Vida

Mend. Treinar um coração para deixar de estar partido

Foi desenvolvida uma aplicação que vem juntar-se aos lenços de papel, aos chocolates e às músicas de gosto duvidoso que fazem parte de qualquer separação. Chama-se Mend e já é utilizada em mais de cem países

Os nossos amigos voltam a convidar-nos para os copos, as nossas mães fazem aquela comida de conforto que sabem que adoramos desde miúdos, elogiam--nos a roupa e o cabelo. Podemos começar por olhar para o lado positivo e enumerar as coisas boas que acontecem depois do fim de uma relação. Mas a verdade é que, salvo raras exceções, e mesmo quando a decisão é por mútuo acordo, a sensação de perda é inevitável.

Temos os amigos, a comida da mãe e os elogios de quem nos rodeia para ajudar a atenuar a dor da perda, mas o certo é que esse vazio é normalmente preenchido com choro, chocolates e noites passadas entre séries, filmes e música de qualidade duvidosa.

No meio da depressão há quem recorra ao já conhecido Dr. Google - o mesmo que em tantas situações transforma uma gripe num cancro terminal - para perceber de que forma pode seguir em frente. Talvez as primeiras respostas do motor de busca deem acesso a sites de encontros duvidosos ou eventos de speed dating. Mas com alguma persistência e uma pesquisa mais refinada vai ser fácil chegar ao Mend, a mais recente plataforma criada com um só intuito: curar um coração partido. 

A aplicação Em jeito de teste, sacamos a aplicação e começamos a responder a um questionário que ajuda a traçar um perfil. Assumimos a personagem de “Susana”, que escolheu a opção “distância” como razão para o fim de um namoro que terminou dia 5 de janeiro deste ano. Depois de algumas perguntas sobre como estamos a encarar a situação, começa-se a ouvir uma voz feminina, calma e amigável, que promete que “vamos ultrapassar juntas esta separação”. 

A primeira boa notícia dada pela Elle, nome da criadora da plataforma que assume o papel de personal trainer de relações, é: “You’re not crazy.” Portanto, será normal pensar no ex dezenas de vezes por dia, imaginar como seria se ainda estivéssemos juntos ou até deixar de ir a festas por achar que ele pode estar lá.

Depois de ficar bem assente que todos estes comportamentos são normais, passa-se às explicações científicas, onde entram palavras como endorfinas, que explicam o porquê do bem-estar sentido junto do outro e que funciona quase como um vício, seja de açúcar, café ou tabaco. Para já, tudo indica que esta Ellen vai passar rapidamente ao patamar de melhor amiga, até porque lança aquele alerta que normalmente fica a cargo de quem nos conhece melhor: “Sentir falta dele não quer dizer que tenham de voltar a namorar.”

A partir daqui seguem-se semanas de treino, que pode incluir dicas para dormir melhor ou até choques de realidade em formas de perguntas como: “Tens ido ao histórico para ler mensagens antigas trocadas com o teu ex?”

A vontade de dizer a verdade quase que é camuflada pela vergonha de assumir a fraqueza e é aí que Ellen garante mais uma vez que “não estamos loucos” e que “essa vontade vai passar”.

 

Treinar para superar Estas semanas de treino são para levar a sério. Chamam--lhes assim porque há tarefas a cumprir, dados para registar e a aplicação até apresenta algumas semelhanças com as usadas para ajudar no exercício físico.

Todos os dias é possível registar as atividades feitas ao ar livre ou no ginásio, as conversas com amigos, as sessões de terapia e até as possíveis relações sexuais. Em sinal de conquista, a aplicação vai fazendo uma contagem dos dias que passaram desde o fim da relação e dos dias sem contacto com o ex, até porque uma especialista em separações sabe que são duas coisas bem diferentes.

Depois de algumas semanas de “conversa” com Ellen e com os restantes utilizadores da aplicação, a ideia é criar uma sensação de pertença. E tendo em conta que já há registo de downloads em mais de cem países, não parece haver fronteiras para esta comunidade de corações partidos.