Opiniao

A sombra perdida de Peter Pan

Peço desculpa, mas não me perguntem quais deles eram batsmen ou bowlers. Ou quais concretizaram mais overs ou eliminaram mais wickets adversários. Começo a lembrar-me daquela tarde de canícula indiana e o suor escorre-me pela espinha graças ao terror de tanta incompreensão.

Há desportos estranhos com nomes estranhos e, para mim, críquete é um deles, bem como o cróquete ou o basebol. Aliás, cróquete é, de facto, algo de intragável, se me faço entender, assim uma espécie de polo a pé, com perdão de mais um trocadilho de gosto tão duvidoso como inevitável. Mas é de críquete que quero falar. 

Uma tarde de calor extremo em Bikaner, onde existe o inquietante Karni Mata, ou templo dos ratos, sentei-me à beira de um grupo de indianos que se deixava entusiasmar por um igualmente escaldante Índia-Paquistão. Bebi cerveja e não percebi nada do que eles me iam explicando sobre as regras. Nem fiz grande esforço. Estava demasiado calor e o cérebro ameaçava derreter.

Foram obviamente os ingleses que levaram o críquete para a Índia e para o Paquistão. Como levaram o rugby para a Austrália e para a Nova Zelândia. A colonização britânica foi uma colonização de elites. As elites jogavam críquete e polo e rugby. Futebol era do povo. Por isso, rara é a antiga colónia do velho império britânico, onde o sol nunca se punha, na qual futebol seja rei, com licença da rainha.

Agora vou falar de pouco mais de meia dúzia de escritores de língua inglesa, a começar por Arthur Conan Doyle, o homem que inventou Sherlock Holmes e depois viveu atormentado pela existência do detetive do infalível método dedutivo. Doyle era escocês e tinha fama de ser um exímio jogador de críquete. E, com vários dos seus colegas de literatura, muito mau no domínio do árabe. Estavam convencidos de que Allah Akbar queria dizer «Que o Céu nos Ajude». Sabemos que não é. Significa «Alá é Grande». E seria ponto final se tal erro grotesco de tradução não tivesse dado lugar ao aparecimento de uma equipa chamada Allahakbarries. Pretendiam com isso os insignes intelectuais pedir aos céus que ajudassem as suas exibições no relvado oval. Desperdiçaram uma boa oportunidade para darem lugar a um muito conveniente silêncio. Mas, enfim.

Os Allahakbarries eram tão fortes na escrita como eram fracos no críquete. Exceção feita, como já vimos, a Arthur Conan Doyle. E também laboravam num maldito trocadilho, algo que em Inglaterra vive paredes meias entre o ridículo e o sublime. Eu explico. A ideia da criação da equipa saiu da prodigiosa imaginação de James Matthew Barrie, o homem que escreveu Peter Pan, or The Boy Who Wouldn’t Grow Up. Como diria Eric Idle, dos Monty Python, naquele sketch irritante: «Barrie... Allahakbarries... you know what I mean?». 

Corria o ano de 1887. Todos os membros dos Allahakbarries já andavam nos trintas, ou seja, com idade para terem juízo. Isso não impediu Barrie de escrever um resumo de 40 páginas sobre a vida da sua literária equipa. Sobre esse manuscrito, o jornalista Kevin Telfer viria a publicar Peter Pan’s First XI. Afinal, como no futebol, o críquete também se joga com 11 para cada lado.

Ora, o 11 dos Allahkbarries era de arromba. Contava com Rudyard Kipling, o escritor de If e criador de Mowgli, o rapaz-lobo de O Livro da Selva. E com outro dos grandes humoristas da Grande Ilha, P.G. Wodehouse, pai de Jeeves, o criado que era pau para toda a obra. Por falar em obra: havia também H.G. Wells, autor de clássicos da ficção científica como A Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo ou A Ilha do Dr. Moreau.

Peço desculpa, mas não me perguntem quais deles eram batsmen ou bowlers. Ou quais concretizaram mais overs ou eliminaram mais wickets adversários. Começo a lembrar-me daquela tarde de canícula indiana e o suor escorre-me pela espinha graças ao terror de tanta incompreensão. O que não me impede de avançar pelos labirintos deste texto que tem o críquete como tema. «Descaramento divino», diria o Eça n’Os Maias.

Continuo, portanto, na constituição da equipa. Porque ainda havia mais gente de robustíssimo talento, se o Eça não leva a mal. Repare-se em G.K. Chesterton, O Príncipe do Paradoxo, que escreveu O Homem Que Era Quinta-Feira e inventou o Padre Brown. Ou em Alan Alexander Milne, que os mais pequeninos conhecem por via da personagem do urso Winnie-the-Pooh. E ainda em Ernest William Hornung, por mero acaso casado com Constance, irmã de Conan Doyle, pai de Raffles, o ladrão-cavalheiro. Sem esquecer Alfred Edward Mason, autor de As Quatro Penas Brancas, transformado em filme por Shekhar Kapur, também mestre do policial graças ao seu detetive francês chamado inspetor Hannaud. 

Toda esta gente finíssima é mais do que razão para ir à procura do livro de Telfer. Mesmo para quem não gosta ou não percebe de críquete, é uma espécie de viagem à Terra do Nunca. Ou encontrar a sombra perdida de Peter Pan, o rapaz-que-não-queria-crescer.

afonso.melo@newsplex.pt