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A vida num caixote

Um aeroporto desativado em 2008 convertido num dos maiores centros de refugiados da Europa. Assim é Tempelhof, o lugar onde mais de 1200 pessoas, a maioria sírios, vão transformando o que deviam ser semanas em meses com a esperança de que um dia a vida deixe de ser assim, enfiada num caixote.

Qasam arranja bicicletas, ferro velho que vem dar a Tempelhof e que depois de muitas voltas nas suas mãos se há de juntar àquelas que vemos alinhadas junto a uma das entradas do centro de refugiados de Tempelhof, que só sabendo onde fica se consegue encontrar no que é o gigantesco espaço de um aeroporto desativado, o primeiro aeroporto da Alemanha, às portas do coração de Berlim. Como os milhares que já por aqui passaram também ele veio aqui dar quando aos 30 anos teve que deixar a Síria numa viagem que começou na sua Deir Ezzor, há mais de dois anos tomada pelo Estado Islâmico aos rebeldes e onde resistem ainda em cerco as forças de Bashar al-Assad, e que só terminou no coração da Europa. Qasam chegou quase há dois anos e arranja bicicletas porque ainda não encontrou outra coisa para fazer. E todos os dias volta a Tempelhof porque aqui não tem outra família para lá desta. 

Sobre o que ficou para trás não há de dizer muito, ele que já não sabe o que fala neste alemão com árabe que se vai tornando a língua dos refugiados que à Síria e ao Iraque não hão de voltar tão cedo, se voltarem. Diz só que gostava de se casar, de poder pedir uma mulher em casamento mas que não pode. Que perdeu tudo e não há mais que dizer sobre a vida que ficou na Síria e a nova que há que construir de alguma maneira aqui na Europa, não sabe como. Mas a começar que seja por aqui, a arranjar bicicletas que hão de servir a alguém nesta parte da cidade que um ano depois do fecho do aeroporto, em 2008, os berlinenses decidiram em referendo transformar em parque e que a crise de refugiados que chegou à Europa como se previa que havia de chegar um dia obrigou a transformar num dos maiores centros de acolhimento temporário de refugiados da Europa. Mas o temporário é relativo, porque o que é suposto serem dias ou semanas transforma-se em meses, às vezes mais, para os refugiados que chegam aqui, como aconteceu com Qasam. “O subsídio que recebemos do centro de emprego é de 400 euros, um apartamento em Berlim não custa menos do que 700”, explica-nos entre convites para passeios de bicicleta. 

Mas a noite já caiu, chega a hora de ir buscar o jantar à cantina montada numa das portas de acesso à zona do dormitório, pretexto a ajudar-nos a passar pelos seguranças que guardam todas as portas e que não nos tiram os olhos de cima. Dormitório ou o que for possível chamar a este aglomerado de caixotes que hão de ter pouco mais de 20 metros quadrados para seis camas para seis pessoas mas às vezes mais. Crianças em brincadeiras pelos corredores como se o mundo fosse isto, seis camas em beliche, um teto e três refeições por dia nesta cantina, agora o jantar com cheiro a cozinha do Médio Oriente que Qasam e os seus amigos insistem em partilhar connosco. E quem se vê neste lugar não vê aqui um aeroporto, o que foi a primeira casa da Lufthansa, construído em 1927 e ampliado pelo regime nazi na década seguinte, pouco antes da guerra, só em 2008 desativado em definitivo para que a pista desse lugar a um parque. Sobrou um gigantesco edifício vazio que foi sendo transformado em escritório de várias organizações e empresas, para há dois anos o espaço que continuava vazio ter sido convertido em abrigo temporário para aqueles que chegavam à cidade prometida, sonho possível para quem perdeu tudo, só não perdeu a vida. 

Em 2015, o ano em que com as notícias de barcos naufragados, centenas e centenas, milhares, dezenas de milhares de mortos no Mediterrâneo, a Europa acordou de uma vez para o que há anos se passava às suas portas mas parecia nunca ter visto, as autoridades alemãs receberam 890 mil pedidos de asilo de refugiados, aos quais se juntaram 600 mil no ano seguinte, com a Síria como primeiro país de origem. E à pergunta sobre de onde vêm todos estes homens e rapazes que ouvimos falar árabe no café social contíguo ao centro de refugiados de Tempelhof, um projeto da THFwelcome, organização não-governamental que presta apoio aos refugiados que chegam a Tempelhof, todos respondem o mesmo. Síria, a querida e destruída Síria de todos os que já morreram, numa guerra que não termina e pelo caminho, tentando chegar aqui, aqui Europa, a salvo da morte mas não do que vem depois. O desemprego, a dificuldade de reconstruir uma vida quando a vida é a única coisa que fica. Entre 2000 e 2014 a Organização Internacional das Migrações estimava que tivessem morrido 20 mil pessoas no Mediterrâneo a tentar chegar à Europa, mas 2015 foi o ano em que o número de refugiados chegou aos níveis mais elevados desde a Segunda Guerra Mundial, com o total de refugiados e deslocados a ultrapassar os 15 milhões no mundo, um aumento de 45% face aos três anos anteriores devido sobretudo à sangrenta guerra síria, com a Alemanha a encabeçar a lista dos países que mais pedidos de asilo recebiam em todo o mundo. No final desse ano, ainda segundo a Organização Internacional das Migrações a União Europeia tinha recebido ao todo 1,2 milhões de pedidos, mais do dobro dos que tinham sido registados no ano anterior. Há mais de meio ano as autoridades de Berlim falaram na intenção de encerrar o centro de abrigo de Tempelhof algures este ano, redistribuindo os refugiados por outros dois locais nas imediações do histórico aeroporto aeroporto berlinense e o tempo de permanência nos hangares do aeroporto a ficar limitado a um máximo de 72 horas. Mas a verdade é que depois disso já mais de 2 mil refugiados chegaram a Tempelhof.  

Qasam com a sua história e o que deixou para trás e que não conta foi só mais um sírio a chegar a Berlim, como foi Mohamad. Foi neste espaço da THF, entre cafés e cigarros fumados à porta, a mesma onde fica o parque das bicicletas que já consertou e as que há de ressuscitar, que Qasam conheceu Mohamad, que fala alemão com árabe com inglês, e que nessa nova língua possível nos conta como chegou aqui. Deir Ezzor, também Deir Ezzor, cidade arriscada a tornar-se no novo bastião do Estado Islâmico na Síria à medida que os jihadistas vão sendo forçados a deixar Raqqa. Deir Ezzor para a Turquia, por terra, para aí deixar a família, que entretanto foi instalar-se em Izmir, para vir sozinho para Berlim à procura de um tio emigrado há mais de 20 anos. Aqui foi fazendo vida, ao valor do subsídio de 400 euros que recebe do estado junta os simbólicos 80 que recebe pelo trabalho quase voluntário que faz duas vezes por semana no THF Café, que emprega refugiados que procuram aprender alemão ao mesmo tempo que organiza atividades que vão das noites de hip hop sírio a aulas de costura para as mulheres que vivem no centro. Mohamad, que chegou h+a pouco mais de um ano da Turquia, nunca viveu aqui. “Sem família é mais fácil conseguir encontrar um lugar para morar”, diz, explicando que divide casa não muito longe do aeroporto com outro refugiado sírio. No café trabalha duas vezes por semana, do resto do tempo precisa para estudar. Alemão aprende aqui e o resto há de vir, que aos 21 anos os sonhos ainda são grandes e Mohamad tem muitos. “Quero ser médico”, diz-nos, “estou a tratar de entrar na universidade.” E aqui os sonhos são tudo.