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Geringonça. Costa quer renovar acordo, mas BE e PCP não se comprometem

António Costa quer manter geringonça, mesmo que consiga atingir a maioria absoluta. Bloquistas e PCP preferem não assumir nenhum compromisso

A mais de seis meses de cumprir metade da legislatura, António Costa quis deixar claro que quer renovar o acordo com o Bloco de Esquerda, o PCP e o PEV se vencer as próximas eleições legislativas. Com ou sem maioria absoluta.

O primeiro-ministro e líder socialista, em entrevista à Rádio Renascença, garantiu que a geringonça foi uma “boa solução” e, se depender do PS, é para continuar. “Se, no final da legislatura, houver eleições e houver maioria absoluta, da minha parte entendo que, havendo disponibilidade do Bloco de Esquerda, do PCP e do PEV para renovarem este acordo, seria útil que isso acontecesse”.

A declaração é feita numa altura em que os partidos à esquerda do PS contestam a solução do governo para o Novo Banco. BE e PCP preferem, para já, não se comprometer com uma nova aliança. A direcção do Bloco de Esquerda optou por não comentar o desafio lançado por António Costa. O PCP, questionado pelo i sobre se seria “útil” renovar o acordo, disse que “são conhecidas as muitas e decisivas matérias que nos distinguem e opõem às opções programáticas do PS, como aliás, factos recentes comprovam”. Uma referência à decisão do governo de avançar com a venda do Novo Banco contra a posição dos comunistas, que querem a nacionalização do ex-BES.

Jerónimo de Sousa já tinha garantido, em entrevista ao i, em novembro de 2016, que “nestes moldes, é muito difícil” o acordo repetir-se em próximas legislaturas. O secretário-geral do PCP explicou que “houve uma conjuntura concreta” que permitiu a existência de um acordo com os socialistas, porque a alternativa seria “a continuidade do governo PSD/CDS”.

Em resposta ao i, o PCP insiste que “a questão decisiva que está colocada ao país para encontrar resposta sólida e coerente aos problemas nacionais é inseparável da construção de uma política alternativa, patriótica e de esquerda, que rompa com a submissão à União Europeia e aos interesses do capital monopolista”.

Os bloquistas não comentaram a entrevista do primeiro-ministro. João Teixeira Lopes defende, a título pessoal, que um novo acordo será “mais difícil” de conseguir do que aquele que permitiu a existência do atual governo socialista (ver entrevista ao lado). Em declarações ao i, o dirigente histórico do BE defende que “as condições de entendimento numa nova legislatura terão de ser mais exigentes”.

BE e PCP no governo?

Ainda mais longe parece a hipótese de o Bloco e o PCP virem a integrar um governo liderado pelos socialistas. António Costa defendeu que este modelo tem funcionado bem e em “equipa que ganha não se mexe”. O bloquista João Teixeira Lopes também encara com dificuldade a possibilidade de a esquerda dar esse passo. “Parece-me muito claro que o Bloco só entrará num governo que seja capaz de enfrentar o status quo europeu. Isso parece-me evidente. Se não existir, de facto, uma outra atitude do PS perante a Europa é impossível o Bloco fazer parte de um governo do PS no futuro”.

Catarina Martins já tinha, na entrevista que deu ao i, na última sexta-feira, afastado essa possibilidade enquanto o Bloco não conseguir ter mais peso. “Um partido que tem 10% não vai para o governo, não vamos enfeitar um Conselho de Ministros. A relação de forças não permite decisões executivas mais efectivas”.

“No final da legislatura, quando houver eleições, mesmo com maioria absoluta, havendo disponibilidade do BE, do PCP e do PEV para renovar este acordo, seria útil que isso acontecesse”