«Vizinha procura vizinho para serem felizes para sempre»

Esta inscrição, numa caixa de eletricidade, em Lisboa, na Av. Visconde Valmor (que o meu amigo Miguel também fotografou noutro ponto da cidade e me enviou), chamou-me a atenção, fazendo-me sorrir. É curioso que vizinhos se procurem para serem felizes para sempre. Quase parece um conto de fadas, uma mini-história, só com o início e…

Esta inscrição, numa caixa de eletricidade, em Lisboa, na Av. Visconde Valmor (que o meu amigo Miguel também fotografou noutro ponto da cidade e me enviou), chamou-me a atenção, fazendo-me sorrir. É curioso que vizinhos se procurem para serem felizes para sempre. Quase parece um conto de fadas, uma mini-história, só com o início e o fim, podendo cada um de nós imaginar a história que falta no meio, sabendo, como disse Henry Miller, ser «absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por mais limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidimos tratar», porque nunca «ninguém avança pela vida em linha reta». 

Também é curioso que sejam vizinhos. Normalmente, as histórias de vizinhança podem ser felizes, infelizes ou indiferentes. No fundo, como qualquer outra história… Em prédios muito grandes, os vizinhos quase nem se conhecem. Em prédios mais pequenos ou em bairros familiares, todos se conhecem e conhecem as histórias uns dos outros. Mesmo os mais íntimos pormenores são de todos conhecidos. O livro de Bruno Vieira do Amaral, As Primeiras Coisas, relata as histórias dos habitantes do Bairro Amélia, onde todos se conhecem e sabem bem as qualidades e defeitos de cada um; um local comum onde cabe toda a humanidade e «a Humanidade inteira arde». Como refere este autor: «eu entendo a vida de bairro como uma espécie de aldeia urbana ou de família alargada em que as relações, para o bem e para o mal, são de uma grande proximidade. O lado positivo é a entreajuda e solidariedade que essa proximidade traz. O lado negativo, que torna os bairros mais interessantes, é o excesso de proximidade. Por vezes, é difícil separar aquilo que é estritamente pessoal e íntimo do que é comunitário e social. As nossas vidas acabam por ser também as vidas dos nossos vizinhos e as vidas dos nossos vizinhos também acabam por ser um pouco as nossas.».

Mas, pelo contrário, também há locais onde as pessoas nem sequer fazem ideia de quem vive a seu lado ou no andar de baixo. Quanto muito, conhecem os passos do vizinho de cima ou o choro do bebé da casa ao lado ou, por vezes, o ladrar do cão do vizinho de baixo. Mas as pessoas, essas, acabamos por nem as conhecer…

E, enquanto vivemos a vida, centrados nos nossos problemas, acabamos por nem nos lembrarmos de que há quem não tenha o mais básico – comida ou casa. E há tanta gente sem casa!

 

Maria Eugénia Leitão

Escrito em parceria com o blogue da Letrário, Translation Services