Desporto

João Sousa: ‘Às vezes nem sei em que lugar estou no ranking’

De passagem por Portugal para representar a seleção na Taça Davis, João Sousa fez uma análise da época e revelou os seus próximos objetivos. Aos 28 anos, nunca pensou no final de carreira.

Na Taça Davis [até 9 de abril no CIF] o fator casa pode ser determinante para a subida ao grupo mundial?
Penso que sim. É óbvio que jogar em casa é sempre muito melhor do que jogar fora, porque o apoio do público é fundamental nestas ocasiões, ainda para mais numa Taça Davis em que o ambiente é um pouco diferente daquilo a que estamos habituados. Sem dúvida que pode ser decisivo numa eliminatória tão importante como esta.

Na seleção podemos falar numa armada lusa ou apenas de navios solitários?

Há uma armada lusa. Cada ponto é importante independentemente de serem singulares ou pares. Nós tentamos sempre vencer cada encontro que disputamos para ajudar Portugal a ganhar a eliminatória.

Os objetivos desta época estão a ser cumpridos?

Sim. Sinceramente dou mais importância ao nível de jogo e a verdade é que tenho vindo a jogar a um bom nível. Quero continuar a levar o meu ténis ao mais alto nível, ter vitórias frente a jogadores melhor posicionados no ranking do que eu. É nessa base de objetivos que nós trabalhamos. Objetivos de ranking não tenho, mas é importante que sejam realistas. 

Antes do Estoril Open vai jogar dois torneios [Masters1000 de Monte Carlo e ATP 500 de Barcelona]. Quando joga em Espanha sente que está a jogar em casa?

É diferente, mas é óbvio que Barcelona também será uma semana especial para mim. É quase como jogar em casa. São duas semanas muito especiais. 

Quando não está a jogar contra um tenista espanhol, sente que o público o apoia?

Não, o público não. Mas eu tenho muitos amigos e familiares lá e isso é fundamental.

No Estoril Open ter mais apoio equivale a mais pressão?

Não, eu já tenho alguma experiência de circuito. Se calhar, há alguns anos sentia essa pressão extra, mas hoje em dia já não é assim. Tento passar esse apoio do público para uma motivação extra para lograr bons resultados. 

Com a lista de inscritos já apresentada  [no Estoril Open], vai ser difícil?

Sim, tem um lote de jogadores muito bom este ano. Jogadores que gostam de terra batida, que já jogaram em Portugal, que  conhecem as condições e gostam de jogar cá. Vai ser difícil sem dúvida, mas uma edição muito interessante de se ver. A organização tem feito um excelente trabalho e um grande esforço para que este torneio possa ser um dos melhores do mundo. Eu acredito que vai ser uma edição muito bonita.

Está em 37º no ranking mundial. O top-10 é uma ambição ou uma ‘miragem’?

Sinceramente, não penso nisso. Sou um jogador que não pensa muito nos rankings. Penso mais no nível de jogo exibido e foco-me no trabalho. Vamos ver.

As oscilações no ranking não afetam?

Não, não. Nem olho muito para o ranking. Por vezes até me perguntam ‘em que posição estás esta semana?’ e eu digo ‘nem sei’. Desde que consiga entrar e jogar os torneios mais importantes do mundo, que é o meu objetivo todos os anos, estou bem. Poder jogar já há alguns anos na elite do ténis mundial é um orgulho.

Um tenista português que queira ser profissional tem de emigrar?

Não, hoje em dia já não é assim. Existem condições para que um jogador se possa tornar profissional de ténis em Portugal. Infelizmente, quando tinha 15 anos, tanto eu como a minha família achámos que Portugal não reunia as condições para eu tentar ser profissional de ténis. Por esse motivo emigrei para Barcelona. Hoje em dia, já existem muitos jogadores a quererem ser profissionais de ténis, coisa que não acontecia na minha época. Acredito que vamos ter um futuro brilhante de jogadores portugueses.

O que mudou em 13 anos?

As infraestruturas, mais conhecimento e mais jogadores.

Fez 28 anos há cerca de uma semana. Já pensa no fim da carreira? 

Não, felizmente ainda me sinto um jogador jovem e hoje em dia no top-100 a média é de 31 anos. Nunca pensei no final da minha carreira.

Tem um plano B fora dos courts?

Não, não. Nunca pensei sobre isso. Tento viver o presente da melhor maneira que sei. Talvez daqui a três ou quatro anos comece a pensar nesse futuro.

Aos 35 anos o Federer está numa forma espetacular. Como vê o regresso do suíço e também de Rafael Nadal à competição? 

Penso que toda a gente que gosta de ténis quer ver tanto o Roger como o Rafa a jogar ao mais alto nível. Ter esses dois jogadores de volta e, neste caso, o Roger que tem vindo a fazer uma época brilhante, é muito bonito de se ver. Fico muito contente não só por ele como pelo ténis mundial.

Nos últimos quatro anos tem feito a pré-época com o Nadal. O que tira dessa experiência?

Eu tenho uma relação não só profissional como pessoal com o Rafa e é sempre bom poder privar um pouco mais com ele nessa semana de treino. Tento aprender ao máximo com o que ele me transmite e do treino em si. É sempre uma semana muito agradável, em que consigo sair com um nível muito alto de ténis.

Teve uma situação insólita há pouco tempo em Indian Wells. Conte-nos o que se passou...

