Opiniao

De costas para o Bloco Central

Quando António Costa era presidente da Câmara de Lisboa e Rui Rio da do Porto, sendo António José Seguro líder do PS e Pedro Passos Coelho do PSD, os encontros entre ambos os então autarcas eram notícia pelos motivos agendados e, para além desses, pela intenção de colocar na agenda política um eventual Bloco Central, no qual ambos se posicionavam como únicos protagonistas capazes. Costa e Rio entendiam-se bem.

Costa era o líder que se seguiria a Seguro no PS e Rio, naturalmente, um dos inevitáveis nomes para a sucessão de Passos.

No entretanto, Costa sucedeu a Seguro no PS após as europeias que este ganhou por poucochinho e a Passos na liderança do Governo após as legislativas que este também ganhou por poucochinho e depois de engendrar a solução de sustentabilidade política que tanto surpreendeu tão boa gente como o afetuoso Presidente da República que veio a ser eleito sucessor de Cavaco Silva.

E está para durar.

Nesta semana, em que Rio escreveu impiedoso artigo (no DN) para o Governo de Passos e do seu PSD e do CDS, Costa veio assegurar aos microfones da RR que mais cedo cairá o Carmo e a Trindade que a sua ‘geringonça’. Isto porque, como ousou assumir, «mesmo que o PS venha a ter maioria absoluta» em próximas eleições, por ele, voltará a haver acordo de governo com o BE e com o PCP.

A experiência, segundo Costa, não poderia estar a funcionar melhor.

De certa maneira, tem razão.

A verdade é que, com o BE e o PCP comprometidos, não há contestação que se veja nem jamais em tempo algum se assistiu a tamanha paz social.

A economia não acelera, a carga fiscal não é aliviada, os salários e pensões são o que são, as carreiras da Função Pública continuam congeladas, o apoio às empresas nunca foi tão secundarizado, mas os indicadores - maxime os do défice - servem para fingir de conta que tudo está bem e bem melhor e a caravana vai passando sem que ninguém ladre. Ou quem ladra, ladra baixinho.

Greves e manifestações nem vê-las. Se as há, e quando as há, não têm impacto de maior, nem adesão, nem preocupação para o Governo - como a dos trabalhadores da administração local que, por ocasião do Dia da Juventude, não havendo tolerância de ponto, tiveram o topete de mandar pré-aviso a dar conta de que os funcionários até aos 35 anos (!!!) fariam greve nesse dia para poderem participar nas respetivas celebrações. De caminho, no pré-aviso, lá vinham as reivindicações por melhores salários e condições de trabalho... a costumeira cartilha. Ninguém deu por nada.

Ainda que nem por isso bom candidato (os resultados eleitorais - quer partidários, quer autárquicos e legislativos - testemunham-no), Costa é um brilhante gestor de poder. Uma vez lá, nem o diabo se atreve a tentar apeá-lo.

Com uns lugarzitos de aparelho de Estado cedidos aos bloquistas e não se imiscuindo nos bastiões autárquicos de que o PCP tanto precisa, Costa lá os vai levando pela certa.

Uns e outros vão engolindo os sapos que têm de engolir a troco de manter a direita afastada do poder, com a ilusão de o poderem influenciar, por pouco que seja, e desde que assegurados os seus pragmáticos interesses - clientelares (para o BE), do coletivo partidário (para os comunistas).

O que Costa veio agora dizer é que, por ele, não há Bloco Central com o PSD seja quem for o seu líder. 

A solução de governo de Costa é a que está. Que, com muito poucas ou quase nenhumas contrapartidas, lhe permite seguir seu caminho em sossego e paz social. Com a vantagem de ter em Belém um Presidente convertido e ver a Europa (sempre pronta a valorizar quem politicamente inepto ou impopular nos países do Sul) passar certidão de competência ao seu fragilizado ministro das Finanças. 

António Costa confirma-se como taticista e gestor político de excelência. E a ‘geringonça’ é o seu melhor instrumento.