Cultura

David Mourão-Ferreira. «Que dúvida que dívida que dádiva/ Que duvidádiva afinal a vida»

David Mourão-Ferreira (24 de Fevereiro de 1927 – 16 de Junho de 1996): um nome de grande ressonância na literatura e na cena cultural portuguesa do século XX. Dele se disse já que foi o Príncipe das Letras do seu tempo e, nesse mesmo tempo, o desejado das Letras, a estruturarem quase inteiramente o seu intenso e multifacetado percurso de vida, avesso a redutoras certezas: da casa da infância, decorrida na Lisboa onde nasceu, até à morte anunciada pelo conhecimento de um Natal futuro de confrontação com o nada, esse Natal «póstumo» que viria a ser o de 1996 («Ladainha dos Póstumos Natais»).

«Que fique só da minha vida / um monumento de palavras». Assim deixou registado nesse poema de adeus que é «Testamento», do livro Órfico Ofício (1978). E assim o desígnio se cumpriu. A sua extensa e multímoda obra, repartida pela poesia, a prosa de ficção narrativa, desdobrada nos seus vários géneros, o drama, a crónica, o ensaio e a crítica literária, é, na verdade, um monumento de palavras, de arquitectura sólida, que soube aliar a tradição ao talento individual, a força criadora ao rigor da construção. Foi, em parte, construído pela mão da soberania de Eros, da Memória, que nele ocupa posição central, e do muito viajar, sobretudo pela sua amada Itália.

A Secreta Viagem (1950), vinda a lume nas edições das folhas de poesia Távola Redonda, de que foi co-fundador, co-director e um dos principais dinamizadores, é a pedra inaugural desse monumento, depois das primeiras tentativas literárias no órgão de estudantes do Colégio Moderno, onde completou os estudos secundários, das primeiras poesias, aparecidas em 1945 nas prestigiadas páginas da  Seara Nova, cujo corpo redactorial integrará (tal como o da revista Graal), da sua passagem pela cena do Teatro-Estúdio do Salitre, e antes mesmo da inscrição em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, curso que conclui em 1951 com a apresentação da tese Três Coordenadas na Poesia de Sá de Miranda.

Professor do ensino técnico e liceal, inicia em 1957 a sua carreira de professor universitário, interrompida em 1963, por rescisão do contrato. Prosseguirá, entretanto, a sua vida de intelectual empenhado, num acúmulo de actividades culturais e literárias nunca extinguidas em que transparece o gosto da intervenção crítica (de relevante significado e tantas vezes polémica) e o gosto da divulgação, como privilegiadamente testemunha o volume Imagens da Poesia Europeia, obra de divulgação e tradução elaborada a partir de um programa homónimo que, como outros de sua autoria – Miradouro, Momento Literário, Música e Poesia, Hospital das Letras – lhe granjearam grande popularidade na Rádio e na Televisão.

Após o 25 de Abril de 1974, foi director do diário A Capital (1974-74), director-adjunto de O Dia (1975-76), por três vezes secretário de Estado da Cultura (1976-78 e 1978-79), ingressando, em 1981, nos quadros da Fundação Calouste Gulbenkian, como director do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas, cargo que ocuparia até à data da morte, bem como, a partir de 1984, director do Boletim Cultural daquele serviço e da revista Colóquio/Letras, também propriedade da Gulbenkian.

À Faculdade de Letras regressara já em 1970, pronto a marcar, com o seu espírito atento, a sua profunda sensibilidade textual e a sua dicção clara sucessivas gerações de estudantes. 20 anos volvidos, era-lhe dado o estatuto de Professor Catedrático Convidado. Ia já em fase bastante adiantada o seu «monumento de palavras», sensível ao mistério do corpo da mulher, amado território onde David Mourão-Ferreira se perdeu e se buscou, sensível ao tempo e à sua fugacidade. No domínio da poesia, o seu registo mais frequente, a Obra, feita de materiais carreados de outras culturas, outros tempos, que o afirmam decididamente como poeta da cultura europeia, integrava já títulos marcantes como Os Quatro Cantos do Tempo (1958), Do Tempo ao Coração (1966), Matura Idade (1973) ou O Corpo Iluminado (1987), a avivar o pendor erótico do seu canto. No campo da ficção, editados estavam já os livros Gaivotas em Terra (1959) – logo acusado, ora de pornografia, ora de subversão –, Os Amantes e Outros Contos (1974), As Quatro Estações (1980), o multipremiado Um Amor Feliz (1986), romance que no período de 10 anos conheceu 11 reedições.

Por vir, entre as espirais de fumo do seu proverbial e inseparável cachimbo, estavam ainda, entre outros volumes, Jogo de Espelhos – Reflexos para um Auto-Retrato (1993), Os Ócios do Ofício (crónica, 1989), Música de Cama (1994, antologia erótica). Se a estes títulos juntarmos as duas dezenas de poemas que compôs para a voz de Amália, as inúmeras conferências que proferiu, os prefácios que assinou, a colaboração, preciosa e diversificada, que deu ao Dicionário de Literatura dirigido por Jacinto do Prado Coelho, teremos uma imagem aproximada daquela que foi uma das mais fecundas e intensas vidas da literatura portuguesa contemporânea.

Surgido no ano da sua morte tão publicamente anunciada Um Monumento de Palavras, que é a um tempo a reconstituição de um percurso íntimo, cujos itinerários e deambulações a obra regista, um testamento poético mas também uma luta contra as formas do apagamento e da morte, vinha ao encontro do público pela voz do próprio David Mourão-Ferreira em registo discográfico.