Economia

Marcas antigas lideram corrida para o futuro

Estudo revela que são as principais construtoras automóveis mundiais e não as grandes tecnológicas que conseguirão fazer chegar primeiro ao mercado o carro autónomo.É que para além da tecnologia, há muitos outros fatores que vão fazer com que as pessoas optem por comprar as velhas marcas.

As principais fabricantes mundiais estão a liderar a corrida da construção do carro autónomo. Segundo um novo estudo, as empresas de tecnologia que se têm dedicado a este empreendimento – como a Google, a Tesla ou a Uber – estão longe dos lugares cimeiros.

A liderança é ocupada pela Ford, marca norte-americana com 113 anos, seguida da conterrânea General Motors. A franco-nipónica Renault Nissan fecha o pódio e as alemãs Daimler e Volkswagen o top 5.

A Waymo, o projeto de carro autónomo da Google, está em sétimo lugar na corrida pela tecnologia de condução autónoma e a Tesla em 12º. A Uber está em 16º, atrás da Honda e à frente da startup Nutonomy e da chinesa Baidu. 

Um novo documento da Navigant Research – empresa de investigação em marketing e consultoria de análise nos mercados globais de energias limpas e tecnologia  – , elenca a tabela com base não apenas na tecnologia de construção do automóvel em si, mas também na capacidade de fazer chegar o carro ao mercado.  

«A tecnologia é ótima, mas a não ser que haja capacidade para construir milhares de carros e pôr as pessoas a guiar esses carros, não é assim tão útil», diz Sam Abuelsamid, o responsável pelo relatório da Navigant Research. 

O documento selecionou as 18 principais marcas que estão a desenvolver tecnologia para carros totalmente autónomos e classificou-as de acordo com nove critérios, entre os quais tecnologia, estratégia ‘go-to-market’, capacidade de produção, resistência, além das vendas, do marketing e da distribuição. 
Tanto a Ford como a GM estão a meio da tabela na vertente da tecnologia mas as suas competências, muito antigas, levam-nas até ao primeiro e segundo lugar. 

Cada uma delas tem mais de um século de experiência no desenvolvimento, ensaio, produção, marketing, distribuição e venda de automóveis. 

Colmatar os pontos fracos

Para além disso, ambas têm estado a desenvolver estratégias para colmatar os seus pontos fracos. A Ford investiu mil milhões de dólares na Argo AI, uma startup de roboticistas e engenheiros da universidade de Carnegie Mellon especializados em inteligência artificial. 

Para além disso comprou a Chariot, empresa de serviços de partilha de serviços de transporte e investiu na Velodyne, uma empresa que fabrica uma tecnologia de laser scanning que muitos dizem ser imprescindível para os veículos de  condução autónoma. 

Já a Waymo tem a melhor classificação em termos de tecnologia, mas está por baixo na estratégia de produção e vendas, marketing e distribuição. 

A empresa tem como objetivo trabalhar com marcas de carros já implantadas no mercado para lhes fornecer a tecnologia. Mas até agora ainda está por assinar qualquer acordo. «Já conseguiram quase todas as vertentes deste desafio – exceto a estratégia para o produto», refere o responsável do estudo, citado pelas agências de notícias internacionais. 

Apesar da grande visibilidade dos ensaios dos carros autónomos da Uber em diversas cidades dos EUA (Pitsburgh, Pensilvânia, Tempe, Arizona e São Francisco, Califórina),  a empresa está próximo dos lugares mais baixos devido às notas baixas em distribuição, portfólio de produtos e resistência – para além de que a Uber não faz nem carros nem dinheiro. 

De facto, a sua principal força – a marca já opera uma frota global de veículos partilhados – pode não ser suficiente nesta situação. «É muito mais fácil para uma empresa que já tem uma infraestrutura de criação de veículos recriar o que a Uber fez, do que ao contrário», acrescentam os  autores do estudo. 

Atualização 

A Tesla, uma das marcas de maior visibilidade  na inovação tecnológica da condução, está no meio. É forte na visão e na estratégia ‘go-to-market’ – já tem carros semi-autónomos no mercado. 

No final do mês passado a marca atualizou a o seu software AutoPilot 8.1, expandindo as capacidades autónomas dos seus modelos. Depois do instalado o software, o carro consegue guiar sozinho até uma certa velocidade, estacionar em lugares apertados e mudar de faixa quando o condutor liga o pisca. 

Mas a Navigant considera que a Tesla falha na resistência – é um ator novo numa indústria brutal – vendas, marketing e distribuição (a Tesla está longe de estar em todo o lado) e tecnologia (uma vez que não usa os lidar que os especialistas em tecnologia dizem ser vital para a total autonomia). 

Os autores do relatório defendem que ainda estamos no início desta corrida e que esta demorará anos, mesmo décadas. 

Cada uma das empresas poderá colmatar as suas debilidades através de parcerias e aquisições e saltar para a frente da corrida.

Em 2015 a Ford ficou em quinto lugar do curso e a Uber nem sequer figurava na lista. 

«Estes resultados estão longe de ser os finais», diz o responsável do estudo, lembrando que o ranking pode mudar e que é preciso muito mais que tecnologia para mudar o mundo. Ter músculo ainda é muito importante. 
 
Parcerias 

E com esta perspetiva de conseguir ganhar músculo que a  Daimler e a Bosch anunciaram a meio da semana uma parceria para criarem um carro completamente autónomo nos próximos anos. 

O acordo de desenvolvimento entre a construtora da marca Mercedes e a Bosch tem como objetivo o «desenvolvimento de um projeto de um sistema de condução que permite uma condução completamente autónoma na cidade que está pronto a produzir», revelaram as empresas em comunicado citado pela agência AFP.

Disseminação 

«No início da próxima década» as empresas esperam estar a produzir carros autónomos de nível 4 – capazes de substituir o condutor em determinadas circunstâncias –, tal como o mais desafiante «nível 5», que significa uma condução completamente autónoma em todas as circunstâncias. 

Empresas como a Bosch e a Daimler que, tal como a Ford, nasceram ainda no século XIX, têm a expectativa que a nova tecnologia altere a relação das pessoas com os carros, à medida que a partilha de viaturas se torna mais popular com a disseminação da condução autónoma.

Na perspetiva das empresas, «os clientes poderão mandar vir um carro autónomo partilhado através dos seus smartphones. Depois o carro vai ter com a pessoa de forma completamente autónoma».

A Daimler vai contribuir para  o projeto com sua ampla experiência no desenvolvimento e na produção de veículos. Já a Bosch vai disponibilizar o seu conhecimento em sistemas de informação e em hardware. A expectativa é que possam vir a liderar a grande corrida ao carro autónomo, que está cada vez mais próximo.