Internacional

Síria. A guerra da impunidade

Podem ter morrido mais de cem pessoas no pior ataque com agentes químicos desde que o regime sírio matou mais de 1400 em 2013. Não se esperam sanções contra Damasco.

O relato do que aconteceu em Khan Sheikhoun na terça-feira é tudo menos raro na última encarnação da guerra civil síria: um primeiro ataque aéreo contra uma zona aparentemente residencial, seguido, algumas horas depois, por um segundo bombardeamento que atingiu uma das pequenas clínicas que tratavam os feridos do primeiro embate.

Há muito que o regime de Bashar al-Assad pratica este tipo de ataques em territórios rebeldes, como uma estratégia de desmoralização contínua, que, conjugada com os cercos mais ou menos apertados sobre os bastiões da oposição armada, resulta não raras vezes em capitulação dos grupos adversários. Por fome, sede, ferimento ou cansaço.

Mas o ataque de terça teve um ingrediente secreto, proibido e altamente mortífero. Um agente nervoso, provavelmente gás sarin, o mesmo químico usado em 2013 nos ataques contra os subúrbios de Damasco que mataram mais de 1400 pessoas, dezenas delas crianças, quase precipitaram a entrada dos Estados Unidos na guerra e terminaram com o aparente desarmar químico do regime sírio. 

As estimativas mais conservadoras para o bombardeamento de Sheikhoun dizem que mais de 70 pessoas morreram, e que mais de metade das vítimas são mulheres e crianças. Mas esta quarta-feira, o embaixador francês para as Nações Unidas, falando no início da reunião de emergência convocada no Conselho de Segurança, indicou que existem já mais de cem mortos.

Jogo de culpas

França, Reino Unido e Estados Unidos condenaram o ataque e querem uma investigação no terreno, como, aliás, António Guterres, secretário-geral da ONU, recusando-se por agora a entrar no habitual jogo de culpas do conflito sírio. Esse arrancou horas depois de as bombas caírem em Sheikhoun, ou a “Terça-Feira Negra”, como lhe vão chamando já os meios da oposição armada.

O guião do jogo de culpas é quase sempre o mesmo e o desta quarta-feira não se modificou muito: os países ocidentais apontam o dedo da mais recente atrocidade ao regime de Assad, que, por sua vez, atira as culpas para os rebeldes e nega qualquer envolvimento, consciente de que Rússia e – em muitos casos – China podem vetar no Conselho de Segurança qualquer esquema de sanções que afete o equilíbrio de poderes na guerra, cada vez mais a seu favor.

Moscovo tentou esta quarta uma explicação ousada, confrontado com a evidência de que o ataque de terça ocorreu por bombardeamento e sabendo que as únicas aeronaves na guerra são suas e do regime. O bombardeamento, disse o Kremlin, foi de facto realizado por aviões de Damasco, mas as toxinas foram libertadas de um armazém de armas rebelde atingido. 

Ciclo vicioso

No melhor dos casos, o álibi russo é encarado com ceticismo – especialistas em armamento notavam esta quarta-feira que o gás sarin não pode libertar-se com uma explosão. Sheikhoun, para além disso, faz parte de Idlib, o último grande bastião da oposição, no noroeste do país.

A região rural recebeu centenas dos combatentes radicais derrotados em Alepo e é bombardeada praticamente todos os dias pela aviação de Assad. O maior hospital de Sheikhoun, aliás, foi atingido por bombas governamentais no fim de semana, antes do ataque químico.

Os indícios apontam todos para o governo sírio, que se defende dizendo que o seu arsenal químico abandonou o país por imposição dos Estados Unidos como condição para não bombardear posições do regime depois do primeiro grande ataque. Mas há muito que se suspeita que o governo escondeu parte do seu arsenal, ou que, então, o reconstruiu. 

Responsabilidade

Por motivos políticos e forenses, não é fácil atribuir com toda a certeza a responsabilidade por um ataque químico. A ONU atribui numerosos ataques tóxicos a grupos rebeldes, regime e organizações terroristas, sobretudo com cloro, químico comum que pode tornar-se numa arma asfixiante.

Em casos mais graves, a resposta tende a ser mais conservadora. A equipa das Nações Unidas que investigou os ataques de 2013 contra os bairros de Ghuta concluiu, por exemplo, que o arsenal utilizado pertencia ao regime e fora disparado utilizando métodos de segurança sofisticados – e, lia-se nas entrelinhas, inacessíveis aos rebeldes.

O relatório, porém, não atribui culpa certa. Poucos esperam que isso mude agora.