O chapéu não pode ter dois logótipos, neste caso do meu patrocinador, e o árbitro quis cumprir a regra à risca. O chapéu tinha um símbolo muito pequeno que mal se via. Ele aplicou a regra e fez-me saber que tinha de o cortar. No entanto, eu achei que o árbitro deveria estar mais concentrado no trabalho dele, que é chamar as bolas da melhor maneira possível. Já tinha errado algumas bolas e chamei a atenção nesse aspeto, de não estar tão focado nessas pequenas coisas mas sim numa bola ‘dentro’ ou ‘fora’, que pode fazer a diferença.

Uma questão que tem sido muito debatida no ténis é a questão do prize money. Justifica-se a diferença entre os escalões masculino e feminino? 

Eu não gosto muito de falar nisso porque depois as pessoas chamam-me machista. Penso que tudo se resume à questão económica de vender mais ou não. Infelizmente, ou felizmente, o ténis masculino, hoje em dia, vende muito mais. Foi um grande passo para o ténis feminino ter conseguido um prize money igual ao masculino nos Grand Slams e nos Premier. Desde que o ténis masculino continue a vender e a ser promovido da melhor maneira, fico contente pelo ténis feminino.

Face ao número de jogadores que têm um serviço cada vez mais potente e à evolução das raquetes, acha que há regras no ténis que devem ser alteradas para que a modalidade se torne cada vez mais competitiva? Chegou até a ser falado um possível aumento da rede...

O ténis é um desporto com muita história e tradição, poucas foram as regras que mudaram desde que começou a modalidade em termos de regras de campo. Todas essas regras e mudanças que possam eventualmente acontecer não serão feitas num futuro próximo. O ténis tem mudado ao longo dos anos, mas a essência está muito presente. Acredito que seja muito difícil mudar alguma coisa nesse aspeto, seja linhas, rede ou bolas. 

Ganhou o primeiro ATP em 2013, em Kuala Lumpur. O último foi em 2015, Valência. Precisa de ganhar um novo torneio?

Não, sentir necessidade de o fazer, não. É óbvio que seria uma grande alegria, mas eu foco-me muito no nível de jogo. Não é algo que me deixe obcecado.  

Quando percebeu que queria ser jogador profissional de ténis?

O ténis é a grande paixão do meu pai e foi ele que desde cedo me impôs esse bichinho. Aos 15 anos decidi que queria ser profissional de ténis ou pelo menos tentar. Ir para Barcelona foi uma aposta muito grande na minha carreira.

Como foi a mudança para Barcelona? Nunca sentiu vontade de desistir?

Nunca! Fui sozinho. Comecei na federação de ténis catalã. Os meus pais e os meus amigos ficaram em Portugal. Eu sou uma pessoa de ideias muito fixas e tinha esse objetivo de ser profissional. Quando eu meto uma coisa na cabeça dou tudo para a conseguir. Neste caso, foi mesmo isso que aconteceu. Eu tinha a ideia clara de que queria ser profissional e felizmente hoje consigo colher os frutos desse trabalho e esforço.

Os estudos ficaram de parte ou continuou em Espanha?

Continuei. Uma das regras dos meus pais era que eu ia para Barcelona na condição de estudar e continuar a passar de ano. Se reprovasse, voltaria para Portugal. Tanto eu como a minha família demos sempre muita prioridade aos estudos. Eu era bom aluno, mas não foi fácil. A língua e o ensino eram diferentes. Mas consegui fazer o 12.º ano e os exames de acesso à universidade. Só a partir dos 18 anos é que me dediquei exclusivamente à carreira de tenista.

Numa entrevista há pouco tempo, André Agassi disse que o ténis lhe deu muita coisa mas também lhe tirou. Sente que o ténis também pode ter-lhe tirado alguma coisa?

Tirar, tirar não. Sem esforço, sem dedicação e sem abdicar de muitas coisas é impossível ter sucesso, não só no ténis mas também na vida.Tudo o que tenho foi o ténis que me deu. Mais do que possa ter tirado.

Por vezes, o lado pessoal não passou para segundo plano?

Sim, mas se o ténis não for prioritário é muito difícil ter êxito. Quando digo prioritário não quero dizer que seja só isso. Eu consigo conciliar a minha vida profissional com a pessoal da melhor maneira e, até ao momento, estou contente com isso.

Sente que já tem o seu percurso cumprido, tendo em conta tudo o que fez até agora?

Não, não. Eu sou um atleta muito ambicioso e sinceramente não dou muita importância ao que as pessoas dizem no sentido de ser o melhor tenista português de sempre. Não tenho uma opinião sobre isso. Sou mais um tenista, uma pessoa ambiciosa que tenta alcançar os objetivos. Tento ser sempre o melhor. Não penso muito se já fiz ou se não fiz.

Dos tenistas portugueses da atualidade, há algum que possa vir a ser o próximo João Sousa?

Na verdade, não tenho estado muito atento ao futuro do ténis português. A minha carreira é prioritária e como estou muito tempo fora torna-se difícil estar atento. Mas acredito que haja condições para que no futuro tenhamos jogadores muito bons. 

Qual o conselho que daria a uma pessoa que quisesse ser tenista profissional?

O importante é trabalhar, ser muito ambicioso e ter paciência. Por vezes o bom trabalho não significa que os resultados sejam imediatos. Nós, portugueses, temos tendência a ser um pouco negativos, mas eu acho que é importante ser paciente e ser consistente na maneira de trabalhar.

Os portugueses são mais negativos do que os espanhóis?

Não consigo comparar a mentalidade espanhola com a portuguesa. São muito parecidas. Não quero generalizar, mas uma boa mentalidade é sempre fundamental para ter êxito no ténis.  

Um novo título há de vir?

Oxalá, oxalá! Seria obviamente muito bom conseguir um título este ano. Seria uma grande alegria.