Sociedade

Viver com um psicopata. “Ameaçou-me com uma faca. Sabe o que fiz depois? Pedi-lhe desculpa de joelhos”

Helena não gosta de lembrar João como um psicopata, mas admite que a necessidade de controlar dele quase a destruiu. Durante mais de três anos não vestiu o que gostava, tinha de cumprimentar os amigos com aperto de mão e não podia comunicar por chat e email. Saiu de uma relação de “Amor Zero” com a certeza de nunca mais lá voltar

Quem a vê chegar, maquilhada e a seguir tendências, não vislumbra a miúda magrinha, de óculos grossos e aparelho nos dentes que ficava sempre a um canto no recreio da escola. Mas Helena já foi essa miúda, tal como João já foi o rapaz mais giro da escola.

Já sem óculos e aparelho, Helena despertou finalmente o interesse de João e os dois chegaram mesmo a namorar no final da adolescência. A universidade, o trabalho e a distância ditou o fim da relação que Helena caracteriza como “normal”, e só passados uns anos, já com trinta, os dois se voltam a reencontrar. “Engraçado pensar que mesmo com relações pelo meio e com o passar dos anos, sempre o lembrei como o homem da minha vida”, admite. Fácil adivinhar que assim que voltam a estar juntos, a paixão é avassaladora. “E era recíproco, tenho essa noção. Sei que ele gostava de mim. Não sabia era gostar.”

Helena vivia em Portugal e João na Suíça. Largou família, amigos e trabalho para ir viver com o homem dos seus sonhos, mesmo que a 2 mil quilómetros de distância os sinais que recebia já não fossem de confiança. “Tinha de lhe ligar dezenas de vezes por dia, explicar o que tinha vestido, dizer com quem tinha estado e com quem ia estar, tudo ao pormenor.” Agora, à distância, tem a noção de que devia ter interpretado esses sinais de outra forma mas, para alguém apaixonado, “era sinal de amor”. Mesmo quando daquela vez, pelo Skype, lhe perguntava se ela não tinha vergonha de deixar notar a cor do sutiã debaixo da t-shirt branca.

A implicação com a roupa e a maquilhagem foi o início deste jogo entre controlo e submissão, e mesmo quando ainda vivia em Portugal, com total liberdade para usar o que quisesse - mesmo que isso a obrigasse a mentir -, já não tinha coragem para o fazer. “Deixei de usar vestidos e saias, por exemplo”, conta, “acho que é prova do poder que ele tinha sobre mim.” Já na Suíça, além do cuidado extremo com o que vestia, Helena passou também a ter de trocar os dois beijinhos por um passou--bem sempre que cumprimentava um homem.

Amor-ódio Depressa a relação se transformou num dá-e-tira. “Tanto mostrava grandes gestos românticos como, de seguida, me olhava com ódio.” E nesta balança emocional, a parte negativa ganhava quase sempre. “O pior é que continuava a olhar para ele como o rapaz mais giro da escola, o homem da minha vida, quase como se ele estivesse num pedestal.” 

A voz baixa quando Helena conta o episódio que serve para resumir a relação de dependência que mantinha com João. Apesar de a agressão psicológica ser constante, a física só aconteceu uma vez. “Atirou--me para cima da cama e encostou-me uma faca ao pescoço”, conta. Mas o pior, no seu entender, vem não da ameaça, mas da sua reação. “Sabe o que fiz? Pedi-lhe desculpa de joelhos.”

Alienação João aproveitou o facto de Helena trabalhar a partir de casa para lhe fechar ainda mais o círculo de relações, negando-lhe até o uso das redes sociais que, para ela, serviam de ponte com Portugal. “Pensando bem, ele nunca me proibiu de nada, mas fazia-me sentir tão mal por estar simplesmente num chat a falar com amigos que deixei de o fazer”, acumulando na caixa de entrada dezenas de emails que começavam a mostrar alguma preocupação com a incógnita do que se passava à distância. Mesmo a viver “sob um medo constante”, Helena manteve-se na Suíça ainda durante uns meses. “Uma pessoa tem sempre tendência a achar que as coisas vão melhorar.” Mas nunca melhoraram. “Tenho a certeza de que ele me adorava, mas era um amor doentio porque tinha de estar sempre no controlo.”

Aproveitou uma das vindas a Portugal para uma consulta de rotina na médica de família. A oportunidade de falar com alguém alheio à situação deu-lhe coragem para contar tudo aquilo que até então tinha mantido em segredo. “Voltei para a Suíça medicada com um estimulante e, placebo ou não, senti que estava com outra força.” Essa força de que Helena fala traduziu-se no fim definitivo da relação. “A meio de uma das dezenas de discussões que tínhamos por dia, parei uns segundos e o que vi já não era o homem por quem tinha uma paixão de infância, era um homem que me olhava com ódio.” 

Depois de retirar essa capa de “homem espetacular” e perceber que ele era “apenas um homem que um dia ia ficar velho e careca como todos os outros”, encheu duas malas com o que conseguiu e voltou para Portugal. “A sensação de liberdade que me lembro de sentir no avião é inarrável.” 

Apesar de nunca ninguém duvidar da sua palavra, são ainda hoje muitos os queixos caídos à medida que Helena conta as histórias que viveu durante três anos e meio. “E há pouca gente que sabe tudo”, garante, “não por vergonha”, mas por medo. “É incrível mas, passado tanto tempo, ele ainda tem este poder sobre mim.” E é por isso que os nomes, os locais e as idades desta história são fictícios.