Politica

Figura da Semana. Paulo Núncio: Um católico com queda para assuntos fiscais

Tem sangue aristocrático, estudou em escolas católicas, jogou rugby e especializou-se na área fiscal. Esta semana vimo-lo penosamente a responder aos deputados sobre as contradições na história dos 10 mil milhões de euros das offshores. 

Para quem teve uma educação católica, não é novidade que a mentira é um dos pecados com destaque nos 10 Mandamentos de Deus. Tendo andado pelo colégio Ave Maria e feito a universidade na Católica, Paulo de Faria Lynce Núncio sabe bem o significado da mentira. E foi o que fez nos últimos dias, apresentado duas ou três versões sobre o mesmo acontecimento. Chegou a ser confrangedor vê-lo na Assembleia da República completamente à defesa, parecendo esconder alguma coisa. Um homem perdido, que teve, contudo, a coragem de assumir a culpa política da falta da informação estatística dos 10 mil milhões que foram parar a offshores, sem terem o “carimbo” da Autoridade Tributária, apesar de terem, supostamente, sido declarados pelos bancos de onde voaram.

E tudo é mais estranho atendendo ao currículo do homem com sangue aristocrático que começou como estagiário nos Serviços Jurídicos da Comissão Europeia, em 1992, tornando-se mais tarde uma autoridade na área fiscal.

A história, para o comum dos mortais, é uma embrulhada perfeita. A notícia dos 10 mil milhões, quando ressuscitou em finais de fevereiro, insinuava que essa verba tinha saído ‘clandestinamente’ de Portugal e que ninguém sabia a sua proveniência. Depois, a história teve uma ligeira mudança de direção e o foco passou a ser o secretário de Estado das Finanças que esteve no cargo entre os anos 2011 e 2014, período em que houve a transferência do dinheiro para as offshores, argumentando-se que este não mandou tratar informaticamente as verbas em questão. Isto é: não quis que se soubesse que essa verba tinha saído do país durante o reinado da troika.

De um lado estão aqueles que veem uma grande moscambilha na história, insinuando que houve fuga ao fisco e que alguma coisa esconde o Secretário de Estado; do outro, estão aqueles que acreditam que a história não tem qualquer importância e que só surgiu para afastar o tema da Caixa Geral de Depósitos da agenda mediática. Por mim, acho é que se deve levar o assunto até às últimas consequências e apurar todas as responsabilidades - se houve ou não fuga aos impostos e que dinheiro foi esse que saiu do país. Afinal, por que razão o Secretário de Estado apresentou três versões distintas?

Mas que este tema não sirva para esconder o da CGD e, já agora, a razão dos ordenados dos administradores terem aumentado tanto nos últimos anos.