Cultura

De ouvir a sentir as mornas da juventude

A cantora cabo-verdiana Tété Alhinho recorreu ao sistema de crowdfunding para poder financiar a gravação de um disco de clássicos

Há muito que Tété Alhino não gravava um longa-duração em nome próprio e para dar forma a Mornas ao Piano escolheu um método utilizado com frequência nos últimos anos. 

Voz com historial a solo, com os Tubarões e os Simentera, acompanhada da filha Sara ou do guitarrista Mário Lúcio, voltou atrás ao «colo da música de Cabo Verde», como lhe chamou. para dar um passo em frente. O álbum «já estava pensado há vários anos» mas «ficou na gaveta». Durante esse hiato, nunca se remeteu ao silêncio. Gravou um EP, participou no Festival Sete Sóis Sete Luas e esteve em Marselha. «Demorou a sair porque quisemos fazê-lo com calma», refere.

O processo de feitura iniciou-se com uma campanha de angariação de fundos através do sistema de crowdfunding que permite a todos interessados contribuir monetariamente para desencadear a gravação. «O financiamento coletivo», diz, «foi a forma mais fácil» de iniciar o processo e «a melhor maneira de começarmos», assegura, entre elogios à promotora Mónica Jardim, impulsionadora e cúmplice de Mornas ao Piano. «Recebi apoio de muita gente de fora. Em Cabo Verde, esta plataforma ainda não estava muito divulgada. Agora as pessoas já conhecem melhor», explica.

Seis mil e quinhentos euros serviram de «voto de confiança» para gravar as canções de uma época particular. «Estes temas foram gravados pelo Bana, o cantor da minha juventude. Sempre o ouvi e sempre gostei de gravar canções de outras pessoas com significado para mim. Gosto de revisitar e mostrar a minha visão da música», reconhece Tété Alhinho. A interpretação é fiel. As estruturas «mantiveram-se», especifica. «São é tocadas por músicos atuais. Cada pianista definiu a forma de soar de cada tema», ilustra.

Tété Alhinho concorda que trata-se de um exercício de apropriação.«De boa apropriação», adiciona. «A pessoa de ouvir as canções passa a senti-las. A relação estreita-se. Aquilo que elas despertaram, passa a manifestar-se». E o que era particular e identitário, passa a ser partilhado e exposto a novas leituras. 

Agora, as canções de Mornas ao Piano estão prontas para embarcar e serem cantadas aos ouvidos do mundo. Quiçá daqueles que não compreendem uma palavra dita mas compreendem a emoção do que está a ser cantado. «Quero partilhar estas canções com o mundo», assume com clareza. «Hoje em dia não é difícil. As plataformas permitem comunicar com facilidade», reconhece. 

A primeira jornada já tem dia e hora e está marcada para a próxima quinta-feira, dia 13, no B.Leza. O álbum já se encontra à venda e a compra nas lojas FNAC dá direito a um bilhete para a noite de apresentação. Tété Alhinho não esconde que se trata de «um momento de partilha com a comunidade». A cabo-verdiana e não só já que nos últimos anos se assistiu a um processo de reavaliação da música dos PALOP. S«É verdade. Estive na Associação Caboverdeana (restaurante) e vi uma sala inteira cheia de portugueses. A comer cachupa e a ouvir música de Cabo Verde», relata.

Sempre houve músicos cabo-verdianos com um lugar próprio na música portuguesa, de Cesária Évora, a Bana, Tito Paris ou Dany Silva mas neste processo de redescoberta por novas gerações pós-raciais, Tété Alhinho não esquece «os músicos que têm contribuído através de edições, eventos ou espaços» e nem omite o facto de haver «muito mais gente a querer aprender a dançar ritmos africanos». 

Razões para esta aproximação entre culturas e povos? Há um sentimento comum seja com a morna ou o fado», remata.