Deslumbramentos

Bárbara Guimarães, a vítima condenada

Os discursos contra a violência doméstica no geral, vindos da elite política e cultural, costumam ser corretos. O problema é que quando a violência doméstica lhes chega a casa, a dita elite política e cultural fica extremamente baralhada. 

A primeira sessão do julgamento da acusação de Manuel Maria Carrilho por violência doméstica ficou marcada pela contemporização da juíza Ferrer com Carrilho e menorização da queixosa. 

Por muito que Manuel Maria Carrilho já tenha proferido os mais vis ataques pessoais contra a ex-mulher, pais, padrasto, a elite finge ignorar. O que estamos a assistir no caso Bárbara-Carrilho é uma repetição do provérbio «entre marido e mulher não metas a colher». O manto de silêncio e cumplicidade mete nojo a quem tenha noções básicas de lei e moral.

O machismo não é um exclusivo dos homens, evidentemente. Existem mulheres machistas e estações de televisão machistas. A SIC condenou Bárbara Guimarães ao ostracismo, reproduzindo o padrão que leva muitas mulheres a não fazer queixa quando são vítimas de violência doméstica - o medo de represálias não só na família como no local de trabalho e na sociedade. Ao excluir Bárbara da apresentação dos Globos de  Ouro para, segundo Gabriela Sobral, «proteger a Bárbara e o canal», é este modelo - contra o qual provavelmente a SIC já se insurgiu e fez centenas de reportagens - que está a reproduzir.  Ao negar-lhe trabalho, a SIC está a condenar a apresentadora por ter feito queixa e por estar a ser vítima de um ex-marido que prossegue, na praça pública, com a violência psicológica. 

Recentemente, Júlia Pinheiro, numa sessão de julgamento, veio defender Bárbara Guimarães. Infelizmente, a sua defesa não ajudou a que mais mulheres vítimas de violência ganhem coragem para a denunciar: «Hoje, a Bárbara será, provavelmente, a última hipótese na escolha de apresentadores. A vida profissional da Bárbara está maculada por este processo. Atrevo-me a dizer que nunca recuperará». Se na SIC não existe vida profissional depois de uma queixa de violência doméstica, o que se passará em outros locais de trabalho? A SIC  condenou Bárbara. É por este tipo de condenações e ostracismo que as mulheres temem dirigir-se à Polícia.