para redecorar o ambiente. Era arte portátil.

Pode explicar-nos o que eram essas kunstkammer de que falou?

A kunstkammer é um fenómeno do Renascimento, que vem da Idade Média, quando as igrejas tinham tesouros. Na sacristia das igrejas e catedrais guardavam-se todas as peças mais ricas, como pedras preciosas, por exemplo, cálices, cruzes, etc. Esse conceito de ter uma pequena sala ou várias pequenas salas onde se guardavam as coisas mais valiosas vem desse tesouro sagrado medieval. No século XVI a kunstkammer expandiu-se e já não eram apenas relíquias ou peças religiosas, eram peças de luxo, peças orientais – cofrezinhos de madrepérola, marfins…

Conchas…

Também. E montavam essas conchas, nozes de coco ou cornos de rinoceronte e faziam peças luxuosas com aplicações de ouro ou de prata. Aqui no Museu de Arte Antiga tem muitas boas peças.

Ainda há kunstkammern intactas na Europa, como eram no século XVI?

Mais ou menos. Vale a pena ir a Ambras. Fernando II do Tirol reconstruiu o castelo nos meados do século XVI, nas montanhas. Tem um panorama maravilhoso e a kunstkammer está mais ou menos intacta. Este ano vão celebrar 400 anos de Fernando II em Ambras e vai estar lá uma grande exposição que abre em junho. Também acabo de ser convidada para fazer lá uma exposição em 2018 sobre três mulheres Habsburgo, e Catarina vai ser uma delas. O meu objetivo é mostrar algumas dessas peças que eu suspeito que eram dela, do guarda-roupa real, e foram para Innsbruck.

Quando fala de guarda-roupa, são apenas vestidos?

Não. O guarda-roupa está muito ligado à kunstkammer, essas salas onde se guardavam as joias e as peças ricas. Eram todos os têxteis, riquíssimas almofadas, as tapeçarias flamengas, a roupa da rainha e da sua corte, tanto as damas da rainha como também as empregadas e as escravas.

As escravas também usavam roupas ricas?

Absolutamente. D. Catarina tinha anões – femininas, claro – e essas andavam muito bem vestidas. Quase melhor que a própria rainha [risos]. Numa corte opulenta, toda a gente tem de andar bem vestida.

Esses anões faziam parte do fascínio que a rainha D. Catarina tinha pelo exótico?

Os anões eram muito comuns em muitas cortes europeias, eram vistos como seres humanos curiosos por causa das deformações. Faziam companhia e ajudavam o rei ou a rainha a cuidar dos animais – como cães ou macacos, e por isso durante o século XVI se vê tantos retratos de anões com animais.

D. Catarina gostava muito de animais, não é?

Ela adorava animais. Tinha elefantes, macacos e papagaios.

Vinham das colónias portuguesas?

Sim. Alguns vinham da Índia, muitos da costa oeste de África e muitos do Brasil, claro. Ela tinha várias araras do Brasil. O comércio de animais era uma coisa muito importante para a corte – e também para os marinheiros. Como eram muito mal pagos, faziam negócio a trazer os animais e vendê-los nas docas de Lisboa. Também vendiam outras miudezas, como pedras preciosas.

Portugal tinha especiais condições para ‘importar’ esses animais, mas já em Itália os príncipes do Renascimento gostavam de ter os seus jardins zoológicos privativos.

O Papa tinha uma grande ménagerie – um jardim zoológico – no Belvedere, no Vaticano. Os príncipes Médicis também. Todo o mundo estava louco por esses animais. Se você tinha uma arara do Brasil, você era alguém. Os animais eram também um símbolo de status. E é muito giro porque os animais também têm uma história para contar.

Sabemos quais eram os animais favoritos de Catarina?

Papagaios, claro. Os papagaios falavam, viviam muitos anos, e eles tinham gaiolas especiais, podiam levá-los em viagem. Ela também gostava muito de cãezinhos, havia um que cantava com ela quando ela tocava.

Catarina ofereceu muitos animais a familiares. O que recebia em troca?

Ela colecionava relíquias, então recebeu muitas relíquias Habsburgo, mas também outros presentes: têxteis e sedas de Granada, mas nada ao nível do que tinha em Lisboa. O porto de Lisboa deu-lhe acesso a um leque de produtos fantásticos, ela podia ir ao Rossio ou à Rua Nova dos Mercadores fazer as comprinhas dela, e tinha agentes em Goa e em Malaca.

Li algures que Lisboa era a Nova Iorque do século XVI. Acha que a comparação é correta?

Quando Portugal chegou à Índia com a viagem de Vasco da Gama, Lisboa transformou-se numa cidade global. Era mais importante que Antuérpia, Bruges ou Veneza, e a Rua Nova dos Mercadores era a 5th Avenue e a Bond Street do século XVI. Sem dúvida. Só é pena que essa época de grandeza tenha durado tão pouco.

Esse é precisamente o título do seu livro com Kate Lowe: The Global City: On the Streets of Renaissance Lisbon, que acaba de ser premiado. Ainda há zonas onde possamos sentir o ambiente da Lisboa desse tempo?

O terramoto e o tsunami que veio a seguir destruíram muita coisa, sobretudo na Baixa. Mas a Praça do Comércio, por exemplo, tem mais ou menos o mesmo tamanho que o terreiro onde estava o Paço da Ribeira. Tem a Conceição Velha e a Casa dos Bicos, claro. Alfama sobreviveu melhor do que a Baixa, e tem um pouco o caráter e o ambiente daquela época, com essas ruazinhas. Foi feito aquele fantástico passeio junto ao Tejo e abriram uma parte da Ribeira das Naus. Basta abrir os olhos e ler um pouco e dá para imaginar como era. E os Jerónimos e a Torre de Belém! Em 1531 houve um grande terramoto em Lisboa que teve tanto impacto como o de 1755, que sorte que vocês têm de Belém e os Jerónimos terem sobrevivido.

A igreja dos Jerónimos foi justamente onde D. Catarina fez a sua última grande obra.

No final da vida ela estava sempre a guerrear com o D. Sebastião, que era muito temperamental, e pediu a Filipe II permissão para se retirar para um mosteiro em Espanha. Mas ele ficou em pânico que com a saída dela houvesse um vácuo de poder e, sabendo que D. Sebastião, sobrinho dele, era muito instável, impulsivo, pediu a D. Catarina para ficar. E ela dedicou-se a preparar esse túmulo monumental e para isso refez a capela-mor dos Jerónimos.

Em que sentido interveio? Falava com o arquiteto, dava indicações do que pretendia?

Sim, diariamente. Tudo nessa capela é o gosto dela, tem a impressão digital dela. Há uma carta em que ela diz ao embaixador espanhol que está muito cansada mas muito feliz por ter conseguido acabar o projeto.