Cultura

Festival da Canção. Quem és tu de novo?

O Festival da Canção está de regresso mas não voltou o mesmo. Na edição deste ano, o naipe de compositores foi renovado e chamou para o mais antigo dos concursos musicais uma nova geração de compositores da música portuguesa. Nas meias-finais, já ficaram para trás Márcia, David Santos (Noiserv), Samuel Úria, Héber Marques (HMB), Siraiva (de “Brinca na Barriga”), Tóli César Machado (GNR), Jorge Fernando e João Só. Na final deste domingo, apura-se o representante nacional em Kiev e celebram-se 60 anos da RTP

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A voz de Kika Cardoso (vencedora do programa de talentos “Factor X”, da SIC) está agora ao centro dos Viva La Diva e é guiada pelos arranjos de cordas característicos de Nuno Gonçalves, bem conhecidos dos The Gift e do álbum “Amália Hoje”. Música pop barroca de grande imponência orquestral e palavras de alento como quem fala para a nação. “Gosto de dar esperança às pessoas pela música e queria algo que refletisse essa esperança”, reconhece Nos álbuns dos irmãos Salvador e Luísa Sobral já se reconhecia um gosto pelo jazz, comprovado pela formação académica dos dois.

O tema a concurso na final é a confissão partilhada pela irmandade, traduzida numa canção em que “harmonia e a melodia que remetem um pouco para o cancioneiro americano e ao mesmo tempo para a bossa-nova”, comentou Salvador Sobral, o intérprete de “Amar Pelos Dois”. Nas redes sociais, a reação foi de entusiasmo e no YouTube são mais de 300 mil as visualizações. Um preto de cabeleira loura já é normal.

E uma cantora angolana vencedora do “The Voice Portugal” do ano passado interpretar um tema escrito em português por Rita Redshoes com o irmão também é possível no Festival da Canção. “Num momento de karaoke ouvi a Deolinda cantar e fiquei encantada com o timbre dela e com o seu sorriso. Quando tive este convite para compôr uma canção para o Festival, lembrei-me dessa noite e decidi desafiá-la”, conta Rita Redshoes. Pereira de apelido. Para Nuno Feist, músico, maestro português e compositor do tema cantado por Fernando Daniel (vencedor da quarta edição do The Voice), a identidade é o principal argumento na candidatura à final de Kiev já que Portugal não é um país que faça “canções da Adele ou pop sueco”. “Não nos corre nas veias, não vale a pena estarmos a imitar”, defende. Em “Poema a Dois”, procurou preservar “a nossa identidade”. O fado atravessa-se numa canção que é toda ela uma bandeira.

Tal como Márcia, Celina da Piedade é compositora e intérprete. “Primavera” pode ser o passaporte para a final internacional da Eurovisão na Ucrânia da concertinista dos Uxu Kalhus, já habituada aos palcos internacionais das digressões com Rodrigo Leão e o Cinema Ensemble. “Ter o argumento de compor para o Festival deu-nos o entusiasmo extra para criar uma música com a energia que há muito idealizávamos”, comentou sobre a canção coescrita com Alex Gaspar. Em tempos os Virgem Suta cantavam “Toma Conta Desta Tua Casa”.

Pois é isso que sucede em “Gente Bestial, interpretada por Jorge Benvida e composta por Nuno Figueiredo, ou seja coração e pulmão da banda que em oito anos editou três álbuns e tem presença regular no circuito. “Gente Bestial” segue o mapa astral de alusões “Eu pensei no Jorge desde o início. Tenho a pessoa mesmo ao meu lado e não conseguia conceber outra pessoa a cantar”, refere o compositor. “O que me move são sempre os novos desafios”, realça João Pedro Coimbra, líder do Mesa e músico com passado nos Bandemónio de Pedro Abrunhosa e nos Três Tristes Tigres. “Don’t Walk Away” foi escrita para Pedro Gonçalves, finalista da 3ª edição do The Voice Portugal, e cantor de apenas 19 anos. O que interessa é que as pessoas se identifiquem com o tema (...) Penso, no entanto, que na Eurovisão temos mais hipóteses de chegar mais longe com a língua inglesa”, assume. Lena D’Água nunca desapareceu da órbita pública mas é quase sempre lembrada pelo passado.

Por isso, uma canção como “Nunca me Fui Embora”, escrita por Pedro da Silva Martins dos Deolinda, reveste-se de simbolismo especial e é uma resposta à imagem de ascensão e queda a que normalmente é associada. “Ao fim de 40 anos de carreira, o festival estava em falta no meu currículo”, lembra. Quero escrever algo que seja credível e que seja pertinente hoje em dia”, adiciona o compositor.